Ano novo, casca nova

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Uns dias atrás, esbarrei com essa animação:

Achei de uma simplicidade e beleza sem par. Primeiro por mostrar um processo natural bacaníssimo de adaptação e sobrevivência. Depois, por fornecer alegorias fortes para quem quer mudar de vida…
É bem verdade que não sou uma cigarra, e não entendo nada de cigarras (a não ser que gosto do canto delas!), mas suponho que uma casca velha tenha seus confortos e desconfortos. Sendo velha (e dura), deve oferecer proteção à pupa de cigarra. E assim como com uma calça velha ou um chinelo velho, deve ser confortável em certa medida: já está perfeitamente adaptada a nossas esquinas.
Por outro lado, pupa não tem asas – e uma cigarra adulta precisa voar. Asas, só fora da casca velha! Mas cigarra adulta, recém-saída da casca, é mole e frágil. É um risco que recai sobre todas as cigarras.
Finalmente, a alegoria mais forte é o fato de a pupa parecer estar aderida a uma toalha. De mesa ? De banho ? Não dá para saber, mas certamente não é o ambiente natural das cigarras. Eu já tinha visto muitas cascas de cigarra aderidas a troncos de árvores, mas nunca a uma toalha… Me fez pensar que, mesmo inserida num ambiente que não é o seu, a cigarra ainda é uma cigarra, e faz coisas que cigarras fazem: quebra a casca velha, encara o mundo com a nova casca e novas asas.
O mesmo serve para nós: uma minoria dos humanos de hoje vive no habitat natural dos humanos. No geral, vivemos em caixotes de cimento e só vemos a luz do sol brevemente aos fins-de-semana, quando nos besuntamos de protetor solar para evitar esse mesmo sol.
Pois é: apesar disso, ainda somos humanos e precisamos fazer coisas que humanos fazem. Humanos puxam, empurram, escalam, saltam, nadam, andam e correm bem rápido de vez em quando. Humanos comem carnes, ovos, folhas, frutas, legumes, raízes, castanhas e bocadinhos de mel. Humanos dançam, cantam, criam seus filhos juntos de si, não têm medo de um pouco de sujeira. Humanos caçam, pescam e coletam quando é possível. Humanos cuidam dos mais velhos, dos mais novos e dos doentes, ou pelo menos é isso que a evidência fóssil nos mostra.
A cigarra, ao sair da sua casca, está apenas seguindo seu instinto natural. Não há uma cultura de cigarras que diga a ela que “fora da casca é perigoso” ou que “asas podem causar acidentes”. Cigarras jamais cogitam deixar de fazer as coisas que cigarras fazem.
Já os humanos vivem cercados por sua cultura, e como se diz na capoeira: 
Tem do bom e tem do ruim, mas você pode escolher
O bom fica à sua espera, o ruim procura você
Infelizmente, nas últimas décadas/séculos o ruim nos procurou com força dentro das diversas culturas humanas, e nos convenceu que não precisamos fazer aquilo que precisamos, e vice-versa. Estamos numa casca velha, que pode ser confortável, mas que nunca nos deixará atingirmos o potencial que temos. Quem fica na casca, não cria asas.
Que tal dar-se o benefício da dúvida ?
Para finalizar, deixo uma belo poema de Abel Silva, que foi musicado por Cátia de França – bem adequada ao clima de ano novo, e às decisões que podem ser tomadas.
Uma cobra obra um ovo
bem menor que o da ema
Mas cada um tem sua gema
que começa a ser de novo
O veneno de outra cobra
O galope de outra ema
Porque é da natureza recomeçar
Porque é da natureza recomeçar
Já com o vírus acontece
uma coisa bem estranha
Se tira um pedaço dele
outro pedaço ele ganha
O pedaço extirpado
outro vírus vai formar
Porque é da natureza recomeçar
Porque é da natureza recomeçar
O amor que tu me deste
Sempre viva mina d’água
Quanto mais eu bebo dele,
mais aumenta a minha mágoa
Tudo posto nessa mesa
Não se importa plantar cedo
Porque é da natureza 
Matar quem morre de medo

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