Lutador de MMA torna-se primal

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Algumas pessoas parecem insistir na fantasia de que o corpo humano só funciona à base de glicose. Isso demonstra um desconhecimento básico de fisiologia e bioquímica: os carboidratos são sim, a fonte “preferida” de energia do organismo, a que é absorvida mais rapidamente. Isso não implica que TENHAMOS que ingerir carboidratos: processos naturais como a glicogênese e a gliconeogênese são capazes de sintetizar glicose a partir dos outros macro e micronutrientes ingeridos.
Pense no seguinte: existem gorduras essenciais. se você não comê-las, você morre porque o seu corpo não sabe fabricá-las. Existem proteínas essenciais: se você não comê-las, você morre porque o seu corpo não sabe fabricá-las. Mas não existem carboidratos essenciais… Você pode viver a vida inteira sem comer um carboidrato sequer, pois toda a glicose que você precisa o seu organismo sabe fazer – dado que você ingira gorduras, proteínas, água, vitaminas e sais minerais adequadamente.
Não entenda isso como “oba, agora vou viver de bacon e picanha”. Bacon e picanha NÃO tem todos os componentes necessários para a manutenção da saúde e da vida. Mas uma dieta paleo bem-feita, tem.
Um caso extremo é o do antropólogo e explorador islandês Vilhjalmur Stefansson, que após viver por anos entre os inuit (esquimós) do Alasca e perceber como eles eram saudáveis mesmo tendo uma dieta à base de peixe, carne e gordura (as poucas frutas, tipo amoras, eram consumidas na curta primavera), submeteu-se a um experimento de 1 ano durante o qual comeu apenas carnes e bebeu água. Mas não era só bacon e picanha não… Comia carnes e gorduras, vísceras e miolos, roía ossos e cartilagens – consumia os bichos “do focinho ao rabo”, como se diz no interior. Ele foi examinado periodicamente dentro desse experimento, e não apresentou UMA DEFICIÊNCIA SEQUER, física ou cognitiva…
Para ver a história em detalhes, o Dr. Souto fez uma excelente tradução aqui.

Perceba, no entanto, que a dieta paleo não preconiza viver sem carboidratos. Você não PRECISA deixar de comê-los para perder peso e ganhar saúde – apenas saiba quais tipos comer (os não-refinados) e avalie as quantidades. Particularmente, eu nunca pratiquei low-carb estrito: não deixei de comer frutas nem raízes, e ainda assim perdi todo o peso que tinha em excesso.

Paleo e low-carb NÃO TEM QUE SER A MESMA COISA.

Dito isso, vamos ao artigo de hoje – para quem acha que sem toneladas de carboidratos, não se tem energia… O original está aqui.

Meu nome é Abe Wagner. Tenho 31 anos, 1.93m e 114kg. Pago minhas contas lutando contra outros caras dentro de uma jaula, em frente a uma multidão. Minha jornada para o modo de vida primal foi um pouco longa e deu voltas. Fui introduzido ao conceito de dieta paleo através do Crossfit. Dizer que o meu entendimento dos conceitos-chave era falho e incompleto seria pouco. Em retrospecto, eu seguia o que é conhecido como dieta “fail-eo” (N.T.: um trocadilho usando as palavras “fail”, falhar, e “paleo”). Eu continuava tentando comer pouca gordura… você sabe, pelo bem do meu coração. Caramba, eu não podia estar mais errado! Também conseguia a maior parte da gordura ingerida a partir de castanhas (leia-se: ômega-6). Não é preciso deizer que não funcionou muito bem, e apesar de a minha composição corporal melhorar, eu me sentia horrivel o tempo inteiro e não tinha energia, o que me levou eventualmente a declarar que essa maneira de se alimentar não funcionava.

Alguns meses depois, em dezembro de 2010, eu esbarrei com o Mark’s Daily Apple e comecei a ler. Decidi tentar esse modo de alimentação novamente, mas dessa vez com uma compreensão melhor de como o modo primal funcionava e quais eram os papéis e efeitos das diferente comidas. Tenho me alimentado desta maneira desde então, acho que por 10 meses. Os resultados tem sido incríveis!
Do ponto de vista da saúde, por anos lutei contra problemas respiratórios. Eu literalmente gastava a primeira meia hora de cada dia produzindo muco, e tinha que parar entre dois assaltos do treino de MMA para cuspir porcaria. Já tinha tentado de tudo:  medicação para alergia, injeção de antialérgicos, medicação contra azia, acupuntura e tratamentos homeopáticos. Já tinha ido a pneumologistas que melhoraram levemente os sintomas, mas nunca me deram 100% de alívio. Eu tomava antibióticos para limpar qualquer que fosse a infecção e melhorava, mas nunca inteiramente. E assim tomei antibióticos mês-sim-mês-não por 7-8 anos. Isso não é jeito de se viver. Agora, sabendo o papel que o ômega-6 tem na inflamação a nível celular, e dado que não tive mais problemas com muco desde mudar para primal, não é de surpreender que meu peito estivesse cronicamente inflamado e produzindo catarro. Percebo que nos dias em que abro exceções para a dieta (por exemplo, comendo coisas fritas em óleo vegetal), os problemas começam a voltar e é o suficiente para me relembrar de que essa é a maneira como preciso comer pelo resto da minha vida. A alimentação primal tem literalmente me deixado livre desses problemas no peito por quase 1 ano agora. A analogia do Mark de “cavar um buraco para que você possa colocar uma escada nele e então subir nela para limpar a janela do porão” realmente caiu como uma luva para mim, quando penso em todos os medicamentos  que tomei para o problema quando tudo o que eu tinha que fazer era parar de comer óleo vegetal processado.
Além disso, eu tinha um caso de eczema no rosto para o qual precisa usar um creme uma ou duas vezes por dia para evitar que ficasse vermelho e descamasse. O ingrediente ativo no tal creme é um antiinflamatório esteróide. Nova e não surpreendentemente, esse problema desapareceu agora que trato da minha inflamação num nível celular, ao melhorar minha proporção O3/O6.
Tudo isso dito, o que importa para mim é a performance atlética – afinal de contas é assim que pago minhas despesas. A respiração melhor, por não estar congestionado o tempo inteiro, já foi uma grande vantagem. Mas é nos meus níveis de energia e recuperação que realmente me beneficiei da dieta primal. Minha resistência e explosão melhoraram mensuravelmente. Após um treino de duas horas, meu primeiro pensamento costumava ser “se eu não comer nos próximos 10 minutos, posso morrer”. Agora, eu me sinto basicamente da mesma maneira que no início do treino, só que suado. Meu corpo se converteu e abastece-se da gordura (e eu sempre tenho acesso à gordura no meu corpo), ao invés de ter que me encher de carboidratos a cada 3 horas. Bônus inesperado: enquanto for movido a carboidratos, o seu corpo só terá energia se você tiver comido carboidratos. Isso significa que quando você dorme, a sua recuperação é desacelerada devido à falta de energia. Agora enquanto durmo, meus processos metabólicos ainda estão funcionando a todo vapor, usando gordura corporal e percebi que a o meu tempo de recuperação muscular encurtou em 50%. Meu corpo também se sente menos fatigado e dolorido após um dia de ser socado e chutado por outros lutadores. Eu atribuou isso ao gerenciamento da inflamação.
Minha composição corporal geral mudou apenas ligeiramente, uma vez que eu já estava bastante em forma antes de fazer a transição. Só perdi 2.2kg, descendo de 116 para 114kg, mas perdi 10cm de cintura. Originalmente eu nem sabia como isso poderia ser possível, mas agora levando em consideração os efeitos inflamatórios dos grãos sobre o seu estômago e intestinos, faz sentido. Minha cintura encolheu não por causa da perda de gordura, mas porque a inflamação crônica nos meus intestinos foi aliviada e finalmente cedeu.
Após nocautear Tim Sylvia



Luta contra Tim Sylvia
Algo que não funcionou para mim foi ficar com a proporção de macronutrientes 30/30/40. Tirar 40% da sua energia de carboidratos é uma quantidade MUITO grande de brócolis e couve-flor, quando você é um cara grande como eu e come tanto quanto eu como. Eu fui muito melhor sucedido quando mudei para 65/30/15 e comecei a consumir muito mais gordura.
Sei que muitas pessoas tentam essa dieta por questões de perda de peso, e isso está ok. Mas eu como dessa maneira porque me faz sentir melhor. Me permite melhor performance. Eu detesto que em nossa sociedade a comida “saudável” tem que ter um gosto horrível, e que para perder peso você tenha que ficar faminto o tempo inteiro. Eu não como nada além de deliciosa comida de verdade, um monte dela: 6000 calorias por dia (aproximadamente, porque eu não conto mais). Eu nunca mais tive aquela sensação de super-fome com a qual era habituado. Não estou acabado no fim dos treinos como costumava ficar. E posso respirar normalmente pela primeira vez em anos. Comer de maneira primal é uma grande parte disso.
Obrigado,
Abraham Wagner

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