Aprendi o que era preciso, me tornei forte o suficiente para poder ajudar outros.

Sou o irmão mais novo de uma família de três filhos. Diferente de mim, eles nunca tiveram problema com sobrepeso – para falar a verdade, sempre foram absurdamente magros, independente do que comessem. Eu nasci mais “cheinho” que eles, e assim, cresci. Quando criança, as pessoas viam isso como algo bonito, desejável, até mesmo indicava uma boa saúde. 

Meu irmão mais velho jogou futebol por muitos anos de forma profissional, logo viagens para acompanhar os jogos que dele eram coisas rotineiras e nem sempre comíamos o que era devido. Lanches e petiscos em botequins e lanchonetes eram algo costumeiro. E foi assim que, hoje, percebo como iniciei a minha jornada na obesidade. Desde minhas lembranças mais antigas, com 5-6 anos de idade, sempre tive problemas quando precisava comprar roupas, sempre muito justas me causavam assaduras terríveis, sem falar nas inúmeras chacotas dos coleguinhas e tudo mais que o excesso de peso acarretou em mim. 

Na faixa dos 13 anos eu alcancei o ápice da obesidade, até a pré-adolescência.  Lembro-me que foi o inicio desse maldito boom de ser “divertido” comer fora de casa. Eu era o cliente favorito da pastelaria na esquina do colégio. Nessa mesma fase, para aumentar a renda familiar a minha mãe começou a produzir e comercializar coxinhas e outros salgadinhos. Com fácil acesso e sem controle algum, em meses eu cheguei ao cúmulo de pesar 113kg – lembrando, com apenas 13 anos de idade. Assim a tortura só aumentava quando era necessário comprar roupas novas. Calças 52 já não passavam nem nas minhas coxas. Era assustador e muito, muito triste e constrangedor para mim. 

Já desesperado com a minha situação, minha mãe compadecida com meu sofrimento diário, procurava ajuda receitas de sopas ”milagrosas”, como por exemplo, aquela sopa emergencial, horrível, que pessoas em processo de cirurgia pré-bariátrica tomam. Então, ela fazia para mim. Eu não conseguia tomar aquilo enquanto via meus irmãos comendo o que quisessem sem engordar um único grama. Isso é sofrido e muito constrangedor para uma criança. É importante que saibam, NUNCA fui sedentário. Era uma típica criança dos anos 90, brincava na rua, correndo, pulando e me machucando o tempo todo. 

Desse período em diante se inicia uma nova corrida utópica para perder peso, já que a sopa “milagrosa” não funcionou para mim. Agora entravam em cena os shakes “milagrosos”, exercícios pífios, remédios da moda e afins. Era um teste após o outro. Isso com menos de 15 anos. Agora já na adolescência eu me encontrava muito frustrado e isso destruía minha autoestima. Lembro-me que no auge da minha frustração, por não encontrar uma única calça que me coubesse e após horas de sufoco (nessa época na minha cidade, não havia calça com "stretch" e os provadores das lojas eram micro), minha mãe, também  já muito cansada, me disse: “Enquanto não emagrecer, nunca mais volto a comprar roupas com você”. Ela não tinha culpa, sua fala foi um desabafo de uma mãe que já não sabia mais o que tentar fazer para ajudar o filho naquela situação. 

Em meio a todas essas situações já citadas, eu, aos 16 anos, assistindo uma reportagem na TV sobre jiujitsu, vi a princípio uma saída para descarregar minhas frustrações. Saí pela cidade procurando uma academia e para minha felicidade encontrei. Logo me matriculei e no primeiro treino me identifiquei com essa arte marcial. O jiujitsu me ensinou inúmeras coisas, mas uma das mais importantes foi que não é o mais leve, nem o mais pesado, nem o mais novo e nem o mais velho, e sim, o mais disciplinado e humilde que chegará a ser um bom praticante da arte. 

Com a nova e eficiente descoberta a minha situação melhorou consideravelmente, cheguei aos 100kg e comecei a recuperar novamente a autoconfiança. 



Sempre fui alto e “forte”, isso ajudou a mascarar o quão gordo estava. Aquilo se manteve por muitos anos, pesava 100kg e acreditava que estava bem. Cria que tinha “ossos largos”. Mas os anos se passaram, a vida adulta chegou e me faltava tempo real para praticar atividade física, prioridades foram substituídas, assim como a comida “vazia e barata” passaram a fazer parte da minha vida de forma mais incisiva. Por consequência muitos quilos foram ganhos novamente. 

Eu precisaria de muitas páginas para descrever como foram os meus últimos 10 anos com relação à perda e ganho de peso. Incontáveis vezes subi até 115-120kg e lutava para voltar aos 100kg. Um efeito sanfona sem fim.  Minha perda de peso sempre estava ligada a passar fome ou treinar de forma estúpida. Ou seja, só conseguia fazer por um curto período de tempo, em questão de meses eu retornava ao peso original. Tentava buscar informações, mas eram muito confusas, hora podia isso ou aquilo, hora não, e assim seguiam as informações desencontradas. E quando se falava de alimentação saudável e treinamento físico, quase sempre só encontrava informações de conceitos de bodybuilders, o que é uma realidade completamente diferente das pessoas “comuns”. Assim era mais confuso do que esclarecedor

Não me envergonho em dizer que tive momentos trágicos com distúrbio alimentar, que ao lembrar, me deixam assustado. Desde comer seis pães super recheados com tudo que encontrava na geladeira, acompanhado por uma jarra de suco, até comer três marmitas com 2L de refrigerante. Ah: para piorar (e muito) a situação, eu era fumante. Meu estilo de vida já ia delimitando qual seria, possivelmente, a forma como terminaria minha vida. Não era uma boa previsão.

Eu vivia opressões de diferentes modos. De um lado eu me sentia culpado por não fazer exercícios, do outro por ser obeso e como se não bastasse, queria ganhar mais dinheiro para comprar mais coisas no mercado ou sair mais para consumir mais fora de casa. Um ciclo vicioso, perigoso e assustadoramente hostil.  

No dia dos namorados de 2015 eu tive a “brilhante” ideia de fazer uma generosa compra de junk food e ficar dois dias em casa vendo seriado e comendo tudo que havia comprado desregradamente. Após o dia ter passado, aquilo me aterrorizou. Como eu podia ter feito isso? Onde eu estava com a cabeça? Em janeiro de 2016 eu cheguei aos 127kg. NUNCA havia chegado a tal peso. Era aterrorizante. A partir daquele final de semana eu comecei a perceber que algo estava MUITO errado com as minhas escolhas. 

Quase sempre, após cometer excessos com a comida, eu me sentia profundamente incomodado, desde o consumo de comidas empacotadas e enlatadas dos supermercados até os fast foods. 

Mas, foi somente no começo de 2016 que ouvi ou li a frase, “Desembale menos e descasque mais”, não me recordo ao certo onde foi. Mas o que importa, sem dúvidas foi o impacto imediato que causou em mim. Comecei a pesquisar sobre consumo consciente, comida de verdade e felizmente me deparei com o genial Michael Pollan. O termo COMIDA DE VERDADE acertou minha cabeça como uma porrada. Li "O Dilema do Onívoro" e o "Regras da Comida" e fiquei extasiado. Pensei comigo, “É isso!”.

Foi assim, então, que cheguei aos conceitos e estudiosos da dieta paleo. Consequentemente, em agosto de 2016 eu descobri o site do Dr. José Carlos Souto (que seja sempre abençoado) e foi uma das melhores coisas que me aconteceram na vida adulta. As dicas preciosas que ele deu eu uso até hoje, como: Informe-se. Não é algo temporário. Não tente reproduzir antigos hábitos, dentre outros. Esses conselhos embasaram o início da minha trajetória, impulsionando meus resultados. Assim como, as contribuições imprescindíveis das profissionais e entusiastas Dra. Fernanda Silva e Lara Nesteruk. 

Após muitas pesquisas, muitos estudos, preparação continua e processual, o que eu lia eram artigos científicos e embasamento real sobre as causas da obesidade. Ler o celebre livro "Por que engordamos e o que fazer para evitar", do Gary Taubes, só reafirmou ainda mais que eu estava no caminho certo. 

No dia 15/08/2016 eu decidi começar a fazer as mudanças. Rascunhei meu plano de ação (meu e de minha noiva) e essa foi a melhor estratégia. Eu estava motivado, sabia que iria dar certo. Sem oba-oba, sem técnicas motivacionais mirabolantes. 

A meta inicial era perder 12kg em 3 meses. Se conseguisse isso eu ficaria muito feliz, sendo que não iria fazer atividades físicas. Iria seguir a risca o que era sugerido: comer comida de verdade, comer com baixo carboidrato e alta gordura, comer bicho e planta.

Logo na primeira semana eu reduzi de 115kg para 110kg. Isso me deixou super animado. Ao fim do primeiro mês foram 7,5kg e 35cm de peito a menos. O ritmo se manteve. Ao fim de 100 dias eu tinha perdido 20kg e muitas medidas. Nunca comi tão bem. Nunca me senti tão ativo. Nunca me senti tão forte. Passado os 100 dias eu resolvi seguir o Protocolo Primal do Mark Sisson no sentido de exercícios e em 60 dias meu corpo estava completamente diferente. 

Minha sinusite foi consideravelmente amenizada e minha pele que era acneica melhorou muito. Ao longo do processo, fui influenciando pessoas... elas percebiam o meu resultado físico, pois eu realmente estava mudado.  Desde meus pais, irmãos, cunhadas, esposa e amigos. Mais de 60 pessoas foram atingidas diretamente e por consequência também mudaram suas vidas. Centenas de quilos perdidos graças à comida de verdade.


Essa foi, sem dúvidas, uma mudança consciente e muito responsável na minha vida. Eu me descobri, redescobri. Percebi do que sou capaz. Aprendi o que era preciso e me tornei forte o suficiente para poder ajudar outros. 

Eu me propus a me tornar para outros, o cuidador, o treinador, incentivador, como queiram me intitular, o que eu queria ter tido. Acredito genuinamente na fragilidade das pessoas frente à opressão alimentar gerada, principalmente, pelo modelo industrial e creio que somente a informação, a pesquisa, o conhecimento, a empatia e humanidade podem inverter esse quadro. 

Após ser muito estimulado, decidi me capacitar para poder ajudar ainda mais pessoas, atendendo além do meu grupo de amigos pessoais. Fiz um curso de Coaching de Emagrecimento Saudável e assim nasceu o MCM Coaching de Emagrecimento. A forma como trabalho enfatiza a importância da saúde mental, da comida de verdade e do exercício físico regular, por isso, MCM: Mente, Comida e Movimento. Em cada experiência vivenciada tenho me realizado mais pelo que faço, ajudar pessoas é algo recompensador e revigorante.



Sei que ainda tenho uma longa caminhada, tanto em adquirir nossos conhecimentos através dos estudos, como na carreira profissional e também  objetivos que envolvem aprimoramento do corpo físico, e tudo isso faz parte dessa caminhada, que espero que seja longa e prazerosa. E adianto, já estou aproveitando todo o trajeto. Chegar aos objetivos será só mais uma realização. Existem muitas pessoas a agradecer, entre eles, Dr. José Carlos Souto, que ditou a forma como encarei o estilo de vida Paleo, e Hilton Sousa, pelo incrível e fidedigno arquivo que é o Paleodiário. 

Você pode ver mais fotos da minha trajetória no meu Instagram.

E se quiser encarar um desafio para mudar sua vida, clique aqui.

Obrigado.
Rafael

E você? Quer contar o seu caso e ajudar a inspirar mais gente? Se sim, escreva um texto contando a sua história, junte umas fotos de antes e depois, e mande para paleodiario@gmail.com.

Recomendado para você

Thanks for your comment

Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

Visualizações

Seguidores