A proporção triglicérides/HDL

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Axel Sigurdsson



Por anos, as medidas de colesterol sanguíneo tem sido usadas para avaliar o risco de doença cardíaca. Nós temos sido intensivamente educados sobre o papel do LDL-C, comumente apelidado de "colesterol ruim" e do HDL-C, frequentemente chamado de "colesterol bom".

Por muitas razões, baixar o LDL-C tornou-se um objetivo primário na prevenção cardiovascular. Uma correlação forte foi detectada entre LDL-C e doença coronariana. Profissionais médicos recomenda medidas de estilo de vida para baixar o LDL-C, e estatinas (drogas que reduzem o colesterol) são usadas por milhões de pessoas saudáveis mundo afora com o propósito de reduzir os números de LDL-C.

Entretanto, para compreender a doença coronariana e como as placas se formam nas nossas artérias (aterosclerose) você precisa entender que focar-se apenas no colesterol é uma super-simplificação.

Como o colesterol é uma substância gordurosa, ela não se mistura com a água e portanto não consegue viajar pelo sangue por conta própria. A solução do corpo para tal problema é ligar as moléculas de gordura com lipoproteínas que funcionam como veículos de transporte carregando diferentes tipos de gorduras tais como colesterol, triglicérides (TG) e fosfolipídios. É importante entender que é essa lipoproteína que interage com a parede da artéria e inicia o desenvolvimento da aterosclerose. Colesterol é apenas um dos muitos componentes das lipoproteínas.

Um perfil lipídico padrão inclui o colesterol total, LDL-C, HDL-C e TG. Apesar de o LDL-C geralmente chamar a maior parte da atenção, as evidências sugerem que outros aspectos do perfil lipídico podem não ser menos importantes. Por exemplo, o não-HDL-C é um marcador forte de risco, talvez mais importante que o LDL-C.

Confiar apenas no LDL-C pode ser enganador. Por exemplo, pessoas com obesidade, síndrome metabólica ou desordens lipídicas por diabetes frequentemente tem TG elevado, baixo HDL-C e LDL-C próximo do normal. Tais indivíduos produzem lipoproteínas de densidade muito baixa (VLDL) e lipoproteínas de densidade intermediária (IDL) que podem aumentar o risco de aterosclerose.

Muitos estudos descogriram que a proporção triglicérides/HDL-C (TG/HDL-C) correlaciona-se fortemente com a incidência e extensão de doença coronoariana. Esta relação é verdadeira tanto para homens e mulheres. Um estudo descobriu que uma proporção TG/HDL-C acima de 4 era o mais poderoso preditor independente do desenvolvimento de doença arterial coronariana. Com o aumento da prevalência do sobrepeso, obesidade e síndrome metabólica, esta proporção pode tornar-se ainda mais importante porque TG alto e HDL-C baixo estão frequentemente associados com estas desordens.

A proporção triglicérides/HDL-C. Qual é a ideal ?


A proporção TG/HDL-C pode ser facilmente calculada a partir do perfil lipídico padrão. Apenas divida seu TG pelo HDL-C. Entretanto, quando calcular, verifique se os seus valores lipídico estão expressos em mg/dL como nos EUA (N.T.: e Brasil!) ou em mmol/L como no Canadá e na maioria dos países europeus.

Se os valores lipídicos estão expressos em mg/dL:
  • TG/HDL-C abaixo de 2 é ideal
  • TG/HDL-C acima de 4 é muito alto
  • TG/HDL-C acima de 6 pede cuidados

Se os valores estão expressos em mmol/L, você precisa multiplicar a proporção por 0.4366 para ter os valores de referência corretos:

  • TG/HDL-C abaixo de 0.97 é ideal
  • TG/HDL-C acima de 1.74 é muito alto
  • TG/HDL-C acima de 2.62 pede cuidados

Neste artigo, a proporção TG/HDL-C é dada em mg/dL

Proporção Triglicérides/HDL-C e Partículas de LDL?



Recentemente, analisar o número de partículas de LDL (LDL-P) e o tamanho das partículas de LDL está ficando cada vez mais comum. Entretanto, tal método não é disponível universalmente, é caro e ainda não foi aplicado largamente na prática clínica.

Números altos de partículas LDL pequenas e densas, estão associados com risco aumentado para doença coronariana em estudos epidemiológicos prospectivos. Sujeitos com partículas pequenas e densas (fenótipo B) estão em risco mais alto do que aqueles com partículas de LDL maiores, flutuantes (fenótipo A).

Curiosamente, descobriu-se que a proporção TG-HDL-C pode predizer o tamanho das partículas. Um estudo mostrou que 79% dos indivíduos com proporção acima de 3.8 tinha uma preponderância de partículas de LDL pequenas e densas, enquanto 81% daqueles com uma proporção abaixo de 3.8 tinha preponderância de partículas grandes e flutantes.

Obviamente, pessoas com alta proporção TG/HDL-C tendem a a ter TG acima do normal. Assim como todos os outros lipídios, TG precisa ser transportada no sangue por lipoproteínas - a maioria é transportadas por quilomícrons e VLDL. O que acontece nestas circunstâncias é um intercâmbio de lipídios entre lipoproteíans. TG são movidos do VLDL para o LDL e HDL, trocados por éster de colesteril. O resultado é que as partículas de LDL e HDL ficam pobres em colesterol e ricas em TG. Então, quando o TG é removido destas partículas, o que geralmente acontece, as partículas encolhem e ficam menores porque estão transportando apenas pequenas quantidades de colesterol. Isso explica a relação entre uma proporção TG/HDL-C alta e o número de partículas de LDL pequenas.

Entretanto, o número de partículas LDL presentes no sangue pode ser mais importante que o tamanho das mesmas. Ainda mais, o número de partículas parece ser mais importante do que quanto colesterol é carregado nelas. Níveis sanguíneos de LDL-P e apolipoproteína B estão fortemente correlacionadas com o risco de doença coronariana. Ambas as medidas refletem o número atual de partículas de LDL.

Mas a proporção TG/HDL-C pode refletir o número de partículas ? De fato, ela pode - até certo grau. Observe o LDL-C, a quantidade de colesterol carregada pelas partículas LDL. Uma proporção TG/HDL-C alta indica que estas partículas são pequenas. Uma partícula pequena transporta menos colesterol que uma grande. Por conseguinte um número grande de partículas é necessário para transportar certa quantidade de colesterol se as partículas são pequenas, do que se são grandes. Então, uma alta proporção Tg/HDL-C provavelmente demonstra alto número de partículas LDL, a menos que o LDL-C seja muito baixo.

A proporção Triglicérides/HDL-C e a Resistência à insulina



Resistência à insulina é uma condição na qual as células falham em responder à ação normal da insulina. A maioria das pessoas com tal condição tem altos níveis de insulina na corrente sanguínea. A resistência à insulina parece ter um papel importante na doença coronariana, e pode predizer a mortalidade. Esta condição é comum entre indivíduos com obesidade abdominal e síndrome metabólica.

Um estudo no qual a maioria dos participantes eram caucasianos com sobrepeso identificou uma proporção TG/HDL-C maior ou igual a 3 como preditor confiável de resistência à insulina.

Entretanto, nem todos os estudos mostraram que a proporção TG/HDL-C esteja associada com resistência à insulina. Por exemplo, um estudo relativamente pequeno de 125 negros americanos, mostrou que nem o TG em jejum nem a proporção TG/HDL-C são marcadores de resistência à insulina.

Apesar de estudos confirmatórios serem necessários, os dados sugerem que uma proporção TG/HDL-C elevada pode ser clinicamente útil para predizer a resistência à insulina.


Como melhorar a sua proporção TG/HDL-C



Melhorar a sua proporção TG/HDL foca-se em baixar TG, aumentar HDL-C ou preferencialmente ambos.

Se você tem sobrepeso, perder peso provavelmente vai baixar seus níveis de TG. Idem para a redução da sua ingestão de açúcar adicionado. Estudo descobriram que alta ingestão de frutose leva a triglicérides altos. Xarope de milho de alta frutose é uma das maiores fontes de frutose.

Dietas pobres em gordura usualmente não são efetivas em diminuir TG. De fato, dietas pobres em gorduras e ricas em carboidratos podem aumentar TG. Adicionar ácidos graxos ômega-3, exercício regular e limitar o álcool também podem ser úteis para ajudar a baixar o TG.

Métodos similares podem ser úteis para aumentar o HDL-C. Perder peso, exercitar-se e não fumar, podem ajudar. Em ensaios controlados, dietas pobres em gorduras e ricas em carboidratos diminuem o HDL-C, e assim aumentam a proporção TG/HDL.

Em 1961, um grupo de investigadores do Instituto Rockefeller, liderado por Pete Ahrens publicou um artigo intitulado "Lipemia induzida por carboidratos e por gordura". Os autores apontavam que o aumento induzido pelas gorduras sobre os TG é um fenômeno pós-prandial (todos nós temos colesterol alto por algumas horas após uma refeição gordurosa) causado por quilomícrons, e é diferente do aumento nos TG induzido por carboidratos (mais tarde descobriu-se ser causado pela elevação do VLDL). Tais descobertas foram confirmadas em diversos estudos mais recentes. Entretanto, dietas com pouca gordura e muito carboidrato ainda são recomendadas como opção primária para reduzir o risco de doença carcíada.

Dietas pobres em carboidratos são geralmente mais efetivas em melhorar a proporção TG/HDL-C do que dietas pobres em gorduras. Isso ilustra que selecionar somente o LDL-C como alvo da prevenção cardiovascular é uma super-simplificação.

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1 comentários:

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Iraima Bagni
admin
30 de julho de 2014 09:45 ×

Bomm, muito bom!!!

O meu TG/HDL-C deu 1.53....;0))
Vou pedir ao meu cardiologista o exame para ver as partículas.... se já existe esse exame e eu sou do grupo de risco, porque eles não pedem logo?

Valeu Hilton!

Congrats bro Iraima Bagni you got PERTAMAX...! hehehehe...
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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

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Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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