O Vinho de Kierkegaard

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“Se eu pedir um copo d’água e alguém me oferecer uma taça com o mais fino dos vinhos, eu o mandarei embora – até que ele perceba que a felicidade não depende do que se recebe, e sim de receber o que se deseja.”
– Sören Kierkegaard
Quem dera as palavras do Kierkegaard fosse aplicadas a tudo no mundo… Em geral, a ganância fala mais alto, e as pessoas recebem de bom grado uma coisa mais valiosa do que aquela que solicitaram, ainda que não atenda seus desejos.
Esta semana, um amigo me enviou um artigo chamado “Prevenindo o sobrediagnóstico: como parar de prejudicar pessoas saudáveis” (leitura recomendada!). Oras, o que é “sobrediagnóstico” ?

“Definido estritamente, o sobrediagnóstico ocorre quando pessoas sem sintomas são diagnosticadas com uma doença que, em última instância, não faria com que apresentassem sintomas ou morressem precocemente. Definido mais amplamente, ele se refere a problemas relacionados a excesso de medicalização e sobretratamento subsequente, perigo do diagnóstico, mudança de limiares e alarmismo da doença – todos processos que ajudam a reclassificar pessoas saudáveis com problemas pequenos ou em baixo risco como doentes.”

Soa familiar ? Que tal alguns exemplos, direto do texto ?

  • Asma – um estudo canadense sugere que 30% das pessoas com o diagnóstico podem não sofrer de asma, enquanto 66% delas podem não precisar de medicação.
  • Hipertensão arterial – uma revisão sistemática sugere a possibilidade de sobrediagnóstico substancial.
  • Colesterol alto – estima-se que até 80% das pessoas com colesterol quase normal tratadas a vida toda podem ser sobrediagnosticadas.
Perceba que eu não estou dizendo, DE MANEIRA ALGUMA, que todo diagnóstico é infundado. Apenas observo que a comunidade médica está se movendo em direção à percepção de que estão usando bombas nucleares para matar mosquitos, em muitos casos…
O problema é o risco desnecessário ao qual muitas pessoas podem se expor, em virtude do sobrediagnóstico… No ano passado, uma conhecida foi diagnosticada com câncer na tireóide. Segundo o médico, provavelmente ela tinha o tumor há mais de 10 anos. Câncer de tireóide é considerado de baixa agressividade em geral, e “em alguns países, pessoas com mais idade sequer são tratados – porque o tempo que o tumor levaria para fazer algum mal é em geral maior que o tempo de vida provável do portador” – essas são palavras que a minha conhecida atribuiu ao médico que a tratou, e são corroboradas pela publicação que citei acima:

“Ao contrário das noções populares de que os tipos de câncer são universalmente nocivos e fatais, alguns podem regredir, deixar de progredir ou progredir tão lentamente que não causarão danos antes que o indivíduo morra por outras causas.”

No entanto… Ela foi submetida à cirurgia e subsequentes sessões de iodoterapia radioativa. Um procedimento invasivo, seguido de terapia incômoda, para tratar um problema que TALVEZ não fosse tão grave.

Novamente: não entendam esse artigo como desdém da medicina. Sei perfeitamente que a oncologia e outras disciplinas salvam milhões de vidas por ano. Não deixo de vacinar minha filha. Não deixo de me vacinar contra tétano, febre amarela e outras doenças.

Mas não é disso que estou falando… O ponto é esse:

“Evidências de estudos de autópsias sugerem um grande reservatório de doença subclínica na população em geral, incluindo câncer de próstata, tireoide e mama, cuja maior parte nunca causou danos. De maneira similar, rastrear o coração de pessoas sem sintomas ou em baixo risco também pode levar ao sobrediagnóstico de aterosclerose coronária e a subsequentes intervenções desnecessárias. (…)

Exames de imagens diagnósticas do abdome, da pelve, do tórax, da cabeça e do pescoço podem revelar “achados acidentais” em até 40% dos indivíduos que estão sendo examinados por outros motivos. Alguns deles são tumores, e a maior parte desses “acidentalomas” é benigna. Um número muito pequeno de pessoas se beneficiaria da detecção precoce de um tumor maligno acidental, enquanto outras sofreriam de ansiedade e efeitos adversos de outros exames e tratamentos de uma “anormalidade” que jamais as teria prejudicado.”

E mais ainda, o que quero apontar são os motivadores do sobrediagnóstico (grifo meu):

  • Mudanças tecnológicas que detectam “anormalidades” cada vez menores.
  • Interesses comerciais e profissionais velados.
  • Grupos com conflitos de interesse que produzem definições expandidas de doenças e redigem diretrizes.
  • Incentivos legais que punem o subdiagnóstico, mas não o sobrediagnóstico. 
  • Incentivos do sistema de saúde que favorecem mais exames e tratamentos.
  • Crenças culturais de que mais é melhor; fé na detecção precoce não modificada pelos seus riscos.
As palavras “estatinas” e “colesterol” surgiram na mente de mais alguém ?
Que os médicos saibam apreciar a “água”, e avaliar bem as consequências do “vinho” para a vida de seus pacientes…

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