Falta de glúten causa diabetes, ou "O telefone sem fio parte XXVII"

Tem dias que bate desânimo. Você escreve sobre low-carb durante anos, apresentando estudos que embasam suas palavras. Vira noite para terminar um artigo. Se esmera para achar uma foto bacana para ilustrar. Perde horas fazendo traduções.

Aí a mídia solta "falta de glúten causa diabetes", e pronto. Tudo por água abaixo.

Nos últimos dias, recebi dúzias de emails me questionando sobre o caso. "Um estudo de Harvard, que durou 30 anos e examinou 200.000 pessoas, mostra que comer sem glúten aumenta o risco de diabetes tipo 2". Socorro! Fujam para as colinas!

Pois bem, engole o choro e explica tudo de novo.

Primeiramente, vamos à notícia. No original em inglês, a manchete diz (grifos meus): 

Uma dieta sem glúten PODE estar associada a maior risco de diabetes tipo 2. (veja aqui)

Já em português, ela magicamente virou :

Deixar de consumir glúten AUMENTA risco de diabetes, diz pesquisa. (veja aqui)

Cansa, né? Lembram da história do fisiculturista que "morreu de câncer por consumir proteína demais"? E da pesquisa que dizia que "dietas ricas em proteínas aumentam o ganho de peso"? 

Mas tudo bem, deixemos o sensacionalismo de lado e vejamos o conteúdo. Primeiramente, chama a atenção a fonte da pesquisa: Escola de Nutrição de Harvard, lar do Dr. Walter Willet – o nutricionista vivo mais famoso do mundo, ferrenho defensor das dietas mediterrâneas e inimigo feroz da gordura saturada.

"Segundamente", trata-se (para variar) de um estudo OBSERVACIONAL. Vou repetir em negrito: OBSERVACIONAL. Vou repetir em negrito vermelho: OBSERVACIONAL.

O que isso quer dizer? Você lê esse blog há quanto tempo? :-D

Resumindo, é o seguinte: um estudo observacional não é capaz de apontar causa e efeito. Ele indica associações, e pode levar à geração de hipóteses – e não passa disso. Não há intervenção, ninguém testou um jeito (com glúten) e outro jeito (sem glúten) e declarou o vencedor. Pessoas foram ENTREVISTADAS sobre o que comeram, os dados planilhados (confiando na memória delas) e conclusões tiradas disso.

Mas quem deixou de comer glúten, tomava mais refrigerante? Comia mais doces? Comia outras massas feitas de arroz, por exemplo?

Isso inclusive me lembrou uma outra manchete tão tosca que eu não me dignei a comentar na época: a de que dietas sem glúten favorecem contaminação por metais pesados. É de uma má-fé tão grande que dá vontade de sair batendo em quem escreve.

Qual a premissa, no fim das contas? Uma pessoa que não come trigo (por conta do glúten) vai acabar comendo mais arroz (que não tem glúten). Só que o arroz naturalmente concentra metais pesados em suas raízes, por conta do plantio em brejos. Aí o cara tira o glúten, se entope de arroz e é contaminado.

Mas veja: eu não como glúten, não como arroz e TCHARAM! Não fui envenenado por metais pesados.

Para exemplificar, gosto sempre de indicar o site "Spurious Correlations". Nele são mostradas grandezas que estão correlacionadas ao longo do tempo, mas que na prática não têm NADA A VER uma com a outra.

Consumo per capita de queijo X Número de pessoas que morreram por se embolarem nos próprios lençóis


Taxa de divórcio no estado do Maine X Consumo per capita de margarina

Já até imagino as manchetes em revistas brasileiras:

Se você gostar muito de queijo, não durma de lençol!

Quer livrar-se daquele marido chato? Comece a comer margarina.


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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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