Ontogenia e Filogenia: e-mail para uma paciente

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por Marcelo Cardoso
Oi! Desculpa a demora, não consegui parar pra escrever antes… 
Comecei… Vou ter que terminar! 
Seguinte: Existe um prisma diferente pelo qual pode-se entender e praticar a Medicina (bem como todas as ciências – em especial as biológicas). Há algum tempo já se usa a Medicina Baseada em Evidências, que mudou bastante o modo como se fazia Medicina. Há alguns anos a evolução natural da Medicina Baseada em Evidências tem tomado forma. É a Medicina fundamentada no paradigma evolutivo. Mais especificamente no entendimento da filogenia e ontogenia, ou seja, levando em consideração a evolução da espécie e do indivíduo.
O que queria te dizer é que “doenças” como o teu Chron, a Artrite Reumatóide, o Diabetes tipo II (Resistência Insulínica), Aterosclerose, a maioria das Dislipidemias, Tireoidites, Fibromialgia, a maior parte das doenças cardiovasculares… e incontáveis outras disfunções do organismo, que perfazem juntas o grosso do problema de saúde mundial são “doenças” virtualmente inexistentes. 
São na verdade a mais nova versão da seleção natural de Darwin…
Se formos estudar qualquer espécie atual, e quisermos oferecer à elas as melhores condições de vida, a fim de que gozem de plena saúde, devemos oferecer as bases que suportaram aquela forma de vida na sua evolução.
Entendendo o nosso caso: Em primeiro lugar temos que distinguir duas coisas: uma coisa é o que somos como pessoa, nossos sentimentos, nossos desejos, nossas fraquezas, nossa cultura, o que pensamos. Outra coisa é a nossa biologia, o nosso corpo. O corpo que usamos para expressar nossa cultura é um animal. Um bicho como outros. Sempre soubesses, mas nunca deves ter sentido assim:
Classificação científica dos seres vivos – Ser Humano moderno:
  • Reino: animal
  • Filo: cordados
  • Subfilo: vertebrados
  • Classe: mamíferos
  • Ordem: primatas
  • Família: hominídeos
  • Gênero: Homo
  • Espécie: sapiens
Podemos negar. Talvez seja mais fácil. Mas somos oriundos dos primatas, e evoluímos como povo nômade, caçador e coletor.
Num período anterior a incríveis 2.500.000 de anos, onde todas as variáveis foram testadas: várias exposições a clima, limitações, privações, tipos de alimentos, infecções, doenças, convívios. Tudo foi testado, ao mesmo tempo, pelo rigor da natureza e através dos tempos. A espécie que se mostrou apta, que com o conjunto de habilidades e possibiliades de adaptação permaneceu viva, evoluindo e deixando descendentes foi a que sobreviveu como nômade, caçadora e coletora. O Homo habilis tem o mesmo nosso DNA. A expressão desse DNA em um Homo habilis não nos estranha nem um pouco. A expressão desse DNA em um homem de 50 mil anos é a mesma nossa, até mesmo em aparência.
Mas eles, por 2.500.000 de anos foram como a natureza os forjou: nômades, caçadores e coletores. Assim, a pressão natural e o modelo biológico encontraram estabilidade.
Ser nômade, caçador e coletor implica em uma série de comportamentos próprios. Implica em uma forma de exigir performance do corpo, movimento, agilidade e força. Uma forma de se alimentar. 
Uma forma de se expor à natureza (sol, dia, noite…). Devia ser bem trabalhoso. Nessa época a dieta típica dos humanos era baseada em carnes de todos os outros animais – com suas gorduras obviamente, ovos, verduras/hortaliças, tubérculos/raízes e frutas. Muito provavelmente não se dispunha de alimento abundantemente, de modo que definitivamente não devia se comer de 3 em 3 horas…
Para se proteger, conseguir alimento, água, ou buscar novas terras habitáveis muito se caminhava, corria se precisasse. Escalava, subia, descia, fazia força. Em outras palavras: o corpo humano que se estabeleceu em equilibrio com o meio, é capaz de fazer exercícios longos e de baixa duração, e exercícios curtos em intensidade máxima.
O revestimento cutâneo – a pele – desse mamífero adquiriu estabilidade em um estado de poucos pêlos. Com a pele exposta, desenvolveu a capacidade de pigmentar-se de acordo com a exposição solar – intensa e frequente. Associou a esta rotina – exposição solar frequente – importantes funções de controle metabólico e hormonal (síntese de vitamina D a partir do colesterol por exemplo). 
Além disso, a adaptação ao ciclo de vigília/sono e de dia/noite – presente em todos os animais – também no nosso sistema nervoso central desempenha importante papel nas funções cognitivo-comportamentais (depressão, disturbios do sono…).
Acontece que por 2.500.000 de anos o equilíbrio se manteve. Mas, há aproximadamente 7.000 anos uma uma importante intervenção humana deu início ao caminho que nos trouxe a este caos de pobreza em saúde. Possivelmente as mulheres, responsáveis pela coleta passaram a selecionar e preparar o excedente dos frutos, raízes e sementes. Desenvolveram a agricultura, e com ela um meio estável de manter a população, diminuindo os inconvenientes de uma vida nômade, e possibilitando alimento e produção de excedente o suficiente para alavancar o desenvolvimento da humanidade. 
Nesse momento da história a nossa dieta que era adaptada a uma alta quantidade de gordura, moderada quantidade de proteinas e baixa quantidade de carboidratos, passou a ser alta em carboidratos, moderada em proteínas e moderada em gorduras. Além disso, aqui foram introduzidos os grãos na dieta.
Com o desenvolver das civilizações, uma segunda importante intervenção teve início: a Revolução Industrial, e com ela a grande capacidade de produção e refino disponibilizou como nunca, e de forma barata uma base alimentar sustentada em farinha e derivados.
O aumento exponencial das doenças metabólicas e cardiovasculares despertou o interesse da ciência (uma ciência engatinhando e com poucas ferramentas investigativas). Na década de 50 (1953) um estudo (hoje sabidamente mal-feito e cheio de viéses) sugeriu que o que nos estava matando era a presença na dieta de gorduras saturadas (presentes no leite, nas carnes, no côco, no abacate e nas nossas próprias barrigas!). Aqui passou-se a extrair artificialmente óleos de sementes (soja, girassol, ou arroz…)
Aqui acontece uma terceira – e cabal – intervenção: o início das dietas pobres em gorduras. Agora a nossa dieta original foi transfigurada em alta em carboidratos, moderada em proteínas e baixa em gorduras. Além disso, além dos grãos e vagens agora introduzimos gorduras artificiais de sementes.
Juntando tudo, baseamos a nossa dieta em carboidratos refinados, ricos em açúcar e gorduras vegetais hidrogenadas, grãos, carne magra e nos sentimos seguros. Já quando comemos um pedaço de picanha rezamos para que não acordemos no inferno.
Invertemos a rotina alimentar de 2.500.000 de anos drásticamente nos últimos 7.000 anos e a tornamos irreconhecível para o nosso corpo nos últimos 150 anos…
Junte a isso o fato de não precisarmos caminhar, correr, fazer força, levantar coisas pesadas, de expormos ao sol, ao fato de não existir mais diferença entre dia e noite e a uma rotina com níveis estratosféricos de estresse e terá a receita de como chegar até aqui.
Olha em volta, olha na rua. Somos doentes. Somos gordos, fracos, depressivos, temos doenças cardiovasculares, tumores, doenças auto-imunes (na verdade, possivelmente exista uma interligação entre todos os problemas…)
Eu sempre me tranquilizo quando penso que não precisamos mais passar trabalho nem correr perigo para receber o melhor da nossa biologia. Não precisamos viver como se vivia há 1 milhão de anos. Basta criar os mesmos estímulos naturais, adaptados aos dias atuais. Não precisamos escalar nada, basta ir à academia 1 ou 2 vezes na semana. Não precisamos procurar comida ou um novo lugar para morar, basta uma longa caminhada na semana. Basta nos alimentarmos bem. E podemos fazer isso e viajar com a família de férias pra qualquer lugar do mundo, vestir boas roupas, andar em bons carros, passear…
O que importa é tirar o melhor dos dois mundos.
Mas, especificamente no teu caso, basta retirar da dieta qualquer fonte de glúten, grãos, vagens, açúcares refinados e óleos extraidos de sementes. O teu corpo não está preparado para isso. Não dá certo. Podes tentar continuar te alimentando da forma convencional e usar medicamento para obrigar o teu corpo a aceitar, ou oferecer à ele o que ele espera receber.
Duvída. Põe em prova. Desafia. Experimenta. O que tens a perder? Perder o direito inalienável de comer pão e arroz com feijão? Te alimenta com comidas naturais por 6 semanas e me conta. 
Sinta-se a vontade para ignorar solenemente o que te disse. Mas não poderia deixar de te oferecer essa passagem para o novo…
Abraço, aguardo retorno.

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