O motivo da hemoglobina glicada não ser um marcador confiável

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Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.
por Chris Kresser

Nos últimos anos, os médicos estão crescentemente confiando em um teste chamado hemoglobina glicada (HbA1c) para testar por resistência à insulina e diabetes. É mais prático (e significativamente mais barato) que fazer um teste de glicose pós-prandial, e menos provável de ser distorcido por mudanças do dia-a-dia do que o teste de glicemia em jejum.

O que é hemoglobina glicada ?

O açúcar tem uma tendência a se grudar nas coisas. Qualquer um que já tenha cozinhado com açúcar pode te dizer isso. Em nossos corpos, o açúcar também gruda – especialmente em proteínas. A teoria por trás do teste HbA1c é que as nossas hemácias (glóbulos vermelhos) vivem em média 3 meses, então se medirmos a quantidade de açúcar colado nelas (que é o que o teste faz), ele nos dará uma idéia de quanto açúcar esteve na circulação durante os últimos 3 meses. O número reportado no teste (por exemplo, “5.2”) indica a percentagem de hemoglobina que foi glicada (ou seja, colada ao açúcar).

Por que a hemoglobina glicada não é confiável ?

Enquanto isso parece bom em teoria, a realidade não é tão preto-e-branco. O principal problema é que existe na prática uma grande variação no período de de sobrevivência das hemácias em diferentes pessoas. Este estudo, por exemplo, mostra que hemácias vivem mais que a média quando a glicemia está normal. Pesquisadores descobriram que a vida das hemácias de diabéticos chegava a 81 dias, enquanto viviam até 146 dias em não-diabéticos.
Isso prova que a premissa de que as hemácias de todo mundo vivem por 3 meses é falsa, e que a hemoglobina glicada não é confiável como indicador de glicemia. Em uma pessoa com glicemia normal, a hemoblogina circulará por muito mais tempo, o que significa que vai acumular mais açúcar. Isso vai jogar o resultado do teste para cima – mas não significa que a pessoa tinha açúcar demais no sangue. Significa apenas que a sua hemoglobina viveu mais, e por isso acumulou mais açúcar. O resultado é que pessoas com glicemia normal frequentemente aparecem com testes HbA1c inesperadamente altos.
Isso me confundia quando comecei a praticar. Eu testava a glicemia de 3 maneiras diferentes, em novos pacientes: glicemia em jejum, glicemia pós-prandial (usando um glicosímetro) e HbA1c. E ficava surpreso ao ver pessoas com glicemia em jejum e pós-prandial completamente normais e HbA1c > 5.4%.
Na prática, isso não é incomun, quando compreendemos que pessoas com glicemia normal frequentemente tem hemácias que vivem mais – o que dá a estas células tempo para acumular mais açúcar.
Por outro lado, se alguém é diabético, suas hemácias vivem menos que a dos não-diabéticos. Isso significa que diabéticos e aqueles com altos níveis de glicemia vão ter o resultado da HbA1c erroneamente baixo. E já sabemos que a glicemia em jejum é o marcador menos sensível para predizer diabetes e doença cardíaca. Isso é um problema sério, porque glicemia em jejum e HbA1c são quase sempre os únicos testes que os médicos fazem para testar por diabéticos e distúrbios glicêmicos.
Outra condição que afeta a HbA1c é a anemia. Pessoas anêmicas tem hemácias de vida curta, então assim como os diabéticos, eles tem testes de HbA1c erroneamente baixos. Na minha prática, cerca de 30-40% dos pacientes tem algum grau de anemia, então não é um problema raro.

Quais marcadores de glicemia são confiáveis ?

Testar a glicemia com precisão é como montar um quebra-cabeças. Glicemia em jejum, pós-prandial e HbA1c, são todos peças do quebra-cabeças. Mas o teste de glicemia pós-prandial é de longe a maneira mais confiável e precisa de determinar o que está acontecendo com o açúcar no sangue, e a mais sensível forma de predizer complicações diabéticas e doença cardíaca.
Para saber mais sobre o motivo de a glicemia pós-prandial ser um marcador melhor, leia meu artigo “Quando a sua glicemia normal não é normal (Parte 2)”.  Para saber como testar a sua glicemia pós-prandial em casa, e quais devem ser os alvos saudáveis, leia meu artigo “Como evitar o diabetes e a doença cardíaca por $16”.
Outro marcador glicêmico útil – mas subutilizado – é a frutosamina. Frutosamina é um composto que resulta de uma reação entre a frutose e uma amônia ou uma amina. Assim como HbA1c, é uma média da concentração de açúcar no sangue. Mas ao invés de medir as 12 semanas anteriores como a HbA1c, a frutosamina não é afetada pela variação do período de vida das hemácias em diferentes indivíduos. A frutosamina é especialmente útil em pessoas anêmicas, ou durante a gravidez – quando mudanças hormonais causam flutuações de curto prazo nos níveis de glicemia.
Para ter o panorama mais apurado possível, eu gosto de ter os 4: glicemia em jejum, HbA1c, glicemia pós-prandial e frutosamina. Mas se eu tivesse que escolher uma, certamente seria a glicemia pós-prandial.

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