A receita para o desastre

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Hoje vi uma postagem que me fez lembrar duas propagandas de medicamentos.

Uma medicação para diabéticos, que tinha a imagem de um surfista segurando a prancha na beira da praia: a prancha era uma bolacha. A areia, açúcar. A espuma das ondas, merengue. Os guarda-sóis, doces.

A mensagem: com a medicação você pode! Não precisa de restrições ou limitações.

A outra de um indutor do sono, em que o propagandista se gabava de a medicação produzir um ciclo do sono, com suas fases cíclicas igual ou melhor que o sono natural.

A mensagem: com a medicação você consegue! A despeito do estresse e da qualidade de vida insalubre, você dormirá bem.

Hoje vi um profissional da área da saúde escrevendo sobre um estudo que demonstrou que o total de carboidratos, seja de uma fonte mais natural, seja de açúcar puro, tem o mesmo impacto no emagrecimento. Desde que mantido o déficit calórico calculado. Fato.

A mensagem: mantendo déficit calórico você pode! Emagreça comendo o que quiser. Quantidade importa mais que qualidade.

Para mim, que me delicio estudando como a vida surgiu e evoluiu, o futuro (ou já o presente?) será um lugar estranho de habitar.

Perderemos completamente o controle autônomo sobre a nossa fisiologia, alienados da realidade histórico-biológica.

E, ao não entendermos mais de onde viemos e como o mundo funciona, tropeçaremos nos mais básicos conceitos da vida natural (adolescentes que pulam o café da manhã podem ficar obesos diz a matéria no jornal…).

Nossas ações serão guiadas por tabelas, relógios, balanças e regras que substituem nossos instintos.

Técnicos (pois não posso chamá-los de profissionais de SAÚDE) vão nos dizer quanto, o que, quantas vezes e em que horários comer para “fazer dar certo” uma rotina que, em vida livre, nunca daria.

Nos dirão que músculo, em que sequência e qual volume de “treino” usar. Mas não me lembro de um dia na vida usar um músculo isoladamente. Então não sei para o que estão treinando.

Nos dirão quanto dormir, independente de respeitar o ciclo circadiano.

Usaremos cada vez mais medicações para “tratar” características advindas de um estilo de vida apartado do que nosso corpo espera receber como estímulos biológicos adequados, saudáveis.

Não importa. Nada importa. Só a vontade importa. Nos tornamos animais que dedicam a vida para se manter vivos, descobrindo brechas no sistema de modo a não precisar respeitar as regras gerais da vida.

Eu estou me convencendo que as coisas na vida humana serão assim mesmo. Não sei dizer se é certo, ou errado. Melhor ou pior. Essa seria uma discussão filosófica.

Aos meus pacientes: quero que vocês saibam que meu papel na profissão e na vida é apresentar a vocês outra realidade. Uma realidade em que as funções orgânicas como sono, fome, saciedade, atividade física, manutenção e regeneração dos tecidos e sistemas se dão de forma natural. Sem cálculos, regras ou imposições antinaturais.

Uma realidade onde manter-se magro e saudável, vislumbrando longevidade é a regra e não a exceção.

A realidade em que entendemos nossa história, nosso lugar na história da vida, nosso papel na natureza e a forma de interagir nessa realidade de modo a gozar de desfechos positivos.

Tenho cada vez mais a convicção de que todo esse conhecimento não interessa para a quase totalidade das pessoas hoje.

E também tenho convicção de que esse é o conhecimento que mais se alinha com a realidade natural do mundo.

O que faz de nós uma ínfima minoria. Mas um grupo beneficiado. Enfim. Sigamos.

Aqueles de nós que conseguirmos implementar na vida diária, verdadeiramente, esses conhecimentos, teremos chances ótimas de ver e viver a vida da melhor forma possível.

Os demais – a maioria – vai viver sob as regras dos técnicos, cumprindo metas que não existem, e culpando o acaso pelos seus desfechos sofríveis, achando que a vida é assim.

por Marcelo Cardoso (@marcelocardoso_med), médico, cirurgião geral.

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