Melhor que o leite da mamãe!

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Ontem, esbarrei no Facebook com a imagem abaixo – uma propaganda antiga de leite condensado.
Pense num bom conselho nutricional!
Os comentários seguiam todos na mesma linha: “Caramba, que absurdo”. “Como é que deixavam uma coisa dessas circular na mídia ?”. “Como é que podiam dar leite condensado a um bebê ?”.
Pois é… Indignações à parte, hoje ninguém mais fala em trocar leite materno por leite condensado… Mas em compensação, basta a criança largar o peito (e muitas vezes, nem isso!) e já vem a mamadeira de refrigerante, de suco de caixinha, de achocolatado. Será que é tão diferente assim ?
Eu penso esperançosamente em um futuro no qual poderemos olhar para trás, ver as propagandas de sucrilhos, bebidas lácteas, bolinhos industrializados, biscoitos recheados e salgadinhos de hoje, e dizer “caramba, como é que podiam dar essas coisas a uma criança ?”.
Conheço diversas pessoas na casa do 50-60 anos, urbanóides, que são inteiramente refratárias a uma dieta sem industrializados. Foram criado comendo as primeiras gerações brasileiras de produtos Kellog’s, Pepsico, Unilever e Nestlé. Para eles, aquilo é o normal. “Ah, mas na minha época já tinha biscoito recheado!”.
Sim, mas quanto custava ? Qual era a frequência do seu consumo dessas coisas ? Quando eu era criança, em meados dos anos 80, comer “Baconzitos” era um acontecimento. O negócio era absurdamente caro, a inflação estava desgovernada e havia o hábito de fazer “a compra do mês” (para você que não viveu essa época, leia: “agora que o salário saiu, deixa eu comprar logo tudo o que preciso – porque amanhã já vai ter aumentado de preço”). 
Era um mimo que a minha mãe me fazia em tempos de crise monetária nacional, e eu ficava aguando até chegar em casa, poder abrir o pacotinho e comer LENTAMENTE enquanto lia “minhas” enciclopédias (Delta Universal e Caldas Aulete – eram da casa, mas na minha época, o grande usuário era eu).
Um pacote de Baconzitos pesava 80g nessa época. A embalagem ainda não era metalizada, então o treco ficava murcho rapidinho – você tinha que ter a “sorte” de estar no supermercado no dia em que o estoque era reposto.
Lembra desse comercial ? Sim ? Seu velho !
E era isso. Acabou, acabou. Mês que vem tem outro. Idem para aquela Coca-cola de domingo, cuja garrafa de 1 litro tinha que abastecer toda a família (pai, mãe e 5 filhos) igualmente. Em raras ocasiões, tinha 2 garrafas na mesa. Bebia-se devagar para fazer durar, e caso terminasse, completávamos com água ou Ki-suco – até domingo que vem!
Essa delonga foi apenas para dizer que aquelas pessoas de 50-60 anos apenas foram as primeiras vítimas do caos nutricional. Na época delas já tinha lixo à venda, mas era caro. Na minha época tinha ainda mais lixo à venda, mas continuava caro. Dos anos 90 para cá, a recuperação econômica mandou os preços do lixo para o subsolo: hoje, a parte mais cara de um pacote de Baconzitos é a embalagem… 
Eu me lembro de comprar caixas de 5kg de waffer em 1993, direto na fábrica da Aymoré – era baratíssimo! Cada caixa durava 10 dias no máximo: eu comia TUDO (por sorte, a minha configuração ectomorfa e os 17 anos de idade davam conta de lidar com o estrago), acompanhado de leite gelado. Os anos 2000 vieram com mais grana (recém-formado, emprego estável…) e aí foi morro abaixo: biscoito recheado, hamburguer de caixinha, McDonald’s, sorvete Kibon, refrigerante. Se eu não tivesse a genética a meu lado, provavelmente teria engordado até sofrer mitose e virar dois.
Dito tudo isso, me espanta a indignação com a propaganda de Leite Moça. O preço do lixo continua caindo, o que implica no aumento do tamanho dos pacotes, do tamanho dos copos, dos refis gratuitos… E nesse meio-tempo, vamos tendo crianças mais míopes, mais diabéticas, mais obesas, com mais acne – e não sabemos (ou fingimos não saber) o que é que está sendo feito errado.
Vejamos o que o futuro nos reserva.

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