Café, hormônios e o problema com o folclore naturopático

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Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.
por Lara Briden

“Quando o café foi introduzido na Itália no século XVII, era visto com suspeita. Era visto como uma bebida estrangeira, muçulmana”.
“Café é ruim” é um velho conselho sobre saúde. Ao meu ouvido, isso tem o tom de um sermão que foi ecoado por séculos (um sermão xenofóbico). A evidência moderna é que o café não é realmente tão ruim assim. Então por que o mito persiste ?
Uma confissão primeiro: eu amo café (leve conflito de interesses)
Eu amo café, mas também amo a verdade. E não gosto do dogma, incluindo o “folclore naturopático” que tem historicamente formado tanto da nossa prática de medicina natural. Medicina natural, e a nutrição em particular, estão enraizadas no folclore: evite a gordura. Evite a carne vermelha. Evite ovos. Muitos destes conselhos não foram provados. Ainda assim, todos estão cheios de uma ênfase quase religiosa. Pecadores, cuidado. Coma e ponha sua alma em risco.
Michael Pollan, o autor do brilhante livro “Em defesa da comida”, fez a seguinte observação:

“A ciência da nutrição está onde a cirurgia estava em 1650. Você sabe, é realmente interessante e promissora, mas você gostaria que eles operassem você ? Eu acho que não”.

Após 15 anos de prática clínica, eu concordo que alguns dos conselhos dietários tradicionais começam a soar vazios. Como eu posso pregar aos meus pacientes sobre os perigos do café se a evidência diz algo totalmente diferente ?
A evidência moderna diz que o café provê alguns benefícios à saúde, incluindo a prevenção do câncer de fígado, mama, doença de Parkinson e derrame. Por que nós o temeríamos ?
Como cultura, temos uma longa história de medo do café. Quando ele foi introduzido inicialmente na Itália no século XVII, era visto com suspeita. Era visto como uma bebida estrangeira, muçulmana. Ainda mais, era associado com a dissidência política e as infames “casas de café”. Eu argumento que a “má fama” histórica do café está profundamente enraizada na nossa psique cultural, e esta é a razão pela qual o café ainda é visto como algo ruim.
Eu quero que a minha prática naturopática moderna livre-se do medo mediaval de estrangeiros. Quero oferecer a meus pacientes conselhos que estejam fundamentados em algo. Então qual é a evidência para os efeitos de saúde a longo prazo, associados com o consumo moderado de café ?
Benefícios:
  • Risco reduzido de depressão, Alzheimer (1), demência e Parkinson (2)
  • Cognição e memória melhoradas (3)
  • Risco reduzido de câncer de fígado (4), cálculos biliares (5) e gota (6)
  • Risco reduzido de diabetes e sensibilidade à insulina melhorada (7)
  • Alguma evidência para risco reduzido de cânceres incluindo fígado e mama (8)
Os grãos de café tem uma bioquímica complexa e contêm mais que apenas cafeína. Alguns dos benefícios de saúde podem ser atribuídos aos polifenóis e outros compostos. dito isso, a cafeína por si é o ingrediente ativo que melhora a sensibilidade à insulina.
Riscos de saúde:
  • Úlcera estomacal e refluxo ácido
  • Ansiedade e distúrbios do sono
  • Deficiência de ferro (o café reduz a absorção)
  • Abortos e fertilidade feminina reduzida
  • Zumbido
  • Acreditava-se anteriormente que a pressão sanguínea era um risco, mas evidências recentes descartam isso. Um estudo recente de Harvard não encontrou “qualquer ligação convincente” entre “café feito em coadores de papel” e doença cardíaca (9).

O grande panorama

O júri ainda está deliberando, mas o balanço da evidência até o momento é que o café oferece alguns benefícios de saúde surpreendentes.
No quadro geral, o café não é a pior coisa na sua dieta. Muito, muito pior, é o açúcar no seu chocolate quente. E o bolo!
Alguns cuidados
Café é pesadamente borrifado com pesticidas, então se você vai tomá-lo, então escolha orgânico. Além disso, o método mais saudável de preparo é com filtro de papel, que remove as toxinas cafestol e kahweol.
Café é uma droga. Ele altera o humor, e é viciante. Por esta simples razão, muitas pessoas podem preferir evitá-lo – e está é uma escolha que posso respeitar. Para aqueles de nós, adultos conscientes que acham OK alguma alteração de humor, então o café é uma opção relativamente saudável – em moderação. Crianças são outro assunto. Eu recomendo que crianças e adolescentes não consumam café regularmente. O efeito da cafeína em um cérebro jovem e em desenvolvimento não é conhecido.
Algumas pessoas não lidam muito bem com a cafeína. Apesar de alguns de nós metabolizarem a cafeína bastante rapidamente (8 a 12h), outros mais lentos podem levar até 24h. Se os metabolizadores lentos de cafeína consumirem a substância novamente dentro destas 24h, eles vão acumular níveis mais e mais altos ao longo do tempo, e sentirem-se horríveis. Estes são os que estão em riscos de danos de saúde no longo prazo, pela cafeína. Esta diferença entre os metabolizadores rápidos e lentos poderia ser uma das razões para as conclusões de pesquisas conflitantes sobre o café (ou seja, ruim para alguns e bom para outros).
Quem é um metabolizador lento de cafeína ?
  • Genética. Algumas pessoas simplesmente nascem com um processamento lento de cafeína.
  • A gravidez diminui o ritmo do processamneto de cafeína. Isso inclui terapia de reposição hormonal e a pílula. Então mulheres tomando anticoncepcional não deveriam consumir cafeína. Ou mais sensivelmente, mulheres que tomam café não deveriam tomar a pílula.
Este é um blog sobre saúde hormonal, então vou terminar com uma discussão sobre os efeitos do café na saúde hormonal.
  • Café melhora a sensibilidade à insulina. Neste aspecto, o café é benéfico para diabetes e SOP
  • Café ajuda com o processamento do estrogênio. Isso pode ser bom ou ruim. Ele diminui a exposição total do corpo aos estrógenos, que é como ele protege contra o câncer de mama. Também pode ser o motivo pelo qual o café reduz a fertilidade feminina.
  • Café aumenta a liberação de cortisol e adrenalina nas glândulas adrenais. Em grandes quantidades, e por um longo prazo, isso pode atrapalhar o sono e impactar a habilidade do corpo em lidar com o estresse.

Referências

  1. Lindsay, J., et al., Risk Factors for Alzheimer’s Disease: A Prospective Analysis from the Canadian Study of Health and Aging, Am J Epidemiol 2002; 156:445-453
  2. Benedetti M.D. et al., Smoking, alcohol, and coffee consumption preceding Parkinson’s disease, Neurology, 2000:55, 1350-1358
  3. Johnson-Kozlow, M., et al. Coffee Consumption and Cognitive Function among Older Adults. Am J Epidemiol 2002; 156:842–850
  4. Klatsky AL et al. Coffee, cirrhosis, and transaminase enzymes. 2006 Arch. Intern. Med. 166 (11): 1190-5.
  5. Leitzmann MF et al. Coffee intake is associated with lower risk of symptomatic gallstone disease in women, Gastroenterology, 2002 Dec;123(6):1823-30
  6. Choi, HK et al. Coffee consumption and risk of incident gout in men: A prospective study. 2007 Arthritis Rheum 56 (6): 2049-55. doi:10.1002/art.22712
  7. Huxley R et al. Coffee, decaffeinated coffee, and tea consumption in relation to incident type 2 diabetes mellitus. 2009 Arch Intern Med 169 (22): 2053-2063.
  8. Ganmaa D, et al.. Coffee, tea, caffeine and risk of breast cancer: a 22-year follow-up. 2008 Int. J. Cancer 122 (9): 2071-6. doi:10.1002/ijc.23336. PMID 18183588
  9. Lopez-Garcia E et al. Coffee consumption and coronary heart disease in men and women: a prospective cohort study. Circulation 2006;113:2045-53. PMID 16636169.

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