50 Tons de Intolerância ao Glúten

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.


Doença celíaca (DC) foi descrita inicialmente no primeiro século depois de Cristo, por um médico grego chamado Areteu de Capadócia [1]. Mas nem Areteu nem ninguém mais sabia que DC é causada por uma reação autoimune ao glúten, uma proteína do trigo. Isso não ficou claro até 1950 - muitos séculos depois - quando o Dr. Willem Dicke, um pediatra holandês, conclusivamente provou que o glúten era o culpado [2]. A descoberta de Dicke salvou milhões de crianças e adultos dos perigos de doença celíaca não tratada, incluindo desnutrição, deformidades no crescimento, doenças neurológicas e psiquiátricas severas e mesmo morte.

Desde então, a visão comum da intolerância ao glúten foi relativamente preto-no-branco: ou você tem DC, e nesse caso mesmo uma pequena quantidade de glúten vai te mandar para o banheiro em 3 segundos, ou você não tem, e pode se entupir de cervejas e pães sem medo. Essa visão "tudo ou nada" já levou alguns médicos a dizerem a pacientes que suspeitam que são sensíveis ao glútem mas cujo teste para DC foi negativo, que eles estão simplesmente imaginando uma aflição que não existe.

Acontece que esses médicos estão errados.

Os muitos tons de intolerância ao glúten


Para explicar o motivo, tenho que te dar uma lição rápida sobre a bioquímica e a digestão do trigo,

Trigo contém diversas classes de proteínas. Gliadinas e gluteninas são dois dos principais componentes da fração de glúten no grão de trigo. (Elas são essenciais para dar ao pão a habilidade de "crescer" direito enquanto é assado). Dentro da classe gliadina, há quatro epítopos (ou seja, tipos) diferentes: alfa, beta, gama e ômega-gliadina. O trigo também contém aglutininas (proteínas que se ligam ao açúcar) e prodinorfinas (proteínas envolvidas com comunicação celular). Uma vez consumido o trigo, enzimas do trato digestivo chamadas transglutaminases teciduais (tTG) ajudam a quebrar o trigo em seus componentes. Neste processo, proteínas adicionais são formadas, incluindo a gliadina deaminada e gliadorfinas (também conhecidas como gluteomorfinas).

Aqui está o ponto crucial para se entender: doença celíaca é caracterizada por uma resposta autoimune a um epítopo específico da gliadina (alfa-gliadina) e um tipo específico de transglutaminase (tTG-2). Mas nós agora sabemos que as pessoas podem reagir (e reagem) a diversos outros componentes do trigo e do glúten - incluindo outros epítopos da gliadina (beta, gama, ômega), glutenina, WGA e gliadina deaminada - bem como a outros tipos de transglutaminase, incluindo o tipo 3 (encontrada primariamente na pele) e o tipo 6 (encontrada primariamente no cérebro).[3, 4, 5, 6, 7, 8]

Isso é um problema enorme porque os testes de laboratório convencionais que testam DC e tolerância ao glúten só procuram por anticorpos contra alfa-gliadina e transglutaminase-2. Se você reagir a qualquer das outras frações das proteínas do trigo (por exemplo, beta-gliadina, gama-gliadina ou ômega-gliadina), ou quaisquer outros tipos de transglutaminase (por exemplo, tipo 3 ou tipo 6), você vai resultar negativo para DC e intolerância ao glúten - independente do quão severamente você reaja ao trigo.

Além da Doença Celíaca: Porque DC é apenas a ponta do iceberg


Estatísticas oficiais sugerem que a doença celíaca afeta entre 0.7 e 1% da população americana [9]. Mas considerando e escopo limitado do teste, é possível que a incidência na prática seja muito maior.

Além disso, DC é apenas a ponta do iceberg no que tange intolerância ao glúten. DC é causada por uma resposta autoimune distinta às proteínas do trigo e enzimas transglutaminases no intestino. Mas DC é apenas uma expressão possível da intolerância ao glúten; há muitas outras maneiras como a sensibilidade ao glúten pode se manifestar no corpo. Essas são coletivamente chamadas de "Sensibilidade Não-Celíaca ao Glúten", ou SNCG.

Ainda não há consenso na definição de SNCG, mas o entendimento mais comum é que é uma reação ao glúten que não é autoimune (como DC) ou alérgica (como alergia ao glúten). Outra definição que já vi é "uma reação ao glúten que se resolve quando o glúten é removido da dieta e DC e alergia já foram descartados" [10]

É difícil estimar a prevalência da SNCG porque não há diagnóstico definitivo para ser testado. Como mencionei acima, os testes atualmente disponíveis para sensibilidade ao glúten são primitivos e só respondem por uma pequena fração dos componentes do trigo aos quais as pessoas reagem. Outra questão é a variedade de sintomas causada por DC e SNCG. Enquanto a maioria das pessoas assum que a intolerância ao glúten sempre causa problemas digestivos, esse não é o caso. Quase 50% dos novos pacientes diagnosticados com DC não tem sintomas grastrointestinais [11]. Além disso, para cada caso de DC diagnosticada, há 6.4 casos que permanecem sem diagnóstico - a maioria dos quais são formas atípicas ou silenciosas sem sintomas gastrointestinais [12].

A intolerância ao glúten pode afetar quase qualquer tecido no corpo, incluindo o cérebro, pele, sistema endócrino, estômago, fígado, vasos sanguíneos, músculos e mesmo os núcleos das células. DC e SNCG estão associados com uma quantidade assombrosa de doenças, de esquizofrenia e epilepsia, a diabetes tipo 1 e osteoporose, a dermatite e psoríase, a hipotiroidismo de Hashimoto e neuropatia periférica [13]. Como o leque de sintomas associado com a intolerência ao glúten é tão amplo e não-específico (ou seja, pode ser atribuído a um grande número de condições), muitos pacientes e médicos não suspeitam que o glúten possa ser a causa.

Mesmo com essas limitações, algumas estimativas sugerem que SNCG pode ocorrer cerca de 1 em cada 20 americanos [14]. E enquanto alguns profissionais da saúde alinham-se com o conhecimento convencional e insistem que SNCG não existe, diversos estudos o validaram como uma condição clínica distinta - incluindo testes de alto padrão, usando duplo-cegos e placebos [15]

O desafio livre de glúten: ainda é o melhor teste para intolerância


Com tudo isso em mente, a questão óbvia que surge é: "qual é a melhor maneira para testar a intolerância ao glúten ?". Por causa das limitações dos testes laboratoriais que descrevi acima, a maioria dos experts em sensibilidade ao glúten concorda que o único teste confiável é um "desafio do glúten". Isso envolve remover o glúten da dieta completamente por um período de 30 dias, e então adicioná-lo novamente. Se os sintomas melhorarem durante o período de eliminação, e retornarem quando o glúten for reintroduzido, um diagnóstico de SNCG pode ser feito.

Entretanto, para muitas pessoas uma dieta livre de glúten não é o suficiente. Alguns grãos que não contém glúten, tais como o milho, aveia e arroz, contêm proteínas que são similares ao glúten o suficiente para iniciar uma resposta imune em pessoas com DC ou SNCG. Além disso, cerca de 50% dos pacientes com DC mostram sinais de intolerância à caseína, a proteína do leite [16]. Isso pode explicar o motivo de até 30% dos pacientes com DC continuarem a ter sintomas ou sinais clínicos após adotarem uma dieta livre de glúten [17]. Por essa razão, eu recomendo uma dieta completamente livre de grãos e laticínios durante o período do desafio do glúten.

Finalmente, apesar de o desafio do glúten ser o melhor teste para intolerância, há um laboratório relativamente novo (Cyrex Laboratories) oferecendo um teste de sangue exaustivo que avalia todas proteínas do trigo e glúten, e enzimas transaminases que mencionei acima. Essa pode ser uma ferramenta de diagnóstico útil, mas nunca deveria substituir um desafio do glúten.

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1 comentários:

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Aline Keila
admin
29 de maio de 2014 20:22 ×

Excelente texto ! Não conhecia a SNCG e tbm não sabia da deficiência de testes laboratoriais para investigar intolerância ao gluten !
Li que a aveia não tem gluten , mas a aveia que há no mercado tem contaminação ?

Congrats bro Aline Keila you got PERTAMAX...! hehehehe...
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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

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Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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