Como as “comidas saudáveis” estão te matando

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Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.
por Laura Schmidt

A professora Laura A. Schmidt, da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, escreve sobre os perigos do açúcar – explorados no chocante documentário “That Sugar Film” (N.T.: em tradução livre, “Aquele filme sobre açúcar”), que estréia em 31 de julho.
O diretor australiano Damon Gameau fez um experimento em si próprio. Por 60 dias, ele comeu apenas o que os americanos acreditam ser “comida saudável”. Ao final do período, ele tinha auto-induzido o que nós na pesquisa médica chamamos de Síndrome Metabólica – a disfunção hormonal subjacente responsáel pelos índices crescentes de diabetes e doença cardíaca e hepática nos EUA.
Em “That Sugar Film”, o senhor Garmeau documenta em menos de 2 horas o que tem ocorrido gradualmente através da população americana ao longo de décadas. Ele ganha assombrosos 6.7kg em apenas 60 dias, enquanto mantém a sua contagem calórica e níveis de exercícios estável. Levou 30 anos para os americanos alcançarem nosso recorde de ganho de peso atual, mas com um desfecho igualmente assombroso: hoje, 70% de nós são sobrepesados ou obesos, o que nos torna a sociedade mais gorda da Terra.
Então, como ele fez isso ? O que é novo no experimento de Gameau é que ele disciplinou-se para comer apenas “comidas saudáveis” – ou seja, alimentos vendidos como saudáveis conforme seus rótulos descrevem. Para acelerar o processo da doença, ele consumiu duas vezes mais açúcar adicionado que o americano médio: 44g por dia.
Nós precisamos parar de pensar no nosso peso e saúde como escolhas individuais. Precisamos começar a falar sobre como o nosso suprimento de comida está nos deixando doentes.
Incrivelemente, o Sr. Gameau não comeu nada de junk food. Ao invés, ele sobreviveu por 60 dias com o nosso abundante suprimento de comidas pseudo-saudáveis: barrinhas de granola, iogurtes desnatados adoçados, sucos de garrafa, shakes e lanches feitos de “super-alimentos” . 
E qual foi o resultado do experimento ? O Sr. Gameau, que começou saudável, deu a si mesmo Síndrome Metabólica ou “MetS”. Essa condição, que atualmente afeta 56 milhões de americanos, é diagnosticada pela presença de 5 sintomas. Infelizmente, apenas um deles é facilmente identificado: obesidade central ou ganho de peso na cintura, também conhecido como “barriga de açúcar”. No seu curto experimento, Gameau ganhou vários centímetros na cintura.
Para diagnosticar completamente a síndrome, você precisa ir a um médico. Mas os outros sintomas da MetS incluem: pressão alta, triglicérides altos (ou seja, gorduras flutando na corrente sanguínea), glicemia alta e colesterol alto. Ter MetS aumenta significativamente o risco de morte prematura pela maioria das formas de doença crônica.
Como é que o açúcar em excesso, por tempo prolongado, contribui com MetS ? Ao longo do tempo, consumir grandes quantidades de açúcar adicionado pode estressar e danificar órgãos críticos, incluindo o fígado. Grandes doses de açúcar de cozinha, a sacarose (N.T.: composta por glicose e frutose), sobrecarregam o fígado, que metaboliza a frutose. No processo, o fígado converte o excesso de frutose em gordura, alguma da qual é armazenada no próprio fígado, e um pouco da qual é liberada na corrente sanguínea para ser seletivamente depositada na cintura.
MetS, induzida por uma dieta ruim, é a força por trás de uma das mais preocupantes tendências da saúde pública hoje em dia: doenças da idade adulta que agora ocorrem em crianças. 1 em 4 adolescentes americanos tem diabetes ou pré-diabetes – uma condição anteriormente conhecida como “diabetes do adulto”. Açúcar adicionado e MetS também estão por trás uma nova doença que agora afeta 31% dos americanos adultos e 13% das crianças: “doença gordurosa não-alcoólica do fígado” (N.T.: conhecida como “fígado gorduroso” ou “esteatose hepática”). Essa condição pode ser rastreada de volta aos efeitos danosos da frutose sobre o fígado. Por volta de 2025, ela será a maior causa para transplantes de fígado dos EUA.
Essas são realidade sombrias, mas são aquelas que acredito que precisamos combater enquanto sociedade. Precisamos parar de pensar sobre nosso peso e saúde como escolhas individuais. 
Todos gostaríamos de pensar que temos livre arbítrio sobre o que comemos. Gostaríamos de acreditar que sendo um comprador informado e tendo força de vontade – contando calorias, evitando comida-lixo, malhando – poderíamos controlar nosso peso e evitar doenças. Mas se um australiano saudável pode tornar a si mesmo doente em apenas 60 dias comendo aquilo que chamamos de comida saudável, então precisamos começar a questionar essa premissa.

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