Armazenamento de glicogênio

O natal veio e foi-se, e embora eu não tenha saído da dieta (excetuando-se pelo incidente da cerveja), abusei um bocado das farofas e frutas. O resultado logo veio: 3kg a mais na balança, em menos de 1 semana :-D

Mas de onde é que vem esse monte de peso ? Lembrei do artigo abaixo, que um leitor me enviou um tempo atrás. O original está aqui.




Armazenamento do glicogênio: ilusões de perda de peso fácil, reganho de peso excessivo e distorções na estimativa da composição corporal

por Stephen Kreitzman, Ann Coxon e Kalman Szaz

Publicado no Jornal da Associação Médica Americana, 1992

Resumo


A utilização dos estoques de glicogênio durante a redução de peso pode ter efeito significativo na perda de peso aparente e no grau de reinicidência após um período de dieta. O déficit de energia requerido para reduzir o peso usando glicogênio como combustível (821kcal/kg) é muito menor que usando gordura (7782kcal/kg) devido à diferença na contribuição energética das gorduras e dos carboidratos, e ainda mais, às grandes quantidades de água associadas com o glicogênio armazenado. Pequenos déficits de energia, por conseguinte, podem produzir a ilusão de significativa perda de gordura no início de dietas para perda de peso. A facilidade com que este peso será recuperado pode ser desapontadora para um praticante de dieta. A aparente facilidade da perda de peso inicial também pode levar a expectativas irreais sobre a habilidade de uma restrição modesta de energia ou mesmo exercício produzirem perdas de peso significativas. Estimativas quantitativas do armazenamento de glicogênio proveriam informação sobre a perda de peso inicial e rápida reincidência ao seguir uma dieta.

O glicogênio está associado ao potássio na proporção de 0.45mmol de potássio para cada grama de glicogênio, e o glicogênio é necessariamente exaurido nas fases iniciais de qualquer dieta. O esgotamento do postássio durante os primeiros dias de uma dieta cetogênica de muito baixo carboidrato (VLCD) deve primariamente refletir esta instabilidade do glicogênio.

Métodos


O protocolo do estudo foi aceito pelos comitês éticos das universidades de Cambridge e Swansea, e pela Fundação Howard de Pesquisa. Todos os sujeitos deram seu consentimento informado.

Onze mulheres de variados índices de massa corporal foram postas em dietas idênticas e padronizadas (1600kcal/dia) por 11 dias, antes de um extenso teste para perda de peso. A dieta de manutenção continha 201.7g de carboidratos, 59.3g de gorduras e 67.8g de proteínas. Quatro dias antes de iniciar uma dieta VLCD de 405kcal/dia (Dieta Cambridge), o potássio corporal total (TBK) foi medido em cada sujeito usando o contador de corpo inteiro do Hospital Addenbrookes (Cambridge, Reino Unido). O TBK foi medido novamente no mesmo local, após 5 dias de Dieta Cambridge e ao final do programa VLCD de 10 semanas.

A quantidade de glicogênio foi calculada tomando-se a diferença entre o TBK pré-dieta e o 5o dia de VLCD, expresso como mmol de potássio. Como 0.45mmol de potássio representa 1g de glicogênio, a perda de glicogênio total é expressa como mmol TBK/0.45.

Resultados


Os resultados são mostrados nas tabelas 1 e 2. As alterações de potássio durante os primeiros 4 dias em dieta VLCD, de 180mmol, comparam-se com apenas 104mmol perdidos nas 10 semanas de dieta subsequentes. Assume-se que a vasta maioria do potássio perdido nestes dias iniciais de dieta reflete primariamente aquele ligado ao glicogênio. A estimativa de ~400g de glicogênio armazenado equipara-se às outras estimativas de glicogênio armazenado em pessoas saudáveis.

Discussão


Dado que uma quantidade considerável de potássio está ligada ao glicogênio hidratado (0.45mmol de potássio por 1g de glicogênio) [1], a perda de 400g de glicogênio resultará na liberação de > 200mmol de potássio. Estudos de composição corporal usando K40 (N.T.: isótopo de potássio) assumem que cada quilograma de massa livre de gordura (FFM) está associado a 60mmol de potássio. A utilização dos estoques de glicogênio poderiam por conseguinte ser erroneamente interpretados como perda de ~3.5kg de FFM rica em nitrogênio.

A média de perda de glicogênio por esse grupo de sujeitos, de 400g, é razoável. Isso não deveria obscurecer a considerável variabilidade entre pessoas, na qual um sujeito chegou a 1kg de glicogênio. Perdas ou ganhos de glicogênio são reportadas [2] como associadas a 3 ou 4 partes adicionais de água, então uma mudança de até 5kg pode acontecer sem qualquer perda de gordura. Como os estoques de glicogênio são prontamente reabastecidos após a conclusão de qualquer programa de perda de peso, é necessário levar em consideração tais perdas antes de comparar a eficiência de métodos para perda de peso, antes de avaliar a reinicidência, e certamente antes de criticar os praticantes da dieta por falta de controle. Bergstom et al. [3] demonstraram que o glicogênio muscular pode ser exaurido para cerca de 1/3 do normal com uma dieta low-carb por 3 dias. Após uma dieta rica em carboidratos, o glicogênio armazenado aumentou em 6 vezes, mais que o dobro do normal. Esse reabastecimento excessivo do glicogênio, com água associada, pode seguir-se a um refeeding inapropriado pós-dieta, levando a ganho rápido e excessivo de peso que não é sob forma de gordura.



TBK
  Antes da dieta3300mmol
  No 5o dia da dieta3120mmol
  Perdidos após 4 dias de dieta180mmol
  Perdidos entre os dias 5 e 70104mmol
Estoque de glicogênio estimado400g
Tabela 1: media de potássio corporal total (TBK) e valores 
estimados de estoque de glicogênio nos sujeitos antes da 
dieta VLCD, após o dia 4 da dieta, e após 10 semanas de dieta

SujeitoPeso no dia
do 1o TBK
(kg)
Peso após
4 dias de VLCD
(kg)
Perda de peso
após 4 dias de
VLCD (kg)
Armazenamento de
glicogênio estimado
(g)
187.685.62.0333
290.486.04.4426
389.882.47.4520
475.271.83.4333
5108.2105.23.0520
665.662.53.1373
784.480.24.21066
8107.6100.96.780
978.875.43.4146
1083.080.72.3333
11104986.0240
1295.489.75.7613
x ± σx89.2 ± 13.184.8 ± 12.34.3 ± 1.8415 ± 256
Tabela 2: diferenças individuais no armazenamento estimado de 
glicogênio e mudança inicial de peso após 4 dias de VLCD

Referências


  1. Patrick, J. Assessment of body potassium stones. Kidney Int 1977; 11:476-90.
  2. Olsson K. Saltin B. Variation in total body water with muscle glycogen changes in man. Acta Physiol Scand 1970;80:11-8
  3. Bergstrom J. Hermansen L. Hultman E. Diet, muscle glycogen and physical performance. Acta Physiol Scand 1967;71:140-50

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2 comentários

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8 de janeiro de 2015 14:50 ×

Hilton, aconteceu o mesmo comigo, foi assim, em outubro estava com 87kg, treinando natação, sprint de corrida e tudo mais até ter uma lesão no ombro que me impediu de continuar treinando, isso me tirou completamente do foco (pois adoro competir), então em novembro comecei a dar uma "relaxada" um "pouquinho" de cerveja, uma pizza no final de semana, etc....resumo, ao me pesar na segunda-feira ao acordar a balança nova (a antiga quebrou no meio de novembro) apontou 96kg!!!......quase caí de costas........no meio da manhã de segunda-feira lí esta matéria e meu nutricionista depois tbm me avisou que era glicogênio e acumulo de líquidos.....decidi na mesma segunda-feira iniciar a dieta do guerreiro jejum de 24h, voltei a nadar de leve e dar umas corridinhas.....e o peso na mesma balança... 91kg, 5 kg em apenas 4 dias, ou seja 5kg de glicogênio + água.

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Teimosia
admin
8 de janeiro de 2015 16:07 ×

Eu quero ver o resultado em mim, depois de 12 dias na praia. Não comi nada que não fosse paleo/primal, mas abusei com força das frutas :-)

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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