Eles passaram fome, nós esquecemos

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Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui (na verdade, traduzi apenas a parte do artigo que interessava – é uma chamada para as pessoas participarem da pesquisa da AWLR).
Aproveito para convidar a todos a participarem da pesquisa sobre praticantes de paleo/LCHF no Brasil.
(…)
Em 1944, Ancel Keys recrutou 36 homens para o que seria conhecido como o “Experimento da Fome de Minnesota”, para estudar os efeitos fisio e psicológicos de restrição dietária severa e prolongada. Ele documentou suas descobertas em um tomo de 1400 páginas, e pouco depois de o experimento começar, os homens rapidamente perceberam o quão difícil podia ser. Os sinais e sintomas previsíveis rapidamente apareceram: fome constante, baixa temperatura corporal, libido diminuída e uma incapacidade total de pensar em algo que não fosse comida. Um sujeito deu um depoimento arrepiante do que é comer tão pouca comida: 
“Como é passar fome ? É algo assim: eu estou faminto. Estou sempre faminto – não como a fome que vem quando você perde o almoço, mas um grito contínuo do seu corpo por comida. Às vezes eu posso quase esquecer dela, mas não há nada que possa manter o meu interesse por muito tempo. Eu espero pela hora da refeição. Quando ela vem, eu como lentamente e faço a comida durar tanto quanto possível. O menu nunca fica monótono, ainda que seja o mesmo prato todo dia, ou que seja ruim. É comida, e toda comida tem gosto bom. Mesmo as migalhas sujas de pão na calçada parecem apetitosas e eu invejo os pombos gordos que as comem”.
O que eles comiam ? “Os principais itens servidos”, descreveu o Dr. Keys, “eram pão de trigo integral, batatas, cereais e quantidades consideráveis de nabos e repolho. Apenas pedacinhos de carnes e laticínios eram providos”, com uma ingesta diária média 1570 calorias, incluindo cerca de 50g de proteína e 30g de gordura.

70 anos depois

A diretora da Clínica de Gerenciamento de Peso do Centro Médico de Boston, e consultora sobre obesidade para o Dr. Oz (N.T.: programa de TV sobre saúde), Dra. Caroline Apovian, descreve em uma entrevista como ela trata os problemas de peso de seus pacientes.
“Se alguém chegasse à minha clínica com um IMC=30 – mulher – eu a colocaria em uma dieta de 1200 a 1500 calorias por dia, pois ela estaria comendo usualmente 2500. Uma mulher normal, moderadamente ativa, come 2000 calorias por dia, e um homem, 2500”. Mas isso não “produziria uma fome crônica ?” a reporter pontua imediatamente. “Sim, produz”, replica Apovian, “e é geralmente uma fome que as pessoas não podem tolerar. Essa é a razão pela qual a maioria dos programas de dieta falha”.
Então como é que a “dieta de fome” de 1944 tornou-se o padrão de cuidado atual ?

Proteína, Fome e Perda de peso

A armadilha da gordura, um popular artigo do New York Tiems de 2011, mostra um estudo do Dr. Joseph Proietto, enfatizando a dificuldade de perder peso numa dieta de baixa caloria. Proietto recrutou 50 homens e mulheres obesos, estudando o estado biológico após a perda de peso. Os pacientes receberam um shake com pouca gordura e 500 calorias por dia, durante 8 semanas. Mas após 1 ano, o peso lentamente voltou e os sujeitos foram assombrados por suas mudanças hormonais induzidas pela dieta, sentido-se “muito mais famintos e preocupados com comida do que antes de perderem o peso”. Pesquisadores também notaram que a grelina, geralmente chamada de “hormônio da fome”, estava cerca de 20% mais alta do que no início do estudo. “O que vemos aqui é um mecanismo de defesa coordenado, com componentes múltiplos, todos direcionados a nos fazer ganhar peso”, Proietto diz. “Isso, eu acho, explica a alta taxa de falha no tratamento da obesidade”.
Entretanto, esse aumento da grelina induzido pela perda de peso só é observado quando a cetose está ausente. Esses mesmos pesquisadores, três anos depois, cantaram uma melodia diferente:
“Dietas cetogênicas low-carb são meios populares de perda de peso, e no curto prazo, geralmente resulta em maior perda de peso que dietas low-fat… E é comumente proposto que os corpos cetônicos suprimem o apetite, e tem sido observado que participantes de estudos do tipo “coma à vontade” em dietas cetogênicas restringem espontaneamente a sua ingesta energética”.
E o estudo randomizado deles no Jornal Europeu de Nutrição Clínica confirmou essa observação, demonstrando que “em pacientes com cetose leve, o aumento da concentração de grelina circulante, um potente estimulante do apetite, que ocorre como resultado de uma perda de peso induzida por dieta, foi suprimido”.
Esse efeito decorrente de uma dieta rica em proteínas e gorduras provavelmente explica o motivo de seguidores do Primal Blueprint serem tão bem-sucedidos e felizes com o seu novo modo de alimentação. Poderia explicar também o motivo de a maioria dos estudos randomizados controlados testando tais dietas, cujas ingestas mais altas de proteína e gordura sistematicamente levam a mais perda de peso. Há no mínimo 14 estudos clínicos randomizados nos quais as pessoas alocadas a dietas ilimitadas em calorias, ricas em proteína, ricas em gordura, perderam mais peso que as suas contrapartes alocadas com dietas restritas em calorias e pobres em gordura.
O que leva à questão: Onde estão os estudos clínicos randomizados que suportam as dietas de baixa gordura como padrão de cuidado ? Os estudos nos quais uma dieta low-fat, restrita em calorias, resultaram em maior perda de peso que uma dieta ilimitada em caloeiras e rica em gordura. De fato, nós da AWLR ficamos tão aturdidos pela falta de evidência que promovemos o “Desafio de Baixa Gordura” para qualquer pessoa no mundo que achar tal estudo, incentivado por um pote de dinheiro arrecadado via internet. Depois de quase um ano, centenas de dólares foram levantados e nenhum vencedor apareceu.
(…)
Enquanto você lê essas palavras, há alguém lá fora que está deprimido, sem saúde e com sobrepeso. Um pobre coitado sendo evitado pela comunidade médica devido à sua “falta de força de vontade”, que luta para sobreviver com sua dieta de 1400 calorias e pouca gordura. Um belo ser humano com felicidade sem limites, preso sob o peso da fome constante e um rótulo de “IMC > 30”, desesperadamente buscando por uma solução real. Com a sua ajuda, espero que possamos alcançá-los e oferecer uma mão gentil e solidária.

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