A fisiologia da perda de peso para mulheres. Parte II: Apetite e regulação de peso

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Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.
No primeiro artigo eu escrevi sobre a fisiologia da perda de peso para mulheres e foquei no papel que o estrogênio tem sobre as reservas de gordura. Notei, ao final do artigo, que o estrogênio está envolvido com o envio de sinais que regulam o apetite para o cérebro. Isso é um fator importante na perda de peso em mulheres. Homens tem retornos hormonais que ditam sua saciedade, também, mas o seu corpo fica menos ligado a quanta gordura ele tem. Para uma mulher, ter gordura é essencial para a gravidez e parto. Por tal razão, o corpo de uma mulher erra para o lado da cautela com respeito aos estoques de gordura. Quando em dúvida, ele grita “coma!”.
O que isso significa é que é muito mais fácil para as mulheres serem bombardeadas com demandas fisiológicas para comer. Essas compulsões não são coisas maliciosas, e uma mulher nunca deve ficar incomodada com o próprio corpo por tê-las. É natural e necessário para a saúde. Somente aceitando nossa forte necessidade biológica por comida como um fato fisiológico, é que nós mulheres poderemos seguir com amor, cura holística e perda de peso positiva e agradável.
O que se segue é uma visão geral dos mecanismos através dos quais os corpos femininos “se prendem” aos estoques de gordura. Isso não é dizer que o corpo quer ter sobrepeso. O corpo quer ter um peso apropriado e atraente. O que acontece é que fatores normais de regulação do peso são desregulados por uma dieta inflamatória, e o abuso prolongado deixa o sistema mais e mais fora dos trilhos. As boas notícias é que como o corpo de uma mulher quer ter o peso apropriado, uma vez que ela comece a tratá-lo com amor e nutrição apropriados, os quilos naturalmente somem.

Gordura como um órgão vital

Não muito tempo atrás, os cientistas achavam que as células de gordura eram simples unidades de armazenamento de energia. O metabolismo pegaria a energia armazenada nas células de gordura quando precisasse, e as células gordurosas iram continuar lá quietinhas. O metabolismo poderia depositar mais energia nelas em outro momento, e então mais tarde ele viria pegar a energia de novo. As células de gordura eram consideradas unidades de armazenamento, e nada mais.
Desde 1994, com a descoberta da leptina, a ciência gradualmente desenterrou a surpreendente noção de que o tecido adiposo não é apenas um espaço de armazenamento, mas também um órgão endócrino por si. A gordura recebe sinais de hormônios; ela está ativamente envolvida em quanta gordura é armazenada em suas próprias reservas, e em como esse armazenamento é feito; e ela envia potentes sinais. Esses sinais são cruciais. Eles dizem ao cérebro quanta energia está armazenada sob forma de gordura. Níveis mais altos de leptina sinalizam para o hipotálamo que o organismo não precisa comer mais. Potentes estimulantes do apetite tais como o neuropeptídeoe Y e a anandamida são inibidos pela leptina no hipotálamo, e a produção de alfa-MSH, um supressor de apetite, é encorajada. Apesar de haver dúzias de hormônios e neurotransmissores envolvidos na sinalização do apetite chegando e saindo do cérebro, o que isso demonstra é que a leptina mais ou menos controla o show. Mais leptina = menos comida.
Quer dizer, a menos que o organismo seja resistente à leptina.

Resistência à leptina

Resistência à leptina ocorre quando a leptina inundou um sistema. Além de se originar dos estoques de gordura, os níveis de leptina no sangue também sobem com o consumo de alimentos. A leptina:
  1. Tem um pico após comermos uma grande refeição, particularmente uma refeição rica em carboidratos, já que a leptina trabalha em conjunto com a insulina
  2. Goteja na corrente sanguínea se a comida é ingerida em pequenas quantidades ao longo do dia.
Então os níveis de leptina sobem sempre que o corpo realmente acha que está bem-alimentado.
A super-secreção de leptina é a principal maneira através da qual as pessoas desregulam a sua sinalização desse hormônio, por exemplo, se elas comem refeições demais sem esperarem pela fome retornar entre elas, ou se “beliscam” o dia inteiro, ou se fazem lanches ao longo do dia. Basicamente, a resistência à leptina se desenvolve quando os impulsos normais de regulação do peso são ignorados. Isso é fácil de fazer na presença de comidas e bebidas altamente palatáveis. Outros fatores que podem jogar os sinais de leptina para debaixo do ônibus são o estresse, a falta de sonoproblemas com neurotransmissores ou deficiências nutricionais. Sob a influência desses fatores, ou talvez de vários deles em conjunto, fica difícil para uma mulher “ouvir” a sinalização da leptina em seu hipotálamo.
Uma vez que as pessoas começam a ignorar os seus sinais de leptina, eles ficam mais e mais fáceis de se ignorar. Isso é porque níveis constantemente elevados de leptina fazem com que os receptores de leptina tornem-se insensíveis à leptina livre na corrente sanguínea. Então, à medida que o corpo percebe que a sua sinalização de leptina normal não está fazendo o que devia, ele incita a comer mais, ganhar mais peso e a níveis mais altos de leptina – na esperança de que um sinal de leptina mais forte vai funcionar. Por essa razão, a obesidade está correlacionada com altos níveis de leptina, ainda que muitas pessoas obesas reclamem de fome constante.
Resistência à leptina é um problema para todo mundo. Tanto homens quanto mulheres. Sem resolver o problema da sensibilidade à leptina, é muito difícil perder peso, e é ainda mais difícil de seguir qualquer tipo de restrição dietária. Mas as mulheres, que tem níveis de leptina mais altos que os homens (tendo maiores percentuais de gordura corporal) e que tem eixos HPA mais voltados para conservação de energia, são particularmente sensíveis a flutuações nos níveis de leptina.

Leptina e menstruação

Atingir um certo nível de leptina é o gatilho primário para a menarca (a primeira incidência da menstruação). O estresse, a genética, a exposição ao tabaco, e não ter sido amamentada são outros fatores importantes. Até onde os pesquisadores podem dizer, através da história evolucionária, os ciclos menstruais começavam geralmente aos 15 ou 16 anos de idade. Alguns estudos foram conduzidos no século XIX, documentando a menarca. Em 1850, as meninas começavam a menstruar numa idade média de 17 anos; em 1960, essa idade reduziu-se para 13 anos, Hoje, nos EUA, aproximadamente 10% das meninas começa a menstruar antes dos 11 anos de idade, e 90% das garotas americanas estão menstruando aos 13.75 anos, com uma mediana de idade de 12.43 anos. Tanto garotas negras quanto latinas começam a menstruar antes das garotas brancas.
Muitos suspeitam que os pesos corporais e níveis de leptina mais altos são responsáveis pela mudança na menarca. Um estudo de 2011 mostrou que a cada 1kg/m2 a mais no IMC durante a infância, pode-se esperar um risco 6.5% mais alto da menarca ocorrer antes dos 12 anos de idade.

Leptina e o set point reprodutivo

Saber sobre a puberdade e a menarca é tão importante para mulheres adultas porque o funcionamento reprodutivo de uma mulher pelo resto da vida é influenciado pelas condições dos seus primeiros anos reprodutivos. Tendo iniciado a menstruação com certa concentração de leptina na corrente sanguínea, o corpo de uma mulher trata isso como uma espécie de padrão (“set point“) futuramente. Ter certo nível de leptina, também, influencia os níveis de estrogênio e progesterona de uma garota jovem, de maneira tal que esses também se tornam set points reprodutivos. Por conseguinte, se uma mulher baixa muito os seus níveis de leptina ou estrogênio mais tarde na vida ao perder muito peso, o seu corpo fará o impossível para conseguir aqueles níveis de volta. Um fenômeno similar ocorre se ela adquire sobrepeso e torna-se resistente à leptina.

Estimulando o apetite em resposta a baixos níveis de leptina

A maneira como o corpo tenta aumentar a concentração de leptina e estrogênio é aumentar a massa de gordura. A maneira de aumentar a massa gorda é aumentar o apetite. Esse é o motivo pelo qual a leptina é um sinal tão potente no cérebro de uma mulher. Com níveis de leptina diminuídos (ou com insensibilidade à leptina), os neurônios estimuladores de apetite se regulam para cima fortemente.

Notadamente, mais mulheres professam vício em açúcar do que homens. Um dos neurônios que detecta a diminuição de concentrações de leptina  no sangue é chamado Neuropeptídeo Y. O Neuropeptídeo Y estimula a compulsão por carboidratos. Mulheres que experimentam a fome – ou ao menos, mulheres cujos hipotálamos detectam níveis de leptina mais baixos do que seus corpos consideram bons – passam por compulsões insidiosas por carboidratos.

As mulheres estão presas em set points de leptina ?

Não. Não necessariamente.

A verdade é que o caso é complicado. O corpo de uma mulher nunca vai “querer” ter sobrepeso. Mulheres começam a menstruar durante um certo nível de leptina, e em certa idade, mas mesmo que isso ocorra em uma idade muito jovem, a leptina ainda está no mesmo nível absoluto que outra mulher pode experimentar, só que muitos anos depois. Então os seus níveis de leptina, mesmo que  estivessem mais altos que o normal nessa época, ainda não estão elevadíssimos durante a menarca.

Além disso, se uma garota jovem tem sobrepeso quando começa a menstruar, naquela época o seu corpo está provavelmente lutando e sinalizando um desejo de perder peso. Simplesmente não está funcionando porque alguns dos sinais foram perturbados pela dieta e estilo de vida ruins. O desejo do corpo dessa mulher de perder peso vai persistir pelo resto da vida. Os caminhos hormonais e o apetite ainda estão funcionando. Eles apenas estão implorando para serem restaurados ao seu funcionamento normal. Tudo que a mulher precisa é ouvir, e nutrir o seu corpo apropriadamente. Desta maneira, ele será seu parceiro na perda de peso, ao invés de seu adversário.

Outros estimulantes do apetite

O apetite é estimulado através de alguns outros caminhos importantes. Eles não estão limitados às mulheres. Por exemplo, as compulsões de um indivíduo por certas comidas aumentam como um resultado de deficiências nutricionais. Insulina e glicemia flutuantes são importantes. Estresse é importante. Condicionamento social, padrões de pensamento negativo, respostas psicológicas às dificuldades, e problemas com auto-imagem também são potentes estimulantes de compulsões.

Neurotransmissores como estimulantes de apetite

Talvez mais significativa, entretanto, é a relação entre os neurotransmissores e a comida, especificamente para mulheres. Quando os níveis de serotonina caem, a compulsão, novamente, particularmente por carboidratos, aumenta. Os níveis de serotonina podem ser desregulados por um vasto número de problemas. Esses vão de deficiência de nutrientes até desbalanço ômega-6/ômega-3, passando por sono deficiente, obesidade, exercício e estresse. Os níveis de serotonina também flutuam com o ciclo menstrual. Muitos creem que uma queda de serotonina durante a fase lútea (as duas últimas semanas) do ciclo menstrual é a causa dominante da TPM. Isso explicaria o motivo de muitas mulheres experimentarem compulsões por doces durante a TPM. Essas são naturais, até certo ponto. Mas a TPM é uma flutuação extrema, e resolver os fatores subjacentes de dieta e estilo de vida que causa a TPM também deveria reduzir as oscilações violentas nas compulsões que fazem tantas mulheres sofrerem durante seus ciclos menstruais.

O paleo dos neurotransmissores no apetite merece vários artigos por si só. Eles estão por vir. Por agora, é suficiente notar que os reguladores neurais de humor são ligações fortes entre o sistema reprodutivo de uma mulher e seus mecanismos de regulação de peso. Níveis sub-ótimos de serotonina em particular, aumentam a compulsão por carboidratos.

Tudo isso dito…

Mulheres vem equipadas com um sistema projetado para manter massa adiposa adequada. Se uma mulher tem sobrepeso, é porque os reguladores normais de peso que ela tem não estão recebendo o cuidado requerido para sinalização efetiva. Insensibilidade à leptina, no caso de uma mulher com sobrepeso, ou baixa de leptina, no caso de uma mulher abaixo do peso, as compelem a comer e comer e comer. O estrogênio, como eu frisei no artigo anterior, também é um regulador de peso significativo, único às mulheres. Ele, também, é desregulado pela dieta e estilo de vida. Entretanto, com a restauração do funcionamento apropriado de todos os mecanismos subjacentes que funcionam no corpo de uma mulher, especificamente com os níveis de leptina e estrogênio, o peso de uma mulher pode cair. Mais sobre isso em meu artigo futuro sobre a maneira mais fácil, mais natural (Dieta paleo! Estresse diminuído! Auto-estima!) de mulheres perderem peso.

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