O incrível caso do escocês que perdeu mais da metade do corpo

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Em seu primeiro artigo sobre jejum intermitente, o Mark Sisson cita o caso do mais longo jejum registrado (e verificável) da história. Isso ficou martelando na minha cabeça, já citei o caso inúmeras vezes quando estou falando sobre jejum, sobre a independência fisiológica da glicose que podemos obter, etc. Assim resolvi dar uma lida no texto.
O resumo é o seguinte: em 01/06/1965, um homem de 27 procurou o Departamento de Medicina da Universidade de Dundee, na Escócia. O sujeito (conhecido apenas como “A. B.”) pesava 207kg, e buscava alternativas para emagrecer. Os médicos sugeriram (de maneira meio improvisada, ao que parece) que ele “ficasse sem comer por alguns dias”. 
E assim A. B. o fez. Ao final de 1 semana, tinha perdido 2.2kg e sentia-se bem. A equipe médica então sugeriu que ele continuasse o jejum, ingerindo apenas líquidos não-calóricos, vitaminas e sais minerais, até o dia em que quisesse.
Em 30/06/1966, A. B. encerrou o experimento. Em 382 dias de jejum calórico absoluto, ele perdeu 124.2kg (ou seja, 60% do seu peso), terminando próximo dos 83kg. Uma visita a A. B. 5 anos após o fim do experimento mostrou que ele ganhou apenas 7kg subsequentemente – ou seja, nada de “dieta sanfona”.
No decorrer do experimento, A. B. transitou entre o hospital e sua residência. Foram feitos exames periódicos de sangue e urina, e o panorama que se desenhou foi o seguinte:
  • Creatinina: excreção de 1524mg/dia +/- 25%. Rins funcionando direitinho!
  • Não fizeram exames de fezes, mas as defecações ocorreram com intervalos de 37 a 48 dias
  • Glicemia: caiu sistematicamente para um valor médio de 30mg/dl (chegando a um mínimo de 20mg/dl). Apesar da hipoglicemia constante, o paciente permaneceu livre de sintomas adversos
  • Os testes de tolerância à glicose feitos no decorrer do experimento mostraram que a absorção da mesma manteve-se normal.
  • Os testes com tolbutamida (redutor glicêmico que funciona estimulando a produção de insulina) foram todos normais, exceto por um episódio breve de desmaio no dia 355 do jejum
  • Os testes com glucagon (hormônio que estimula o aumento da glicemia) mostraram que o aumento da glicemia foi ficando cada vez menor, até que a partir do dia 269, não houve mais resposta. 7 dias após finalizar o jejum, os testes com glucagon se mostraram normais
  • A concentração de potássio plasmático decresceu ao longo do tempo, mas com a suplementação, foi normalizada
  • Ao longo dos 6 meses finais do jejum, houve um período de hipercalcemia (concentração excessiva de cálcio plasmático) que espontaneamente resolveu-se
  • A concentração de uréia plasmática reduziu-se nas primeiras 2 semanas (como esperado) e manteve-se entre 15 e 20mg/dl até o fim do jejum
  • A concentração de ácido úrico, que inicialmente estava em 12.6mg/dl, permaneceu alta ao longo do experimento. No entanto, sintomas de gota não se apresentaram. Em duas medições a concentração chegou a 17mg/dl, mas espontaneamente reduziu-se.
  • A concentração de colesterol total permaneceu em 230mg/dl até 230 dias do jejum, mas chegou a 370mg/dl quando a alimentação foi reintroduzida
  • A concentração de magnésio plasmático caiu nas primeiras semanas, e estabilizou-se entre 1.1 e 1.4mEq/dl. A concentração de magnésio nas hemácias permaneceu inalterada
  • A excreção de sódio, potássio, cálcio e fosfato inorgânico decaiu durante os 100 primeiros dias, para depois aumentar (juntamente com a excreção de magnésio – que não havia sido medida desde o início)
  • Não houve indicações de que A. B. estivesse “comendo escondido”, dadas as baixas concentrações constantes de uréia e glicose sanguínea e a perda de peso contínuas

Outra coisa bacana: tendemos a nos chocar quando ouvimos que A. B. ficou 382 dias sem comer nada, mas na prática ele foi “apenas” o mais longo jejum da história. O artigo cita vários outros casos de jejuns de mais de 200 dias, nos quais os sujeitos perderam peso com taxas que variaram de 180 a 300g/dia.
São citados ainda 5 casos de óbitos ligados a jejuns como tratamento para obesidade: 
  • 1 foi atribuído a acidose lática após o reinicio da alimentação (3 semanas de jejum)
  • 2 foram ligados a doença cardíaca que os pacientes já tinham anteriormente (faleceram respectivamente com 3 e 8 semanas de jejum)
  • 1 faleceu por obstrução do intestino delgado no 13o dia de jejum
  • Apenas 1 caso de óbito ocorreu em jejum de mais de 200 dias: uma mulher faleceu após retomar a alimentação, tendo ficado 210 dias em jejum. Houve suspeita da influência de um medicamento tomado por ela, alopurinol, na causa da morte. No entanto, o caso levantou dúvidas sobre a segurança do tratamento da obesidade por jejum completo
Em relação à variação da glicemia, outros jejuns prolongados também resultaram em hipoglicemia sem efeitos colaterais. Trocando em miúdos, os sujeitos parecem tornar-se menos dependente da glicose à medida que passam a viver da sua gordura estocada (leia mais aqui, aqui e aqui). 
No geral, o artigo se mostra favorável à idéia do tratamento da obesidade através de jejuns, desde que supervisionados de perto por uma equipe médica. 
O recorde de A. B. foi registrado no Guinness Book de 1971, e permanece insuperado até os dias de hoje…

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