Cirurgias adaptativas

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por Marcelo Cardoso – Médico, Cirurgião Geral
Escrevo esse texto em resposta a uma reportagem que uma paciente deixou no meu consultório. Tratava da história de um dos médicos que iniciou a era das “cirurgias metabólicas”, as cirurgias que pretendem reverter a obesidade e o diabetes. Na reportagem o médico se dizia maravilhado com a melhora metabólica após as cirurgias.
Então, minha opinião é a expressa abaixo.
Ao longo de milhões de anos a natureza acumulou a informação genética que outros milhares de anos usaram para esculpir nossa anatomia e nossa fisiologia. Temos um só estômago, um intestino delgado longo e um intestino grosso curto. Isso nos permite comer comidas densamente nutritivas. Em outras palavras: menos quantidade de comida, comidas mais nutritivas e calóricas. E extrair a energia química armazenada nelas por um processamento complexo e eficiente que oferta energia o suficiente para ser usada e adequadamente armazenada.
Isso nos proporciona a liberdade, e o poder, de não precisar passar o dia inteiro comendo. Isso tornou possível o nosso desenvolvimento intelectual e aumentou a nossa capacidade de trabalho.
Nessa evolução, nossa dieta foi adaptada pela oferta. Arbitrariamente a natureza nos ofereceu o que tinha, e nosso organismo aprendeu a viver com isso.
Hoje nem pensamos mais sobre o que comemos. Comemos o que há à disposição para se comer. E decidimos o que comer com livre arbítrio. Podemos comer qualquer coisa, a qualquer hora. Nós escolhemos.
Em geral comemos muito menos proteína do que podemos. Muito menos gorduras do que necessitamos. E muito mais carboidrato do que deveríamos. Além de itens que nunca antes foram considerados por nós como itens possíveis de serem comidos (como gramíneas e cascas de grãos). Ou ainda itens que literalmente não existem disponíveis na natureza (como óleos artificiais e seus derivados, além de aditivos químicos e realçadores de sabor).
Não comemos mais a quantidade e a qualidade de proteínas que nosso estômago é capaz de digerir. Sentimos fome.
Não comemos mais a quantidade e a qualidade de gorduras para nos ofertar energia e proporcionar saciedade por mais tempo. Sentimos fome.
Comemos carboidratos em quantidade, qualidade e frequência que induzem reserva muito maior que a nossa exigência energética. Essa indução de armazenamento (anabolismo) e consequente inibição do uso do armazenado (catabolismo) também nos dá fome, gerando um ciclo interminável. Voltamos a ser como ruminantes. Temos fome o tempo todo. Pensamos em comida o tempo todo.
A complexidade bioquímica do sistema digestório capaz de PROCESSAR uma dieta densa e nutritiva está sendo usada para absorver uma dieta pobre e JÁ SUPERPROCESSADA. Substituímos raízes e frutas por farináceos e açúcar, castanhas por “snacks”, carnes por empanados, gorduras naturais por frituras, margarinas e óleos. E adicionamos doces, bolachas, bebidas adoçadas e fast foods.
Não comemos mais gorduras naturais o suficiente para manter nossa vesícula vazia, mas ela segue exercendo sua função. Armazena e concentra a bile até virar pedra – colelitiase e colecistite, que exige correção cirúrgica.
Nosso apêndice cecal é um órgão vestigial ligado a imunidade e é exposto a uma condição de disbiose e alteração do ambiente bioquímico inflamatório, o que gera edema e obstrução – apendicite, que exige correção cirúrgica.
Esse mesmo ambiente pode favorecer divertículos e pólipos, e, quem sabe, tumores. Que exigem correção cirúrgica.
As características acima (baixa densidade nutricional, processamento, caráter inflamatório), que determinam fome, compulsão e armazenamento, produzem obesidade. Que exige correção cirúrgica. Sério mesmo???
Colecistectomia, apendicectomia, cirurgia bariátrica, interposição ilegal, colectomia.
E sério isso? A Medicina propõe cirurgias para adaptação aos alimentos processados? Cirurgias para adaptação a estilos de vida sem nenhum comprometimento com a saúde?
Milhares de anos de evolução postos fora.
Estou sendo retrógrado? Ultrapassado?
Deixaremos que a nossa dieta seja substituída por produtos superprocessdos, banhados por pesticidas, contaminada por metais pesados, pobre nutricionalmente, e proporemos alterações anatômicas para sobrevivermos?
Como se o corpo estivesse errado e a dieta certa? O futuro da medicina é criar pulmões capazes de fumar? Articulações e músculos capazes de serem sedentários? Pele capaz de sintetizar vitamina D com luzes fluorescentes?
Na minha opinião, a Medicina praticada assim é como o pai que protege o filho e obriga o professor a passá-lo de ano mesmo tendo sido um péssimo aluno. Um pai que não aprendeu a educar. Que não aceita que educar é também dizer não.
Em que momento da história a Medicina vai propor menos remédios e menos cirurgias, e vai prescrever mais qualidade de vida, andar descalço a céu aberto, comer comida conforme a fome, a priorizar práticas que conduzam a desfechos positivos?
Estou de folga. Vou desligar o computador. Vou pra rua. Brincar descalço com meus filhos, a céu aberto, pegar sol e comer umas castanhas…

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