A falha inesperada na filosofia da dieta paleo

Artigo traduzido por Hiton Sousa. O original está aqui.

por Eirik Garnas

Estamos retornando à maneira de alimentação dos nossos ancestrais ? Tendências de pesquisas na internet e a enorme força que a dieta das cavernas ganhou na última década (especialmente nos últimos anos) poderia sugerir que sim. A dieta paleo foi a mais buscada no Google em 2013, e muitos atletas, entusiastas da malhação e mesmo donas de casa e pessoas que anteriormente não tinham qualquer interesse especial em nutrição e saúde agora juram que a dieta paleo é uma maneira de construir um corpo forte, condicionado e saudável.

Entretanto, nem todo mundo se juntou ao bando; com a quantidade de atenção dada pela mídia e a popularidade da dieta paleo, as críticas e controvérsias são também inevitáveis. Esse aumento na pressão negativa e artigos publicados para derrubar a dieta paleo tem sido especialmente aparente nos últimos meses, e parece mesmo que estamos na direção de um lugar no qual é bacana atacar a própria idéia de comer como nossos ancestrais caçadores-coletores. Esta crítica provavelmente deriva do fato de que a dieta paleo vai contra a maioria do conhecimento nutricional convencional, e que a maioria das pessoas não está pronta para abandonar os grãos, leite e outras comidas básicas da dieta ocidental – e por conseguinte desdenham da própria idéia de comer como nossos "simplórios" ancestrais pré-históricos.

Este não vai ser um destes artigos. Eu não vejo sentido em "detonar" uma dieta que foca-se em comer comidas não-processadas, nutritivas (frequentemente orgânicas, alimentadas com pasto, etc). Entretanto, há algumas limitações e falhas na filosofia da dieta paleo, e neste artigo eu vou dar uma olhada mais profunda em uma das premissas básicas da dieta: a idéia de que nosso genoma não adaptou-se completamente a alimentos introduzidos após a revolução agricultural (às vezes chamadas de "comidas neolíticas") e que nós portanto deveríamos comer as comidas que nossos ancestrais paleolíticos comiam se quisermos otimizar a saúde e expressão genética.

Aqueles que não aprendem com a história, estão condenados a repeti-la


Acho que poucos discordariam de que a dieta paleo é muito saudável. Também não acho que qualquer um em sã consciência classificaria a dieta paleo de "dieta da moda", já que em muitos aspectos ela poderia ser rotulada de "a dieta humana padrão". Sou um grande fã de usar a evolução como guia em todos os aspectos da vida, e acredito firmemente que não podemos realmente entender a nutrição humana sem estudar a maneira como os humanos vêm comendo por milhões de anos e como a pressão seletiva e a seleção natural fizeram da espécie humana o que ela é hoje. Entretanto, isso não significa que temos que emular a dieta dos nossos ancestrais para sermos saudáveis. Parece que a cada vez que alguém foca-se na evolução, dietas caçadoras-coletoras, etc, a informação é automaticamente rotulada de "paleo". Entretanto, poucas pessoas diriam que um economista ou engenheiro que estuda a história da sua profissão acredita que deveríamos retornar à maneira antiga de se fazer as coisas. É simpesmente uma maneira muito eficiente de descobrir o que funciona e o que não funciona, e criar uma estrutura sobre a qual trabalhar. Como o filósofo italiano George Santayana uma vez disse: "Aqueles que não aprendem com a história, estão condenados a repeti-la".

O que é a dieta paleo, e como ela é usada no mundo moderno?


Vamos primeiro definir o que é a dieta paleo, para aqueles que não estão familiarizados com o conceito. A dieta paleo padrão/original consiste principalmente de frutos do mar, carnes criadas com pasto, ovos, legumes, frutas, cogumelos, raízes e castanhas. Enquanto há alguma controvérsia sobre o consumo de leguminossa e grãos cereais no paleolítico, é em geral aceito que estas comidas não eram uma parte substancial da dieta de nossos ancestrais pré-históricos, e juntamente com os laticínios, batatas, sal refinado, açúcar refinado, óleos processados, são excluídas da dieta paleo.

Vale mencionar algumas outras coisas para realmente ter entendimento do que é a dieta paleo e como ela é praticada hoje. Primeiramente, está bem estabelecido que não havia uma dieta paleolítica universal. A dieta de povos caçadores-coletores ancestrais e contemporâneos dependia/depende de diversos fatores tais como localização geográfica, estação, clima, etc, e a ingestão de nutrientes portanto variava/varia consideravelmente entre tribos diferentes. Entretanto, é usualmente bem aceito que leguminosas, grãos e laticínios não são uma parte importante da dieta de caçadores-coletores (novamente, alguma controvérsia existe, especialmente ligada às leguminosas). Outra coisa especialmente importante de se mencionar é que a abordagem moderna à dieta paleo evoluiu significativamente ao longo da última década. Quando a idéia de comer como nossos ancestrais começou a ganhar popularidade, a regra básica era que todas as comidas introduzidas após a revolução agricultural deveriam ser evitadas, e que a dieta paleo era composta exclusivamente de carnes alimentadas com pasto, peixe/frutos do mar, frutas/verduras/legumes frescos, ovos, castanhas e sementes.

Enquanto alguns defensores da dieta paleo ainda seguem essa dieta original/"pura", a maioria dos grandes nomes na comunidade de saúde ancestral agora observam a dieta paleo como um ponto de partida para a boa nutrição no mundo moderno, e tipicamente reconhecem que um pouco de vinho tinto, laticínios de vacas alimentadas com pasto, batatas e outras "novas" comidas podem ser parte de uma dieta saudável. Estas exceções incluem Mark Sisson, que combinou o melhor dos mundos paleolítico e moderno no Primal Blueprint, e Chris Kresser que fala sobre "ir além da paleo".

Alguns paleo-autores chegam até mesmo a afirmar que sua versão da dieta paleo é mais consistente com o que nossos ancestrais pré-históricos comiam do que o desenho original da dieta pelo. É aqui que várias das críticas recentes à dieta paleo perdem o ponto. Se simplesmente olharmos a dieta paleo no papel, ela parece desnecessariamente restritiva. Entretanto, quando começamos a compreender que a maioria dos praticantes de paleo usam a dieta caçadora-coletora como um modelo ao invés de um conjunto fixo de regras, a maioria das pessoas começa a aceitar que basear nossas dietas em torno das comidas que temos comido ao longo da maior parte da nossa história evolutiva provavelmente não é uma idéia tão ruim. Como muitos dos gurus paleo mais populares não advogam mais por uma dieta paleo "pura", pode-se argumentar (criticar ?) que a dieta paleo é mais um rótulo – ou uma ideologia, ou um modelo – neste ponto.


A idéia por trás da dieta paleo


O estilo de vida ancestral promove um fenótipo normal


Por que algumas pessoas creem que estaríamos melhor se excluíssemos comidas que nossos ancestrais não comiam ? Apesar de não termos dados para ter certeza, acredita-se que em geral os humanos paleolíticos eram saudáveis e fisicamente bem-condicionados – e virtualmente livres das chamadas "doenças da civilização". Enquanto a expectativa média de vida era mais curta do que hoje, isso é frequentemente atribuído às condições duras que nossos ancestrais paleolíticos enfrentavam: guerra, mortalidade infantil, acidentes, etc.

Como o conhecimento sobre a saúde e expectativa de vida no paleolítico é primariamente baseado em dados arqueológicos, é evidente que não conseguimos tirar conclusões firmes. Entretanto, diversos estudos nos últimos séculos unimamente mostraram que os caçadores-coletores não-afetados pelo estilo de vida ocidental são extremamente saudáveis e virtualmente livres de doenças como câncer, doença cardíaca, diabetes tipo 2 e obesidade (1,2,3). Estas populações saudáveis tem dietas e estilos de vida muito diferentes, mas há também algumas características comuns que contribuem para sua boa saúde. Estas incluem uma quantidade moderada/alta de atividade física (com exceções), uma dieta paleo, exposição regular ao sol (com exceções), exposições microbianas e baixa exposição a poluentes.

Então, enquanto a dieta é apenas um dos fatores que mantêm estas populações indígenas saudáveis, ela é também tipicamente considerada a mais importante. A idéia básica por trás da ideologia paleo é que o ambiente e estilo de vida ancestrais promovem um fenótipo normal, e que o descompasso entre genes e ambiente que agora encaramos no mundo industrializado moderno é a causa primária das doenças da civilização.

Caçadores-coletores são livres das doenças da civilização,
e esta proteção é grandemente atribuída às suas dietas ancestrais


Não tivemos tempo suficiente para nos adaptar a comidas introduzidas após a revolução agricultural


Enquanto poucas pessoas com experiência em biologia e nutrição vão discordar da idéia basica por trás dos descompassos evolucionários e o fenótipo moderno sub-ótimo, é o foco da dieta paleo na agricultura que frequentemente causa muito debate. Basicamente, a dieta paleo é construída sobre aidéia de que nosso genoma não teve tempo suficiente para adaptar-se a comidas introduzidas após a revolução agricultural e que portanto deveríamos comer como nossos ancestrais paleolíticos para otimizar a saúde. É aceito em geral que a introdução da agricultura conicidiu com a redução da estatura e declínio da saúde humana, e frequentemente acredita-se que tais mudanças foram majoritariamente devidas ao aumento do consumo de cereais e laticínios. Entretanto, enquanto isso dá suporte à idéia de que as comidas do neolítico são inferiores às que comemos durante o paleolítico, não diz que 10.000 anos é muito pouco tempo para adaptar0se aos grãos, leguminosas e laticínios.

Em geral, há muita controvérsia no que diz respeito ao genoma humano e à adaptação a novos alimentos. Alguns pesquisadores dizem que 10.000 anos é tempo mais que suficiente, enquanto paleo-defensores argumentam que 10.000 anos é apenas uma gota no oceano, comparados aos milhões de anos da evolução humana. De qualquer maneira, não é sobre isso que quero falar neste artigo. Ao invés, gostaria de mostrar a importância do segundo genoma em nosso corpo – o microbioma humano – e o papel essencial que ele tem na digestão e metabolismo do alimento.

Micróbios intestinais podem adaptar-se a degradar uma ampla gama de alimentos


Graças ao projeto microbioma humano e outros grandes projetos de pesquisa ao redor do mundo, agora sabemos que trilhões de microorganismos de milhares de espécies diferentes habitam o corpo humano, e que o repertório genético destes germes é ano mínimo 100 vezes maior que o do hospedeiro humano – essencialmente fazendo de nós apenas 1% humanos do ponto de vista genético (4,5). A maioria destes velhos amigos vive no trato gastrointestinal, onde nos ajudam a digerir a comida e proveem outras funções essenciais que vão muito além das nossas próprias capacidades fisiológicas. Enquanto o nosso genoma humano é capaz de produzir "apenas" as enzimas necessárias para quebrar o amido, açúcares simples e a maior parte das proteínas e gorduras, o microbioma pode adaptar-se para quebrar um grande conjunto de alimentos. Enquanto aprendemos pela epigenética que podemos impactar a expressão dos genes, é em geral aceito que o genoma humano muda bem lentamente ao longo do tempo; que é o motivo de algumas pessoas argumentarem que 10.000 anos não é tempo suficiente para nos adaptarmos às comidas neolíticas.

Entretanto, estamos aprendendo agora que o microbioma vastamente mais diverso geneticamente adapta-se rapidamente a mudanças na dieta e estilo de vida. Uma única refeição tem impacto na composição dos micróbios do intestino, e diversos dias numa dieta muito diferente da que você comia anteriormente podem levar a mudanças dramáticas no intestino (6,7,8). A diversidade, complexidade e natureza dinâmica do microbioma explica o porque de os humanos poderem ser 99% diferentes em termos de seus habitantes microbianos, enquanto estima-se com frequência que somos 99% iguais em termos do nosso genoma humano.

Mas por que isso importa em termos de adaptação genética às comidas neolíticas ? Assim como certos genes no nosso genoma humano são necessários para codificar as enzimas necessárias para quebrar o amido, maltose e outros nutrientes, o microbioma também nos ajuda a quebrar e metabolizar a comida que colocamos na boca. Apenas pense sobre o processo que acontece na fermentação do leite em kefir ou repolho em chucrute, no qual bactérias são capazes de quebrar os carboidratos nestas comidas. Um processo similar acontece no seu sistema digestivo. E é aí que fica realmente interessante em termos de adaptação genética a novas comidas. Enquanto nossa capacidade de alterar o genoma humano é limitada, podemos adicionar novo material genético ao microbioma ao introduzir novos tipos de bactéria. Um exemplo bem conhecido desse tipo de adaptação é visto em pessoas japonesas que abrigam material genético único em seu trato intestinal que as ajuda a digerir algas marinhas. Este genes foram provavelmente adquiridos comendo bactérias que vivem de algas no oceano aberto (9).

Diferenças nas populações de micróbios intestinais podem
explicar o motivo de algumas pessoas tolerarem os grãos
melhor que outras

Intolerância à lactose pode ser tratada com probióticos


O fato de que podemos adicionar material genético ao microbioma explicam o motivo de alguns sintomas da intolerância à lactose serem aliviados ao seguir o consumo regular de iogurte ou outros tipos de produtos que proveem bactérias que digerem lactose (10,11,12). Mesmo que estas criaturas não sejam capazes de colonizar o trato intestinal, elas ainda podem trasferir genes para bactérias presentes no intestino através de transferência genética horizontal. Veja, diferente dos humanos que passam o DNA dos pais para os filhos, os micróbios são capazes de transferir genes de uma maneira diferente da reprodução tradicional – e no intestino isso acontece o tempo inteiro. É importante notar que não é um processo da noite para o dia, pois leva tempo até as bactérias que digerem lactose estabeleçam-se no intestino. É também importante notar que precisa-se consumir pequenas quantidades de lactose para permitir que as bactérias consigam sobreviver.

Bactérias podem degradar glútem e ácido fítico


Então você pode basicamente manipular o microbioma ao prover novos micróbios (e o material genético contido neles) e/ou substratos dos quais os micróbios alimentam-se. E isso não se aplica apenas à lactose. Descobertas recentes mostraram que alguns micróbios produzem enzimas que degradam glúten (13,14,15) e ácido fítico (16) – duas das razões mais citadas para evitar grãos cereais. Eu creio que o estado do microbioma explica o motivo de algumas pessoas tolerarem tais comidas (como os grãos) muito bem, enquanto outros não conseguem.

O que isso significa, em termos de desenhar uma dieta saudável ?


O microbioma ocidentalizado sofre de falta de diversidade e resiliência

 

Isso significa que nós nos adaptamos aos grãos, leite e outras comidas banidas da dieta paleo ? Não tão rápido... A essa altura, é bem aceito que o estilo de vida ocidental é mestre em manipular o microbioma, e há milhares de estudos mostrando que a higiene moderna, comidas processadas, antibióticos, cesarianas, etc, perturbam o ecossistema microbiano que vive sobre e dentro dos nossos nossos corpos (17,18,19). O microbioma ocidentalizado sofre de falta de diversidade e resiliência, e é provavelmente apenas uma vaga lembrança do que era o microbioma dos nossos ancestrais pré-históricos. A perda de diversidade microbiana e a disbiose (desequilíbrio) foram ligadas a uma multitude de doenças e são sem dúvida uma grande força por trás das taxas aumentadas de desordens autoimunes, sensibilidades e alergias alimentares agora vistas no mundo industrializado (18,20,21). Especialmente relevante para este artigo é a prevalência aumentada de desordens relacioadas aos grãos e ao glúten, que foram ligadas à disbiose intestinal e à perda de velhos amigos microbianos.

O que isso significa é que mesmo que alguns micróbios sejam capazes de quebrar o glúten e outros componentes potencialmente danosos encontrados na comida, um microbioma doente – sem diversidade – em combinação com, por exemplo, uma dieta rica em trigo, pode ser uma combinação terrível. Isso também pode ajudar a explicar o motivo de alguns povos não-ocidentalizados, que podem nunca ter tomado antibióticos, comer comida "suja", regularmente consumir terra cheia de micróbios, e serem conhecidos por ter microbiomas muito mais diversos que os ocidentais, aprecem manter boa saúde mesmo com dietas baseadas em grãos – enquanto tantos reportes anedóticos de pessoas do mundo moderno sugerem que elas experimentam melhor saúde quando reduzem sua ingestão de grãos cereais.

Entretanto, também deveria ser notado que populações tradicionais tipicamente demolham, moem, fermentam ou usam outras técnicas tradicionais de processamento para tornar os cereais mais fáceis de digerir. Parte da razão de muitas pessoas reportarem melhora na saúde digestiva quando removem os grãos da dieta é provavelmente porque nós afastamos destas técnicas no mundo industrializado.

Probióticos e prebióticos


A pesquisa do microbioma está frutificando, e suplementos probióticos especificamente projetados para fornecer bactérias capazes de quebrar vários ingredientes da nossa dieta poderão estar disponíveis em breve. Mas nós realmente precisamos delas ? Em termos de intolerância à lactose, já temos os meios para tratar a condição com comidas fermentadas e suplementos probióticos que contém bactérias capazes de quebrar a lactose. Alguns produtos de grãos tradicionalmente fermentados provavelmente funcionam da mesma maneira (dependendo das bactérias presentes na comida e dos ingredientes que elas degradam), mas aqui a pesquisa científica é mais escassa. De qualquer maneira, é bem conhecido que grãos e leguminosas tradicionalmente fermentados são baixos em antinutrientes (uma das razões-chave pelas quais os paleo-advogados dizem que as comidas neolíticas deveriam ser evitadas), e gastar tempo para preparar tais comidas poderia por conseguinte valer a pena.

Em geral, comer mais comidas fermentadas de alta qualidade (por exemplo: chucrute e iogurte grego), substratos fermentáveis (por exemplo: amido resistente e frutanos tipo inulina), sujar-se de vez em quando, e retornar a antigas práticas alimentares é uma boa idéia se você quiser estabelecer um microbioma saudável. Enquanto apenas alguns tipos de comidas são oficialmente classificados como prebióticos, o fato é que uma ampla gama de compostos nas comidas tem propriedades prebióticas desde que você abrigue os tipos certos de bactérias intestinais. Por exemplo, a lactose pode ser quebrada por bactérias que digerem lactose no intestino se estas estiverem presentes, e os subprodutos que beneficiam o hospedeiro humano são então criados. Entretanto, o problema é que nós não sabemos o suficiente sobre o microbioma para dizer com certeza quais bichinhos são "bons" e quais são "maus".

Sim, sabemos que certas espécies de bactérias tais como os lactobacilos e as bifidobactérias são provavelmente benéficas à saúde human, mas temos que nos lembrar de que a microbiota intestinal é composta por centenas de espécies de bactérias, muitas das quais sabemos pouco. O microbioma que resulta de uma dieta baseada em grãos é bom para nós ? Neste ponto, não sabemos.



Só porque você é capaz de digerir e metabolizar um alimento sem problemas, não significa que você deve necessariamente comê-lo


Também, é muito importante notar que apesar de o microbioma poder adaptar-se a quebrar um número variado de alimentos, isso não significa que deveríamos necessariamente comer um monte de grãos e beber leite. O fato de que você é capaz de digerir e metabolizar um alimento sem problemas, não significa que você deveria necessariamente comer tal comida. Há outras razões legítimas para diminuir o consumo de grãos, tais como seu perfil inferior de micronutrientes comparados aos legumes, frutas e comidas de origem animal de alta qualidade. Eu raramente como cereais ou bebo leite, e não creio que uma dieta baseada em grãos é o caminho para a saúde ótima. Entretanto, creio que a dieta paleo é desnecessariamente restritiva para a maioria das pessoas e que batatas, a maioria das leguminosas, cacau, laticínios de vacas alimentas com pasto, vinho e algumas outras comidas banidas da dieta das cavernas, podem ser parte de uma dieta saudável.

O papel inesperado do segundo genoma


Mas por que eu incluí a palavra "inesperado" no título desse artigo ? Certamente não é inesperado no sentido de que o microbioma humano é um território desconhecido na comunidade paleo; ao contrário, muitos paleo-autores tem estado na dianteira em termos de evidenciar a importância dos bichinhos que vivem sobre e dentro de nós, e o amido resistente, probióticos feitos de terra, e comidas fermentadas são especialmente populares na comunidade de saúde ancestral. É inesperado no sentido de que foi apenas na última década – e especialmente nos últimos anos e meses – que começamos a compreender o papel do microbioma intestinal na digestaão e que o metabolismo alonga-se muito além da quebra de polissacarídeos que não o amido.

Não muitos anos atrás, todo o foco estava no genoma humano em termos de adaptação genética às noivas comidas, e acho que ninguém poderia ter previsto que o segundo genoma em nosso corpo poderia ser ainda mais importante em muitos aspectos. A inovadora pesquisa sobre os ecossistemas microbianos que vivem sobre e dentro do nosso corpo tem implicações significativas para a medicina e a nutrição. Em termos de adaptação a novas comidas, estamos aprendendo agora que apesar de o genoma humano mudar lentamente, o microbioma pode responder rapidamente a mudanças dietárias. Uma vez que ainda há um longo caminho a percorrer antes de saber os detalhes, extensão e implicações, quero enfatizar que isso não desbanca o argumento genético da dieta paleo – simplesmente enfatiza as limitações de olhar apenas para o genoma humano, e questiona a crença de que não podemos adaptar-nos rapidamente a novos alimentos.

Sumário


Uma das presmissas básicas da dieta paleo é que não tivemos tempo suficiente para nos adaptar às comidas que foram introduzidas após a revolução agricultural. Entretanto, agora estamos aprendendo que apesar do nosso genoma humano mudar lentamente, o microbioma humano – o genoma coletivo dos micróbios (compostos de bactérias, bacteriófagos, fungos, protozoários e vírus) que vivem sobre e dentro do corpo humano – pode ser alterado bastante rapidamente. Alguns tipos de bactérias tem a habilidade de degradar os peptídios do glúten, lactose, ácido fítico e outros ingredientes que são frequentemente considerados as "toxinas" primárias em comidas neolíticas.

O fato de que o microbioma responde a mudanças no ambiente e estilo de vida, e que nós podemos manipular o microbioma intestinal introduzindo novos tipos de bactérias (por exemplo, com comidas fermentadas) e substratos fermentáveis/prebióticos, questiona a idéia de que precisamos de milhares de anos para nos adaptar a novas comidas introduzidas na dieta humana. Entretanto, há outras razões legítimas para reduzir seu consumo de leite, grãos cereais e outras comidas banidas da dieta paleo. Primeiro, o amplo uso de antibióticos, a higiene excessiva, o consumo de comidas altamente processadas, o número crescente de cesarianas e outros fatores associados com a vida no mundo moderno perturbam o microbioma humano, e alguns pesquisadores começaram a falar sobre um microbioma ocidentalizado que perdeu sua diversidade e resiliência originais. Outra questão óbvia com o estilo de vida moderno é que o nosso suprimento de comida é extremamente limpo/estéril. Enquanto fazemos tudo o que podemos para evitar patógenos raros, também removemos micróbios que nos teriam beneficiado ajudando a digerir as comidas que comemos.

Segundo, ainda que possamos nos adaptar relativamente rápido de maneira a digerir e metabolizar novas comidas, não significa que deveríamos necessariamente comê-las. Assim como qualquer outra coisa comestível, há preocupações que precisa-se ter em mente ao desenhar uma dieta saudável, tais como a composição de macronutrientes, qualidade da comida, processamento necessário, perfil de micronutrientes, etc. Perturbações no microbioma humano e o fato de que nos afastamos das técnicas tradicionais de processamento podem ajudar a explicar o crescimento das desordens ligadas aos grãos e ao glúten, e histórias anedóticas de pessoas que experienciam melhor saúde digestiva quando excluem os cereais da sua dieta. Ao invés das próprias comidas, o grande problema parece estar na maneira como elas são processadas e no nosso desconhecimento de como gerenciar o maquinário microbiano digestivo em nosso intestino. Ao escolher produtos de alta qualidade e retornar às técnicas tradicionais, tais como a fermentação do leite e grãos, podemos obter resultados otimizados destas comidas.

Há pouca dúvida de que os humanos modernos encaram um descompasso entre os genes e o ambiente, no sentido de que não estamos adaptados a um estilo de vida sedentário, comidas altamente processadas, uso regular de fármacos, pouca exposição ao sol, etc. Também não há dúvida de que podemos aprender um bocado ao estudar o ambiente ancestral natural e a maneira como vivíamos enquanto caçadores-coletores. A coisa bacana sobre a dieta paleo é que ela é rica em comidas nutritivas, não-processadas, que são muito saciantes por caloria. Também é pobre em alérgenos, antinutrientes e outros ingredientes que frequentemente causam problemas ao danificado intestino ocidental. Entretanto, é também desnecessariamente restritiva para a maioria das pessoas e provavelmente funciona melhor como um ponto de partida do que como conjunto estrito de regras dietárias.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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