Banquetes e jejuns: O ciclo da vida

Artigo traduzido por Antônio Júnior. O original está aqui.

Esse artigo é parte de uma série sobre jejum, escrita pelo Jason Fung. 


por Jason Fung

celebration cakesFestas são uma parte importante da vida. Este é um fato de importância vital a se reconhecer. Ou seja, cada celebração importante é marcada pelo festejo. Comer é uma celebração da vida. Qualquer dieta que não reconhece este fato está fadada ao fracasso. Nós comemos bolo em nosso aniversário. Nós comemos em festas de feriados como Ação de Graças. Nós celebramos a ceia de Natal. Nós preparamos banquetes de casamento. Nós vamos a um bom restaurante em nosso aniversário.

Nós não comemoramos com salada de aniversário. Nós não preparamos "barrinhas de substituição" como refeição de casamento. Nós não comemos "shakes verdes" de Ação de Graças. Precisamos reconhecer um fato que já sabemos desde sempre. O ganho de peso não é um fenômeno constante. É intermitente. Com esse conhecimento, você pode ver que uma solução duradoura para o ganho de peso também é intermitente. O ganho de peso varia ao longo da vida, e também ao longo do ano.

Certos períodos da vida estão associados com um aumento de peso. Isso inclui a adolescência, quando o ganho de peso é parte do desenvolvimento normal. Também inclui a gravidez, outra situação em que a insulina desempenha um papel dominante. O ganho de peso durante a gravidez é normal. No entanto, ele também aumenta o risco de obesidade mais tarde na vida, bem como ­ uma demonstração da dependência temporal da insulina e obesidade. Este período de maior efeito na insulina (para ajudar o ganho de peso corporal) pode ter efeitos duradouros.

A maneira mais simples de estudar esta questão é comparar mulheres que tiveram filhos com aquelas que não tiveram. Há vários problemas com esta abordagem, uma vez que este não é um grupo randomizado, e aquelas que nunca tiveram filhos (nulíparas) podem ser diferentes daquelas que tiveram filhos. Por exemplo, o estresse de ter filhos e a privação de sono associados podem ter um efeito. No entanto, um estudo randomizado está fora de questão, então estes são os melhores dados que teremos.

10 anos de dados de acompanhamento a partir do primeiro National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES 1971­1975) foram utilizados neste trabalho de 1994. No geral, o ganho de peso das mulheres quem tem crianças em comparação com nulíparas foi de 1.6kg após o ajuste. Com 1, 2, e 3 crianças o ganho de peso médio foi de 1.7, 1.7 e 2.2kg, respectivamente, então surge aqui alguma evidência de dose­-resposta.

Isso não parece tão ruim, não é? Mas o risco de ganhar mais de 13kg foi aumentado 40-60%! O risco de sobrepeso aumentou 60-110%. Assim, enquanto o efeito global parece modesto, as consequências para a saúde podem não ser assim. Parece haver algumas mulheres predispostas a ganhar grandes quantidades de peso pós­-parto, e muitos que voltam ao peso pré-nascimento. Você provavelmente conhece pessoas assim.

Isto está longe de ser um achado isolado. Em 1994, o Journal of the American Medical Association publicou o estudo CARDIA, que também mostrou um ganho de peso de 2-­3kg ao longo de 5 anos, associados com a gravidez. Isso aconteceu tanto em mulheres negras quanto brancas. A proporção entre cintura e quadril também aumentou –­ um indicador de ganho de gordura visceral, o tipo mais perigoso. 

A menopausa também está associada com ganho de peso significativo. As mulheres foram medidas durante os seus anos de menopausa e em média tiveram ganho médio de 2,25kg. Juntamente com isso, a pressão sanguínea, o colesterol sérico e a insulina em jejum tende a aumentar. Em homens, o peso tende a aumentar nos anos seguintes ao casamento. Homens casados tendem a ser mais gordos que os solteiros. Isto não parece ser verdade para as mulheres.

O ponto principal é que este ganho de peso não é sempre constante. E também o ganho de peso é um desequilíbrio em grande parte hormonal, e não calórico. As alterações hormonais da gravidez e menopausa podem certamente precipitar grandes mudanças de peso. Tentar combater um problema hormonal com armas baseadas em calorias é uma proposta perdedora.

Outros eventos da vida muitas vezes causam ou estão associados a ganho de peso. Parar de fumar é uma das principais causas de ganho de peso. Em um artigo NEJM em 1991, estimou-se que o peso ganha média 2,8kg nos homens e 3,8kg em mulheres. No entanto, algumas pessoas têm grandes ganhos de peso, de mais de 13kg –­ 9,8% dos homens e 13,4% das mulheres.

Mesmo em um único ano, a maior parte do ganho de peso ocorre num curto período de tempo. Vamos dar uma olhada em quando o ganho de peso acontece, em um artigo publicado no New England Journal of Medicine, em 2000, chamado "Um estudo prospectivo de ganho de peso do feriado". O período de férias nos EUA, que vai da Ação de Graças para o Ano Novo, abrange aproximadamente 6 semanas. Os pesquisadores mediram várias vezes uma amostra de 200 adultos dos EUA para ver se o ganho de peso desproporcionalmente aconteceu durante este tempo.

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Pré-feriado / No feriado / Pós-feriado / Total

O ganho de peso médio durante todo o ano foi de 0,2­–0,8kg – perto do comumente citado na imprensa leiga. Neste estudo, a média de peso ao longo de todo o ano foi de 0,62 kg.

No entanto, este ganho de peso não é igualmente distribuído ao longo do ano. Nas 6 semanas do período de férias, cerca de 2/3 do peso de todo o ano foi adquirido (0,37kg). Nas 46 semanas restantes do ano, apenas 1/3 do peso é adquirido. Há uma pequena tentativa de perder peso no período imediato pós­-férias, mas isso claramente não é suficiente para compensar o ganho de peso do feriado.

Outro achado interessante foi que os indivíduos que já estavam com sobrepeso ou obesos tendem a ganhar mais peso durante o período de férias. Isso provavelmente não é novidade para as pessoas. O gordo fica mais gordo. Aqueles que têm lutado com peso mais tempo, têm mais dificuldade.

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Percentagem de sujeitos com grandes ganhos de peso no feriado. 
Quanto mais gordo, mais peso se ganha.

Este é mais um exemplo do dependência temporal da obesidade. Uma das principais deficiências da teoria da calória é menosprezar este importante fato da vida.

Se o ganho de peso não é uniforme ao longo do ano, então os esforços de perda de peso também precisam variar. Você precisa de uma estratégia de aumentar a perda de peso, por vezes, e uma de manutenção de peso para os outros. Uma dieta constante não corresponde ao ciclo da vida. Festança e jejum. Há momentos em que você deve comer muito. Haverá outros momentos em que você não deve comer quase nada. Esse é o ciclo natural da vida.

Se mantivermos toda a festa, mas eliminarmos todo o jejum, então é bastante previsível que o resultado será ganho de peso. Na verdade, as religiões têm quase universalmente reconhecido esse fato. Há muitos períodos em que é prescrito banquete ­ Natal, por exemplo. Há outros períodos de tempo em que o jejum é prescrito ­ Quaresma, por exemplo.

As antigas civilizações e religiões todas sabiam deste simples ritmo da vida. Quando a colheita chega, você deleita-se. Só que você irá jejuar freqüentemente no próximo inverno. Mas agora, em nossos dias modernos de contínua disponibilidade de alimentos, as religiões têm abandonado os períodos de festança e jejum. Mantivemos as festas, mas tememos os jejuns. Eles tornaram-­se demonizados. E nós pagamos o preço.

O diabetes tipo 2 tornou-se uma epidemia absoluta em todas as faixas etárias. Parece bastante óbvio que este é um problema de equilíbrio. Se você festeja, você deve jejuar. Se você mantiver todo o deleite e perder todo o jejum, você engorda. Isso não é realmente tão difícil de entender, não é?



Prevalência do diabetes por faixa etária

Mas o que acontece quando você perde toda a festa? Bem, então a vida se torna um pouco menos especial. Se você é o cara no casamento que não vai beber, que não vai comer o bolo, que não vai comer a refeição completa, que não vai comer os aperitivos – há um nome para isto:­ o desmancha-prazeres.

Talvez você possa manter por 6 meses, ou 12 meses. Mas para sempre? Tsc, nem mesmo as religiões mais extremas fazem isso. Isso é muito difícil de praticar. A vida é cheia de altos e baixos. Comemore os altos porque os baixos são ao virar da esquina. Mas você deve equilibrar os períodos de comer um monte com períodos de comer muito pouco. É tudo uma questão de equilíbrio.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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