Leucocitose digestiva

Outro dia um leitor me perguntou sobre "leucocitose digestiva". Como eu não fazia a menor idéia do que fosse, fui pesquisar.

O fenômeno é caracterizado por um aumento nos leucócitos em circulação após uma refeição, e foi descrito originalmente em 1854 pelo Dr. Jacob Moleschott. Embora desde então dezenas de outros estudos tivessem mostrado que o número de leucócitos varia ao longo do dia independente de refeições (ou do tipo de macronutriente predominante, ou mesmo se o sujeito está de pé ou deitado), calhou que na década de 1930 um pesquisador chamado Paul Kouchakoff descobriu que após a ingestão de uma refeição crua, o número de leucócitos em circulação não aumentava. 

Ora, os leucócitos são células do nosso sistema imune, que teoricamente só são acionadas caso algo de "ruim" esteja acontecendo a nossos corpos. Teoricamente, tudo o que eleva o número de leucócitos deveria ser perigoso. Certo ?

O artigo de Kouchakoff é um dos mais usados pelos defensores de dietas cruas, que em geral também são livres de produtos de origem animal. Por essa ótica, alimentos cozidos são "maus", enquanto alimentos crus são "bons".

Mas se observarmos um pouco mais a pesquisa do Dr. Kouchakoff, veremos que ela tem algumas arestas a mostrar:

  • Segundo ele, a adição de 10% de alimentos crus, ou que não tenham sido submetidos a "temperaturas críticas" durante muito tempo, elimina os efeitos da leucocitose. As "temperaturas críticas" variam de 87 a 97C – o que é bastante quente, a meu ver. Dá para fazer ovos pochê ou cozidos com facilidade
  • Ele sugeria que algumas comidas poderiam ser usadas sem o risco de leucocitose, incluindo: leite cru; iogurte; chá e café com suco de limão, leite cru ou creme de leite cru; pão integral com manteiga; ovos moles; manteiga; queijo; carnes cruas ou ao ponto; frutas; legumes (com maionese); óleos vegetais extraídos a frio; sal; pimenta e outros condimentos. Também recomendava que carnes grelhadas fossem servidas com saladas cruas para reduzir a leucocitose.
  • Kouchakoff detectou que beber água que foi aquecida também causa a leucocitose – isso é muito estranho, dado que água pura dificilmente é tóxica. Dá a entender que muitos erros podem estar embutidos na pesquisa.
  • Embora os resultados da pesquisa sejam fascinantes, eles não foram reproduzidos por mais de 80 anos depois da publicação original. Isso não significa que são inválidos, mas que a replicação por outros cientistas agregaria força à sua hipótese. 

Há um ponto central aqui, que é o fato de não se saber se a elevação dos leucócitos pós-refeição tem algum efeito deletério. O argumento mais usado em favor dessa hipótese é o de que: 

Se os leucócitos estiverem "combatendo" a comida cozida, não terão tempo para nos defender de microorganismos. Assim, uma dieta de alimentos crus dará "folga" ao sistema imune.

Perceba que essa afirmação carece de evidências: em se tratando do método científico, o ônus da prova é do proponente. Não há estudos que demonstrem esse efeito de "distração do sistema imune com comida, enquanto os germes atacam". É uma especulação (hipótese) pura e simplesmente, e precisa de suporte para ser promovida a teoria

Bem, a eficiência do sistema imune não está necessariamente ligada ao volume de leucócitos em ação em determinado momento. Sabe-se que atividade física, por exemplo, eleva o número de leucócitos [1]. Gravidez também eleva [2].

Eu entendo que exercício e gravidez não são inerentemente "ruins", mesmo causando leucocitose. E você, o que acha ?

Referências


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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

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Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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