Os bolinhos e o preconceito

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No final de semana passado, foi aniversário da minha cunhada. A minha esposa preparou um bocado de cupcakes (de trigo mesmo) para a festa. Acabou que quase ninguém quis comer, e a fornada voltou praticamente toda para a minha geladeira. E foi ficando…
… até que hoje eu resolvi doar (já que ninguém lá em casa ia comer), antes que estragassem. Por mais que eu não goste de trigo e açúcar, não posso jogar comida no lixo quando tem gente com fome por todo lado. Para quem não tem o que comer, mais vale uma comida cheia de carbos refinados ou nada ? A resposta, para mim, é simples.
Coloquei todos os cupcakes (uns 20) numa caixinha, e (como é de praxe) saí para o trabalho a pé. No caminho, encontrei diversos moradores de rua e fui oferecendo os bolinhos. Em minha cabeça preconceituosa, achei que os bolinhos “acabariam” com o primeiro sem-teto. Ledo engano. Cheguei ao trabalho e ainda tinha bolinhos na caixa.
O que se passou foi que cada morador de rua, sem exceção, se recusou a pegar mais que 2. A maioria pegou só 1. Vários me disseram a mesma coisa, embora com palavras diferentes:

Vai que eu pego mais, e lá na frente fica um outro irmão sem receber nenhum. Um irmão tem que olhar pelo outro, né ?

A única pessoa que pegou mais de 2 bolinhos foi uma senhora, varredora de rua, que pegou 4. Segundo ela, iria levar para a filha. 
E aí a minha ficha caiu de novo (sendo franco, ela já caiu várias vezes – mas o dia-a-dia selvagem da cidade sempre me fez esquecer): é muito mais comum as pessoas que têm menos (em termos materiais) preocuparem-se menos com o “ter”, do que aquelas que têm um pouco mais. 
Não quero ser piegas, e nem me dar à antropologia fajuta, mas a preocupação com o próximo parece diminuir à medida que possuímos mais. Não sei dizer se é um mecanismo biológico, essa assunção de que “se eu estou bem, dane-se o resto”, ou se é um construto social. Da mesma maneira, não sei dizer se é mecanismo biológico o pensamento no bem-estar coletivo (“se eu tenho, posso dividir com o outro e a espécie como um todo vai sobreviver mais um dia”), ou se é outro construto social.
Coisa parecida já tinha acontecido antes, por diversas vezes, entre 2007 e 2010: durante esse período, volta-e-meia eu ajuntava roupas e sapatos usados e ia para algum lugar onde sabia que tinha moradores de rua. Montava uma espécie de stand, e à medida que as pessoas chegavam, olhavam e perguntavam quanto era, respondia “é de graça”. No começo ninguém acreditava, mas depois iam escolhendo e levando – e raramente levavam mais do que 1 muda de roupa ou 1 par de sapatos…
O que sei é que ficaram bolinhos para distribuir, e no caminho para a faculdade eu vou procurar mais gente que possa querer. Vamos ver se agora eles acabam.

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