O preço da paz

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Quantas vezes, em toda a sua vida, você começou a fazer uma dieta ? Qualquer uma serve: restrição calórica convencional, Vigilantes do Peso, South Beach, atkins, dukan, ornish, paleo, sopas, repolho,  vegetariana, vegana, etc.
E a pergunta mais difícil: quantas vezes você fracassou ?
Veja bem, qualquer intervenção alimentar que te leve a ser mais consciente do que você come, tenderá a te emagrecer. Comer pouco e malhar muito emagrece. Comer muita gordura e pouco carbo emagrece. Comer pouco carbo, pouca gordura e muita proteína emagrece.
Toda dieta funciona. Então por que diabos tanta gente fracassa ?
A resposta direta é que toda dieta funciona desde que você a pratique. Restringir as suas calorias vai te fazer perder peso, não tenha dúvida. Mas quais são os efeitos colaterais disso ? Se a restrição calórica constante te deixar com fome, e você der “uma escapada” hoje, “uma escorregada” amanhã, “uma jacada no sábado”, estará abrindo o caminho para retomar hábitos antigos.
Uma dieta paleo vai te fazer restringir as calorias inconscientemente, por conta de seu alto poder saciante. Mas se você começar a jacar com frequência, adeus….
O que mata não é o “de vez em quando”, e sim o “todo dia”… 
Talvez você já tenha ouvido a frase “O preço da paz é a eterna vigilância”. Muitos a atribuem ao Almirante Tamandaré (militar brasileiro), outros a Thomas Jefferson (estadista americano), outros a Patrick Henry (estadista americano) e outros ainda a John Curran (escritor irlandês).
A mim, não interessa a autoria – apenas a mensagem…
O preço para se ter os benefícios de uma dieta (perda de peso, melhora de marcadores, etc) é praticar a tal dieta. Bioquimicamente, umas são mais eficientes que as outras, isso é fato também – mas (quase) todas têm potencial para darem certo. O que nem todas têm é a necessidade de depender da força de vontade.
Quem já leu os livros do Gary Taubes ou assistiu “Fed up”, sabe que a força de vontade está fadada ao fracasso na maioria esmagadora dos casos. Se você depender exclusivamente dela para, tendo fome e alimentos à disposição, escolher conscientemente não comer, acredite em mim: um dia você vai falhar. E onde passa um boi, passa uma boiada.
“Ah, mas é preciso ter força de vontade para não comer doces ou massas”.
Essa frase é verdade sim, mas há contornos: comer um pouco mais de gordura vai aliviar a compulsão por carboidratos refinados na maioria das pessoas. Mas me diga qual é a solução de contorno para ter fome constante e simplesmente suportá-la ? Encher-se de fibra sem valor nutricional e sem gosto, e repetir isso a cada 3 horas ? A estatística é clara: 98% de quem tenta perder peso reduzindo as calorias e malhando mais, falha [1].
Dietas mais pobres em carboidratos sempre exigirão menos “força de vontade” que as as dietas mais ricas em carboidratos (especialmente refinados) pelo simples fato de reduzirem seu apetite. Embora a frase do Betinho tenha sido num contexto completamente diferente (o de quem não come por não ter o que comer), ela contina sendo válida nesse âmbito: Quem tem fome, tem pressa.
Contra a fome, não há força de vontade que sobreviva no longo prazo.
Assim sendo, vigie eternamente a sua paz. Isso não quer dizer nunca escorregar, nunca jacar. Mas sim, implica em manter “um olho no gato e outro no peixe”. É uma ambiguidade zen que aplica-se não somente a dietas, mas a relacionamentos, à sua segurança ao andar na rua, ao praticar qualquer atividade que envolva risco.
Como diz o Mestre Brasília, da capoeira:
“Tem do bom, tem do ruim
Mas você pode escolher
O bom fica à sua espera
O ruim procura você”
Se você está chegando agora ao mundo low-carb, considere munir-se de material teórico e prático para manter sua vigilância sempre em alta:

Referências

  1. Stunkard A. and M. McLaren-Hume, “The results of treatment for obesity: a review of the literature and report of a series”, Archives of Internal Medicine, (1959).

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