Oh, admirável mundo novo!

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fireworksNo domingo passado, o Dr. Souto se fez mais uma vez de arauto das boas novas e publicou um texto sobre a carta enviada recentemente pela AND (Associação Americana de Nutrição e Dietética) ao DGAC (Comitê para o Desenvolvimento das Diretrizes Dietárias Americanas).
O DGAC é o órgão de aconselhamento que a cada 5-10 anos, desde 1977, publica uma compilação sobre “o que é saudável comer”. Desde que a história foi roubada, vimos coisas estapafúrdias como “coma ovos sem as gemas”, “não coma ovos” e “prefira os desnatados” tomarem conta da orientação nutricional nos EUA – e por tabela, mundo afora (com os resultados conhecidos: uma epidemia mundial de obesidade, diabetes, hipertensão, aterosclerose…).
O negócio é que as diretrizes de 2015 tiveram viradas TÃO GRANDES, que ficou todo mundo sem saber o que dizer – os defensores do conhecimento tradicional perderam o pé de apoio, e os que defendem a revisão nutricional ficaram com cara de “quando a esmola é demais, o santo desconfia”.
Veja bem, as diretrizes ainda apontam para muita coisa errada, mas a montanha de evidências acumuladas sobre o papel real dos carboidratos, colesterol, gordura saturada e companhia foi suficiente para sacudir a cabeça dos doutores que definem o conceito de “saudável”.
Só que o que ninguém esperava MESMO é que a AND elogiasse o novo texto. É mais ou menos como se de repente, um capitalista libertário virasse para o Karl Marx e dissesse “sabe que você pode até ter razão ?”.
A análise do Souto foi perfeita, mas eu gostaria de deixar traduzidos trechinhos da carta, só para que as gerações futuras  saibam que essa pode ter sido uma das semanas que mudaram a história do planeta.
O texto original está aqui.

A evidência é clara, de que mudanças no LDL e HDL induzidas pela dieta não podem ser entendidas como mudanças na prática, do risco de doença cardiovascular – e portanto o corpo de evidência que usa as lipoproteínas como desfechos substitutos para doença cardiovascular precisa ser excluído das considerações dos impactos da dieta sobre a saúde cardiovascular.

Traduzindo: “Mudanças no HDL e LDL não podem ser entendidas como alterações no risco de saúde cardiovascular”

Esta associação encoraja o HHS (Serviço de Saúde Humana) e o USDA (Departamento Americano de Agricultura) a considerar prover orientações aos americanos consumindo dietas comuns (mas não necessariamente recomendadas) que não são parte dos padrões dietários vigentes, tais como uma dieta de baixo carboidrato, para ajudá-los a fazer escolhas mais saudáveis dentro deste popular regime.

Traduzindo e lendo nas entrelinhas: “Dietas LCHF não devem ser excluídas de cogitação”

A ingestão de carboidratos implica num maior risco de doença cardiovascular do que a gordura saturada (…) A evidência de múltiplos estudos estima que o impacto da gordura saturada esteja próximo de zero.

Nem precisa de tradução 😉

A associação suporta a decisão do DGAC 2015 de não seguir adiante com as recomendações prévias de que a ingestão de colesterol seja limitada a não mais de 300mg/dia, pois a evidência disponível não mostra relação apreciável entre o consumo de colesterol e a quantidade sérica de colesterol.

Traduzindo: O colesterol que você come não influencia o colesterol em circulação no seu sangue.

No espírito da notável revisão 2015 feita pelo DGAC, a associação sugere que o HHS e o USDA apoiem uma revisão similar desenfatizando a gordura saturada como nutriente preocupante. Enquanto o corpo de pesquisa que liga a gordura saturada à modulação do LDL e outras lipoproteínas circulantes é significativo, esta evidência é essencialmente irrelevante à questão da relação entre dieta e risco de doença cardiovascular.

Traduzindo: gordura saturada pode aumentar o LDL, mas isso não tem nada a ver com risco cardiovascular.

Há uma crescente e distinta falta de consenso científico sobre ter uma única recomendação de sódio para todos os americanos, devido a um corpo de pesquisa crescente que sugere que os baixos níveis de ingestão de sódio recomendandos pelo DGAC estão na prática associados com o aumento da mortalidade em indivíduos saudáveis.

Traduzindo: opa, o sal não parece tão ruim quanto o tem pintado há algumas décadas…

Agora resta esperar que estas novidades se infiltrem pela área de saúde. Mesmo nos EUA, a reação tem sido brutal. Aqui no Brasil, eu chuto uns 10 anos no mínimo… Se você é profissional ou acadêmico da saúde, abra seus olhos e coração.

O conceito de saudável está mudando! Com sorte, vamos voltar a entender como “saudável” aquilo que nos foi roubado há 4 décadas: comida de verdade.

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