Por que estamos engordando ? Parte 1

por Danilo Balu

“Se você quer perder peso, não coma. Isso não é uma questão de medicina, mas de termodinâmica. Se você consumir mais (calorias) do que gasta, você armazena.” (Michael Bloomberg, prefeito de Nova Iorque 2002-2013)

Mas… será MESMO?!?

Esse raciocínio tão comum parte da premissa que pessoas ficam acima do peso, dentre outras coisas, porque elas não se movimentam o suficiente e/ou comem demais. Ou seja, o excesso de peso seria fruto de pouco movimento e/ou de muitas calorias. Uma caloria seria assim sempre uma caloria. Isso é o que chamamos de sabedoria popular, tantas vezes repetida e defendida mesmo por especialistas e suas muitas agregações (associações, instituições de ensino e conselhos de profissão) que ficou tão óbvio mesmo para um leigo.

Com tantos milhares de artigos científicos sobre o assunto, há uma enorme dificuldade que nos impede de distinguir entre o que é fato e o que é apenas associação mal-feita. Quando muitas vezes atribuímos a obesidade à matemática comer-gastar, equivocadamente acabamos por associar um peso corporal correto à disciplina à mesa ou na academia.

Damos, assim, como sabida a causa e perdemos a oportunidade de entender melhor a questão. Tomamos o errado como certo, e por consequência estamos há décadas tentando tratar um problema com um método (mais exercícios) que, como veremos, não irá funcionar.

“É melhor não saber nada (…) do que ter em mente uma ideia fixa baseadas em teorias para as quais buscamos constantemente comprovação.” (Claude Bernard, An Introduction to the Study of Experimental Medicine, 1865).

Redução calórica como medida primária
Escolha comportamental pessoal –(Não é verdade)→ Comer demais, exercitar-se de menos –(Não é verdade)→ Obesidade

O médico Louis Newburgh da University of Michigan muitas décadas atrás disse que os obesos têm um “apetite pervertido”, que supera em muito as necessidades calóricas que seus corpos precisam. Ainda segundo ele, “todos os obesos são semelhantes em um aspecto: eles comem demais”. A ideia da obesidade como consequência de um mistura entre balanço energético, gula e preguiça virou uma ideia inquestionável, tão verdadeira e tão simples em sua compreensão que não precisaria ser sequer questionada. É a tal da “ideia fixa” que assola a Nutrição convencional.

Voltemos um pouco à nossa fixação com as calorias.

O raciocínio que dá tamanho peso à caloria no controle de peso implica que se, por exemplo, reduzíssemos nossa ingestão calórica optando por alimentos que mantenham nossa insulina alta, como os ricos em carboidrato, AINDA ASSIM emagreceríamos. Não deve haver muitas pessoas vivas na Terra que não tenham tentado alguma vez comer menos para emagrecer. E sabemos que os resultados não são como o esperado. Por quê?

Com insulina presente o corpo não tem como acessar facilmente seus estoques de gordura corporal, essa é nossa cruel fisiologia que permitiu que chegássemos até aqui na evolução por milhões de anos. Mas este texto não é sobre a suposta melhor eficiência da dieta de pouco carboidrato (low-carb) sobre a dieta de pouca gordura (low-fat), é sobre entender melhor a obesidade. Isso porque para entendermos melhor como perder peso, faz-se MUITO necessário entender como o ganhamos.


Primeiro comecemos com a ideia de mais atividade física como saída


Ao olharmos atentamente as estatísticas, vemos que a população realmente ouviu e seguiu as recomendações dos órgãos de saúde no que diz respeito ao exercício físico. De acordo com os dados americanos doNational Institute of Health (NIH) de 2001 a 2009, o número de americanos adultos submetidos semanalmente a 150 minutos de exercício moderado (ou 75 minutos de atividade vigorosas) aumentou na maioria dos municípios dos EUA. A variação existe, mas é um fato:estamos mais ativos. Porém, nunca estivemos tão obesos. Ou seja, se fizemos tanta atividade e mesmo assim estamos tão obesos, isso poderia indicar que o exercício físico parece simplesmente não ser a solução do problema. Figurativamente falando, atividade física parece não ser um remédio que funcione para essa doença, ao menos não para uma grande maioria; como indicam as pesquisas, estudos e evidências na ciência não faltam.

Por exemplo, uma meta-análise finlandesa feita em 2000 com 12 estudos avaliando a atividade física como ferramenta de perda de peso, concluiu que ela não tem efeito sequer para prevenir o aumento do peso. Em alguns estudos ela gerou até ganho de peso em relação ao grupo controle.

Anos e anos de progresso da ciência e tudo o que você tem pra me dizer é para comer menos?!?

Uma análise feita em 1986 pelo estatístico Paul Williams da Universidade da Califórnia (Berkeley) e por Peter Wood da Universidade de Stanford, avaliou 13.000 corredores e as distâncias treinadas por eles. Com o passar dos anos todos os atletas tendiam a ganhar peso, independente da distância semanal percorrida. A recomendação dos autores, estatísticos, era a de correr mais para gastar mais calorias e fazer a manutenção do peso.

Ou seja, para eles a manutenção de peso era uma questão matemática. Se cairmos na tentação de seguir essa orientação, um corredor terá que correr cada vez mais com o passar do tempo num ciclo quase infinito. Uma mulher de 20 anos que corresse 5km por dia, cinco vezes na semana, teria de aumentar para cerca de 24km por dia, cinco vezes na semana para manter aos 40 anos o peso que tinha aos 20. Vamos ver se essa abordagem com um enfoque matemático faz sentido.

Uma sistemática revisão sueca mostrou que uma intervenção que adiciona mais atividade física em indivíduos obesos tem um efeito marginal na perda de peso do grupo, sempre variando de pessoa para pessoa. Entretanto, vale frisar que são inegáveis e praticamente incontáveis os benefícios diretos e os indiretos de uma rotina de prática regular e bem-feita de atividade física. Parece não haver na área de saúde um profissional sério e qualificado que vá tentar negar isso. Porém, pretendo mostrar aqui que como ferramenta de controle ou perda de peso, a atividade física é uma péssima ferramenta; sua eficiência é baixa, muito baixa.

Pois se historicamente os dados indicam que estamos nos movimentando mais e se a revisão mostra que nos casos em que passamos a nos movimentar mais não houve uma bem-sucedida redução de peso, talvez esteja errada a mensagem que nos passam de nos movimentar mais para perder peso. Talvez o problema seja mais do que fechar a conta de ingestão e gasto calórico, precisamos primeiro entender, então, a questão do excesso de peso.

Gordura corporal, afinal, é aquilo que se deposita por baixo de nossa pele. Sendo assim, nada mais natural do que pensar e deduzir que a energia que ingerimos na alimentação vá gerar ainda mais gordura. O raciocínio é mesmo lógico e natural, tentador de tão simples. Mas não é mesmo tão simples.

Causa e consequência: a luta contra a obesidade


É bem provável que para resolver o problema da obesidade, tenhamos optado pela ferramenta errada sem saber disso, já que durante a maior parte do século passado parece ter sido um enorme equívoco nossa compreensão sobre o funcionamento do mecanismo da reservas de gordura no organismo humano.

Tradicionalmente, a sociedade entende a obesidade mais como uma questão de força de vontade do que uma desordem. É como se a pessoa pudesse naturalmente perder o excesso de peso, se ela realmente quisesse. Enxergamos o problema do acúmulo de gordura de uma forma menos científica e mais puritana. De certa forma, com um pé na ideia do pecado capital da gula como as causas desse problema, acabamos por condenar o obeso. Para combater um hábito pecaminoso e a falha de caráter por ter comido muito, bastaria comer menos ou se movimentar. Quase sofrer pagando um pecado.

E não era só isso... Entendemos, equivocadamente, ainda hoje, o problema de balanço de peso como uma questão puramente matemática. Seria uma questão de física, aquela explicada e regida pela Primeira Lei da Termodinâmica que fala sobre a conservação da energia: nenhuma energia pode ser criada ou destruída, apenas modificada.

Quando vamos para o campo do peso corporal, isso significa que as calorias ingeridas menos as gastas resultam nas que serão depositadas na forma de gordura quando este balanço for positivo. Ou seja, se a pessoa precisa de 2.000 calorias e ingeriu 2.500, estas 500 calorias do balanço positivo são um excesso que seria convertido em gordura. Em uma apressada conta inversa, cortar 500 calorias da dieta te traria ao antigo peso.

Mas será que estão nos oferecendo o tratamento certo para o problema em questão? Pode ser, porém, que entendamos que o ponto não é o excesso de comida e/ou falta de movimento, não seria gula nem preguiça. Ou seja, talvez não estejamos ficando acima do peso por comer demais, mas estaríamos comendo demais porque estamos em um processo de engorda.

É muito confuso pensar assim invertendo causa e consequência, mas é hora de nos perguntarmos se sabemos as razões reais da obesidade. É fundamental olharmos com atenção se por décadas não trocamos a ordem delas.

Está no site da Organização Mundial da Saúde (OMS) a definição: a causa fundamental da obesidade e do sobrepeso é o desbalanço entre as calorias consumidas e as calorias gastas. Ou seja, também para a OMS, é uma questão de balanço calórico. Mas voltamos ao ponto, é mais do que provável que por décadas de confusão invertemos razão e efeito, causa e consequência. Isso porque a Lei da Termodinâmica diz que alguém que engordou 1kg acabou consumindo calorias a mais do que gastou. Ela explicou a consequência do acúmulo, mas não a causa do consumo excessivo, apenas relata o fato (engorda) sem jamais explicá-lo em sua origem.

Podemos tentar explicar por diversas analogias. Uma delas é fazer um paralelo de uma pessoa com diabetes ainda não devidamente diagnosticada. Essa pessoa produz uma grande quantidade de urina e tem muita sede. Você poderia argumentar que ele urina muito porque bebe muita água. A melhor explicação, porém, sabemos ser outra: urinando tanto, ele precisa beber muita água. Sabendo de sua condição, conseguimos explicar que a causa e explicação do enorme volume de urina é a doença (diabetes), não o fato de beber muita água. Não seria bem aceito tentar explicar que a razão de urinar tanto é beber muito, pois sabemos que ele urina assim porque é um diabético mal-tratado. Essa analogia tenta explicar que urinar e beber muita água são consequências de uma doença, no caso, diabetes.

A ideia de que precisamos e conseguimos controlar de modo consciente nosso consumo calórico é tão crível quanto a ideia de achar que podemos controlar o quanto temos que respirar.

A bioquímica comanda e regula nosso comportamento, não o contrário. Se você tem um paciente bebendo 10 litros de água e urinando 10 litros por dia, pode ser que seja o caso de uma desordem comportamental. Mas é mais provável que ele tenha diabetes. Pedir que ele se controle, tenha força de vontade, “não seja preguiçoso”, “não tenha tamanha gula” por líquidos e “pare de beber tanta água” não o curará da diabetes. Mas por uma crença de lógica similar estamos seguros e acreditamos que pedir que alguém pare de comer muito resolve a obesidade de alguém com sobrepeso.

Talvez valha questionarmos: será que ao tentarmos aumentar o gasto energético com exercícios E/OU reduzir a ingestão calórica de um indivíduo com sobrepeso não estamos tentando resolver o grave problema da obesidade como alguém que fosse tentar curar um diabético apenas cortando a ingestão de água dele?

Fazendo outra analogia, explicar o excesso de peso tão somente por uma ingestão exagerada de comida é como tentar explicar o alcoolismo pelo consumo de álcool, esquecendo e ignorando toda a questão por trás da doença.

A febre é ainda outra boa analogia para explicar a obesidade, suas causas e consequências. Colocando muito gelo em alguém febril, conseguiremos baixar um pouco sua temperatura, que estará pouco elevada por causa da enfermidade. Porém, sabemos que o gelo por si só não irá curá-lo. Mais do que isso, para restabelecer a condição, seu corpo irá disparar algumas reações como tremer, para gerar calor e contrair alguns vasos sanguíneos, para perder menos calor pela pele. Ou seja, tratar um obeso oferecendo menos comida ou mais exercícios não deixa de ser como tratar alguém com febre, dando banhos de água gelada. Ou seja, estamos provavelmente combatendo algo sem saber sua causa e, mais importante, ainda gerando reações.

O aumento de peso não é sobre gastar pouca energia, é sobre uma desregulação de nosso armazenamento de gordura.

Pode parecer repetitivo listar analogias que nunca serão perfeitas, mas é quase central, é extremamente importante que tenhamos bem fixo esse problema fundamental de não confundir causa e consequência no debate sobre obesidade. Imagine que por décadas a Medicina, a Nutrição e a Educação Física têm ido dormir de sapatos como resultado de uma enorme bebedeira e no dia seguinte acordam quase sempre com uma forte dor de cabeça (ressaca). Porém, a solução escolhida pelas 3 é que, ainda que cambaleante, tentemos todos tirar os sapatos antes de dormir porque, afinal, sempre que dormiu com eles, acordou de ressaca. Por décadas, ainda que seguindo as orientações deles de tirar os sapatos antes de dormir bêbados, a enxaqueca no dia seguinte vem sempre igual. Precisamos lembrar que o culpado é o uísque, não o dormir calçado.

Um conto de fadas: o balanço calórico


“A causa fundamental da obesidade e excesso de peso, é um desequilíbrio energético entre as calorias consumidas e as calorias gastas”. (OMS)

A relação que poucos tentam negar entre o consumo de calorias com obesidade seria tão forte que estatísticas simples poderiam mostrar e comprovar. No entanto, o famoso estatístico Nate Silver em seu belíssimo livro “O Sinal e o Ruído”, usando dados de 84 países que disponibilizam os valores de consumo calórico, descobriu que a associação entre elas não é assim tão clara, é apenas tênue. Países como a Coreia do Sul ou Nauru, uma pequena ilha na Oceania, com o mesmo consumo energético, apenas um pouco acima da média mundial, apresentam índices de obesidade contrastantes (3% versus 79%). O gráfico obtido aponta evidências apenas limitadas da relação consumo calórico e obesidade, ou ainda, nas palavras do próprio autor: parece haver indícios restritos para uma associação entre obesidade e consumo calórico; pelos testes padrões, tal relação não seria qualificada como “estatisticamente significativa”. É um estatístico vendo o que a Nutrição, Medicina e Educação Física não enxergam.


A ideia de mais exercícios para combater o sobrepeso, entre outras coisas, parte ainda do pressuposto de que “todas as calorias são iguais”, afinal, o que importa é o balanço ao final do dia, tal qual o saldo bancário de um indivíduo. Mas isso teria que nos fazer supor que 100 calorias de refrigerante seriam como 100 calorias de um legume, por exemplo. Porém, o corpo trata e metaboliza os diferentes alimentos de formas bem distintas. Quando se acredita que todas as calorias são iguais, reforça-se a ideia que a questão é apenas gastar energia a mais e/ou consumi-la de menos. Aliás, um conceito muito interessante definido pelo pesquisador Robert Lustig é: os alimentos podem ser isocalóricos, mas não necessariamente isometabólicos, isto é, a energia é a mesma, as consequências metabólicas não.

Não deixa de ser, pois, um tanto ingênuo imaginar que nosso organismo, e sua intricadíssima rede de reações bioquímicas, lidaria do mesmo jeito com calorias vindas de um pão, ou de carne, ou de uísque. Porém, a ideia de que a obesidade é uma questão matemática e de balanço calórico nem sempre foi central. Até antes da 2a Guerra Mundial (1939-1945), muitos pesquisadores europeus acreditavam que a obesidade era uma desordem regulatória de causa hormonal. Em uma recapitulação cuidadosamente feita e investigada por Gary Taubes em seu livro “Good Calories, Bad Calories”, temos recontadas as ideias do médico alemão Gustav von Bergmann que explicava no início do século passado que nós comemos demais porque e quando estamos ficando gordos. Ele desmistificava o raciocínio do sobrepeso como tendo o desbalanço energético como causa, e não consequência. Defendia a causa da obesidade como uma desordem metabólica à qual deu o nome de lipofilia ("amor à gordura", em tradução própria). Suas teorias, porém, foram depois ignoradas.

Não foram apenas as ideias dele que parecem ter se perdido no tempo, em 1864, William Banting publicou a Carta sobre a corpulência, endereçada ao público. Sua dieta explicada na obra acabou virando verbete na Nutrição e foi muito recomendada por médicos até a metade do século passado. O autor perdeu quase 40kg em uma dieta rica em gordura e restrita em carboidratos. Porém, o British Medical Journal e o Lancet (importantes revistas médicas) publicaram uma resposta dizendo que tal dieta poderia ser perigosa. Na verdade, não foram muito gentis: elas aconselhavam Banting e todos os seus seguidores a não se meterem com literatura médica novamente e irem cuidar de sua própria vida.

Nutro certa simpatia por Banting porque hoje estou sendo perseguido até judicialmente por alguns órgãos e pesquisadores de Nutrição do país. Mas vamos seguindo.

Depois de Gustav von Bergmann, em 1951, foi publicado por sete respeitados clínicos britânicos o The Practise of Endocrinology. As recomendações nele eram muito parecidas com as de William Banting em 1864, ou seja, as comidas a serem evitadas eram: pães e tudo feito com farinha de trigo, cereais, cereais matinais, pudins, batatas e quaisquer outros vegetais e tubérculos que contivessem açúcar e todo tipo de doce.

Depois deles, em 1957, ainda veio Hilde Bruch, autoridade e especialista em obesidade infantil, que escreveu: "Um grande progresso no controle da obesidade pela dieta foi o reconhecimento de que a carne não é engordativa, mas que pães e doces é que causam a obesidade". Ou seja, para esses, o problema não era uma questão de quanto, mas do quê comer. Já que se a questão do ganho (ou perda) de peso é apenas numérica, de quantas calorias ingerimos, e não da composição daquilo que comemos, a ingestão calórica exagerada, ainda que por poucas semanas, deveria dar suporte à crença da teoria do balanço energético.

Questionando essa lógica citada amplamente em órgãos de saúde, Sam Feltham fez um curto experimento pessoal, sem validade científica. Por 3 semanas ele ingeriu diariamente uma média de 5.794 calorias com uma restrição tal de carboidratos que totalizou apenas 10% dessa energia consumida. Se a tese do balanço calórico fosse 100% válida, Feltham deveria ter engordado 7,5kg, mas ele ganhou apenas 1,7kg.

Essa diferença levanta uma hipótese: será que nosso corpo pode alterar seu gasto energético? Durante o experimento é bem provável que seu gasto tenha se elevado, explicando seu ganho de peso bem abaixo do esperado na teoria matemática do déficit calórico. E o que sugere ainda, outro estudo do Journal of the American Medical Association (JAMA) que examinou 21 sujeitos com sobrepeso ou obesidade, comparando a perda de peso entre dietas com restrição de gordura com as dietas restringindo carboidrato e também seu gasto energético. Mesmo consumindo a mesma quantidade calórica, a dieta com restrição de carboidrato gerou um aumento no gasto diário de 325 calorias por dia.
Você não consegue compensar uma dieta ruim pelo exercício…

O inverso também acontece, se você entrar em jejum objetivando perda de gordura, não perderá peso de forma equivalente ao desbalanço calórico. Ou seja, um indivíduo que “necessite” 3.000 calorias, em uma dieta de 500 calorias por alguns dias não irá perder o equivalente porque o corpo irá reduzir seu metabolismo.

Poderíamos argumentar que por não ser um experimento válido, Feltham, hoje sabidamente um defensor da não-validade do balanço calórico, estaria blefando, mentindo ou não teria controlado outras variáveis de uma forma precisa, como o gasto energético, por exemplo. Porém, há outros relatos parecidos que sustentam a veracidade ou a viabilidade desses dados. O que aconteceu neste curto experimento dele parece estar bem de acordo com o que ocorre em nosso organismo quando estamos com os hormônios bem regulados, ou seja, quando nosso corpo responde adequadamente aos estímulos.

Porém, ingerir grandes quantidades de carboidrato simples parece interferir justamente no balanço hormonal, aumentando a produção do hormônio insulina. Um exemplo que ficou mundialmente popular foi retratado num filme anos atrás, em “A Dieta do Palhaço” (Super Size Me, 2004). O diretor Morgan Spurlock também fez um auto-experimento sem validade científica. Ele ingeriu cerca de 5.000 calorias diariamente na mais famosa rede de fast-food do mundo por 30 dias seguidos. Ao contrário de Feltham, o diretor não comeu uma dieta de baixa ingestão de carboidratos, mas sim, uma dieta rica em carboidratos refinados e gorduras. Ao contrário do outro experimento, Spurlock ganhou mais de 11kg.

Esse ganho pode ter uma explicação simples, um estudo de 2004 sugere que a qualidade (ou tipo) da dieta importa muito, porque mesmo em uma hipocalórica, ratos submetidos a uma alimentação com alto índice glicêmico (IG) engordaram rapidamente. Eles ganharam cerca de 71% de gordura a mais do que os outros ratos que comeram mais calorias, só que por meio de carboidratos de menor IG.

Saindo dos casos individuais e sem validade, temos o caso de um experimento de um professor que fez 12 estudantes comerem por 4 semanas uma dieta rica em fast-food e calorias. Resultado: ganhos em média de 6,4kg, reforçando a ideia de que quando nossa dieta é rica em carboidratos simples e de alto IG é mais fácil ganhar peso porque há o aumento na liberação de insulina, hormônio responsável pelo aumento da massa adiposa. Esse ganho, por sua vez, é bem mais difícil na dieta de restrição de carboidratos, seja porque não há liberação de muita insulina no sangue, seja porque a gordura e proteína trazem maior sensação de saciedade, ou porque o corpo responde como respondeu no primeiro exemplo: aumentando o peso em uma quantidade bem mais modesta ainda que consumindo um grande excesso.

Há muitos exemplos registrados sustentando isso. Um estudo foi feito para comparar o efeito de uma alimentação hipercalórica separando os indivíduos em duas fases. Um grupo de pessoas magras e outro de pessoas com sobrepeso foram submetidos a dietas hipercalóricas (aumento de 50% das calorias) mudando a ênfase do macronutriente. O primeiro grupo (magro) consumia cerca de 2.700 calorias e o de sobrepeso 3.300. Passaram depois a ingerir 4.000 e 5.000 calorias. Esse período de excesso de calorias durou duas semanas. Ele foi seguido por mais quatro semanas de “limpeza” do corpo, quando elas voltaram às suas dietas padrão, antes de serem novamente submetidas a uma nova fase de 2 semanas de aumento de 50% das calorias. A diferença era que em uma fase aumentava-se o carboidrato e em outra a gordura. Se o sobrepeso é uma questão matemática, não deveria haver então mudanças já que o controle energético era rigoroso.

Mas não foi isso o que aconteceu: o carboidrato tem um impacto na quantidade de insulina do nosso organismo (insulinemia), o que tem influência direta na formação e armazenamento de gordura corporal – como demonstrou um importante estudo que descobriu que os carboidratos fizeram um grupo de sobrepesados, comparativamente, ainda mais gordos que um grupo de magros estudado. Esse achado da diferença de aumento de gordura foi confirmado depois ainda por outro estudo com período mais curto de dieta. Isso se explica pela diferença da metabolização de carboidratos como resultado da ingestão de carboidrato ou gordura na dieta. Essas importantes alterações nos indivíduos foram ainda confirmadas mais tarde também em outros dois estudos.

Esses experimentos são importantes não só por questionarem fortemente a ideia do balanço calórico como causa da obesidade, mas por indicarem qual a melhor forma de intervenção para combater o sobrepeso. Esses estudos são fundamentais porque reforçam a idiea de que a queima de gordura (lipólise) é reduzida quando a pessoa com sobrepeso consome uma dieta de pouca gordura (low-fat) e proporcionalmente mais carboidrato. Deste modo, quando falamos de controle de peso, perda de peso ou combate à obesidade, o balanço calórico é muito falho porque nem todas as calorias são iguais  – pelo fato de que ao organismo importa muito de qual macronutriente ela vem.




Danilo Balu é graduado em educação física pela USP e cursou nutrição na mesma instituição. É autor do livro "O nutricionista clandestino", que em suas próprias palavras "não é um livro de dieta, nem um manual para a perda de peso. O objetivo da obra é, sem falsa pretensão, proteger o leitor de equívocos graves que muitos nutricionistas profissionais repetem em revistas e programas de TV. É uma apresentação didática de estudos científicos sérios ao público em geral e o que a conclusão deles nos leva a repensar sobre emagrecimento e controle de peso. Ao terminar de ler a obra o leitor poderá questionar, com conhecimento de causa, seus hábitos alimentares e sua alimentação de modo a favorecer o controle ou perda de peso."

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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