Comer uma dieta paleo vai causar gota ?

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Uma questão comum que recebo de leitores é se uma dieta paleo vai aumentar o seu risco de gota. Gota é um tipo de artrite inflamatória causada por níveis elevados de ácido úrico no sangue, formando cristais que se depositam nas articulações, tendões e tecidos circundantes.  

A gota tipicamente afeta os pés em geral e o dedão específicamente, causando dor severa e inchaço. No passado, a gota era chamada de “doença do rico”, porque afetava tipicamente a classe superior e a realeza, que podiam comprar comidas “ricas” como carne, açúcar e álcool.  

Ácido úrico é um subproduto do metabolismo de purinas, uma das duas bases nitrogenadas que forma a estrutura básica do DNA e do RNA. Enquanto as purinas estão presentes em todas as comidas, elas são tipicamente mais concentradas em comidas enfatizadas por uma dieta paleo densa em nutrientes, tais como carne vermelha, peru, órgãos e certos tipos de peixes e frutos do mar.

Pacientes com gota são frequentemente aconselhados a reduzir ou eliminar essas comidas ricas em purina, com o objetivo de prevenir a produção excessiva de ácido úrico – e por conseguinte, reduzindo os sintomas da gota. Pesquisas já confirmaram a associação entre alta ingesta de purinas e ataques agudos de gota, sugerindo que aqueles diagnosticados com gota se beneficiariam de uma dieta reduzida em comidas ricas em purinas (1, 2)  

Então, precisamos reconsiderar nossas recomendações de comer comidas como fígado, sardinhas, carne vermelha, mexilhões e outras comidas tradicionais ? Essas comidas densas em nutrientes, ricas em purina, causam gota ? Aqueles de nós que seguem uma dieta paleo estão se colocando em grande risco para essa condição dolorosa e debilitante ?  

Inflamação como causa de ataques de gota

Enquanto alta ingesta de purinas está associada com ataques de gota naqueles que já tem hiperuricemia, ou níveis altos de ácido úrico no sangue, a ingesta de purina sozinha não é suficiente para disparar os ataques.

Na verdade, os níveis de ácido úrico frequentemente diminuem durante ataques de gota (3), às vezes chegando à faixa da normalidade. outro fator associado com os ataques de gota é o aumento na proteína C-reativa (CRP) e a interleucina-6 (IL-6), citocinas produzidas durante inúmeras condições inflamatórias (4).

Essas citocinas inflamatórias ficam aumentadas no fluído das articulações e no soro sanguíneo de pacientes com atrite aguda por gota (5, 6)  

Entretanto, inflamação sistêmica é provavelmente um fator-chave afetando a probabilidade de ataques de gota, e até onde sabemos, a dieta exerce um papel significativo na inflamação.

Enquanto comidas como gado alimentado com pasto, sardinhas e cavala são ricas em purinas, elas também são ricas em ácidos graxos ômega-3 e pobres em ômega-6.

Uma vez que o equilíbrio O3/O6 na sua dieta modula a resposta inflamatória, uma dieta com gorduras ômega-3 de cadeia longa tais como EPA e DHA vai reduzir a inflamação sistêmica e podem reduzir o risco de formação dos cristais de ácido úrico que causam a dor articular.  

Frutose: um jogador importante no desenvolvimento de gota

Enquanto a frutose em quantidades naturalmente ocorrentes é relativamente benigna, pesquisas mostraram que ingestas mais altas de frutose podem mediar muitas das anormalidades vistas na síndrome metabólica, incluindo triglicérides elevado, devido a aumentos na produção de ácido úrico (7).

Um estudo recente confirou o potencial de elevação do ácido úrico pela ingestão de frutose, tanto ao produzir ácido úrico em excesso quanto em reduzir a sua excreção na urina (8)  

Ao mesmo tempo que algum ácido úrico no sangue é normal e provê proteção antioxidante, ácido úrico em excesso é pró-oxidante e o maior fator causal da gota. Alguns pesquisadores sugerem até mesmo que ácido úrico em excesso no sangue é um grande fator no desenvolvimento de resistência à insulina e doenças metabólicas (9).

Então se você está evitando o excesso de frutose a partir de xarope de milho de alta frutose (HFCS) e da sacarose (açúcar de mesa), você terá menos risco de gota do que alguém que engole seu hamburguer com uma lata de coca-cola.  

Uma palavra sobre a correlação epidemiológica entre carne e gota

Uma das principais razões pelas quais quaisquer médicos convencionais e profissionais de saúde veem o consumo de carne vermelha como fator de risco significativo para gota é que a carne vermelha é tipicamente um componente de uma “dieta ocidental padrão”, um padrão que também é alto em açúcar, enquanto é baixo em frutas e vegetais (10).

É quase impossível para epidemiologistas separar o consumo de carne desse padrão geral de alimentação quando estudando culturas modernas – afinal de contas, a maioria dos  comedores “conscientes sobre a saúde” da nossa geração acredita que a carne não é saudável e tipicamente come menos dela.

Enquanto a maioria dos estudos epidemiológicos tentam controlar esses fatores de confusão, a verdade é que a maioria dos altos consumidores de carnes são também propensos a outros hábitos pouco saudáveis tais como fumar e beber, e tipicamente tem mais sobrepeso que os consumidores de pouca carne, nesses estudos.

É claro que isso não nos diz nada sobre sobre os comedores paleo, que são ativos, tem consciência de saúde, evitam HCFS e ácidos graxos Ômega-6, bem como outras comidas inflamatórias tais como grãos refinados, e não bebem muito ou fumam.  

Comer uma dieta paleo não vai causar gota!

Da próxima vez que seu médico ou melhor amigo disser que você vai desenvolver gota por causa da dieta paleo, pode direcioná-lo para esse artigo.

Fique tranquilo, que uma dieta cheia de comidas densas em nutrientes tais como gado alimentado com pasto, fígado, crustáceos e peixes oceânicos gordos não vai te colocar em risco de desenvolver essa condição dolorosa.

Maior probabilidade de causar gota tem os alimentos básicos da dieta americana tais como refrigerantes, óleos refinados a partir de grãos, carboidratos refinados e álcool excessivo (cerveja em particular).

A dieta padrão ocidental é um fator de risco para gota; uma dieta paleo densa em nutrientes, não!

Artigo de Chris Kresser, traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

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