Uma perspectiva diferente para o hipotireoidismo

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Mark Sisson

Hipotireoidismo já foi discutido à exaustão antes. Eu gosto particularmente da cobertura dada pelo Healthy Skeptic – confira a série do Chris Kresser (possivelmente antes de continuar a ler) para ter boas informações sobre a tireóide. Danny Roddy escreveu um bom artigo sobre o assunto no passado também. E assim, não vou refazer ou requentar uma "introdução à tireóide". Ao invés, vou dar uma visão geral breve e então discutir o motivo pelo qual acho que alguns de nós podem estar olhando para a "disfunção" da tireóide sob uma ótica errada.

A tireóide é um bichinho complicado que tem muita influência sobre o metabolismo, e parece que tudo já foi apontado como gatilho para disparar sua disfunção. Falta de carbos na dieta, déficit calórico, iodo demais, iodo de menos, graãos demais, jejum intermitente, excesso de cortisol, e múltiplos outros fatores já levaram a culpa. Desembaraçar os múltiplos gatilhos potenciais para a sua disfunção pode ser difícil. Mas disfunção é sempre a maneira correta de descrever uma redução leve nos hormônios tireoidianos ? Não tenho tanta certeza.

Em casos clínicos de hipotireoidismo, níveis elevados do hormônio estimulador da tireóide (TSH) indicam que a tireóide não está mais produzindo tiroxina (T4) e triiodotironinna (T3) suficientes. Testes mais avançados de T4 e às vezes de T3 podem confirmar isso. As taxas metabólicas se reduzem. As pessoas ganham peso e parecem não conseguir dormir o suficiente ou se aquecer o suficiente, especialmente nas extremidades. Os lipídeos sanguíneos aumentam e frequentemente pioram, e alguns casos desenvolvem depressão. Se o hipotireoidismo ficar realmente extremo e for permitido que progrida sem controle, perda de cabelo, memória/cognição prejudicada, inchaço da face e insensibilidade nos braços e pernas podem ocorrer. Agora, não me entenda mal. Esses são sintomas terríveis e frustrantes para alguém lidar, e o hipotireoidismo clínico é um problema real; um que pode ser combatido com medicamentos. Não estou tentando desconsiderar isso. Na prática, vamos dar uma olhada na forma mais comum do hipotireoidismo: a tireoidite de Hashimoto, uma doença autoimune responsável por cerca de 90% dos casos de hipotireoidismo nos EUA. Pessoas com Hashimoto produzem anticorpos contra o tecido da tireóide, o que leva o sistema imune a declarar guerra à glândula, que é destruída. Sem uma tireóide você não pode produzir hormônio tireoidiano. Sem ele, você tem hipotireoidismo. Isso é um problema sério.

(Nota paralela que provavelmente merece mais atenção: sempre que eu ouço a palavra "autoimune", penso imediatamente em glúten, lectinas, saponinas e outros irritantes intestinais. Ineremente suspeito do seu papel na saúde human, mas quando se trata de doenças autoimunes, sou abertamente acusador. Pacientes com tireoidite de Hashimoto têm maior probabilidade de serem celíacos, e abster-se do glúten com o propósito de reduzir anticorpos anti-gliadina também parece reduzir anticorpos específicos da tireóide. Como o Chris menciona, Hashimoto parece ser meramente uma parte de um "padrão autoimune poliendócrino" mais amplo, caracterizado pela presença de anticorpos para múltiplos tecidos e enzimas no corpo)

Mas e se o hipotireoidismo "leve" não for uma coisa ruim para aqueles de nós sem Hashimoto ? Ele manifesta-se  como um metabolismo regulado para baixo, uma produção de energia reduzida – um tipo de desaceleração. Tudo fica mais lento. E se desacelerar as coisas um pouco na prática ajudar a melhorar a saúde ?

Sobre as reclamações gerais contra o hipotireoidismo devido a algum exame de laboratório, eu estou sempre ressabiado com pessoas que determinam sua sensação de saúde baseadas em como seus números se comparam aos resultados de testes "normais" (lembram-se do meu experimento com pressão arterial?). 

Tudo é relativo; seus números estão sendo comparados com milhões de outros números derivados de uma população comendo a dieta americana padrão, levando vidas estressantes e seguindo o moderno e enganoso conhecimento convencional. Essa população é normal ? Certamente, usando a definição estrita. É saudável ? Não, e eu acho que isso chama a atenção para a validade de comparar seus números aos deles e usar tal comparação para determinar quais drogas tomar.

Você pode ter ouvido sobre a restrição calórica, com sesu cronômetros e seu desejo fervente pela extensão da vida. Não é um estilo de vida que eu necessariamente aprecio, mas o conceito de restrição calórica como técnica de extensão da vida tem mérito – muitos estudos mostram expectativas de vida extendidas em modelos animais de restrição calórica, tais como macacos, roedores, vermes, e moscas (uma variedade bastante diversa de vida, e udiria) – e é sempre esperto escolher dentre aquilo que funciona e do que não funciona, independente da fonte (isso aqui não é religião, pessoal, e pureza dogmática não importa quando você está simplesmente tentando ficar saudável e viver bem). Restrição calórica reduz o T3 circulante, que é o hormônio ativo e "potente" da tireóide que (para nossos propósitos) controla a taxa metabólica. T3 baixo, metabolismo mais baixo, potencialmente maior longevidade (já que você não está "queimando" mais rápido). Tudo certo, né ?

Mais ou menos. Aqueles ratos, macacos  e vermes tinham a sua comida suprimida. Eles não estavam conscientemente decidindo restringir as calorias, e ainda que vivessem vidas mais longas e livres de doenças, começaram a demonstrar sinais de depressão clínica. Humanos fazem o mesmo, como qualquer pessoa que examinar os resultados do estudo da fome do Ancel Keys ou lidar com um cônjuge faminto e mal-humorado pode atestar. Ninguém quer restringir calorias.

Jejum intermitente foi proposto como uma maneira eficiente de conseguir os benefícios da restrição calórica sem a restrição na prática. Jejum intermitente certamente tem efeitos similares no corpo. Como a restrição calórica, o JI reduz o T3 circulante – mas o T4 normaliza-se. Assim como a restrição calórica, o jejum intermitente provavelmente melhora degradações ligadas à idade em vermes, roedores, e humanos. Ele tem o mesmo efeito de reduzir espontaneamente a ingestão calórica sem muito esforço (comer de maneira primal tem o mesmo efeito sobre a saciedade), e muitos dos benefícios atribuídos tanto à RC quanto ao JI estão associados com níveis de hormônio tireoidiano que se aproximam do "hipotireoidismo leve". Hipertireoidismo, por outro lado, tem o potencial de reduzir a expectativa de vida.

Estou apenas especulando aqui. Outros, como Nora Gedgaudas, já sugeriram que um estado levemente hipotireóidico possa na realidade ser fisiologicamente "normal" e ótimo para a longevidade. Faz sentido, intuitivamente.

No fim das contas, eu sou totalmente a favor de resusltados subjetivos. Como você está se sentindo ? Está ganhando peso ? Está fatigado ? Ou seus resultados de exames (ou seu médico) estão te dizendo que você devia estar sentindo esses sintomas ? Ouça seu corpo. Se você estivesse sentindo os sintomas clínicos de hipotireoidismo, caindo de sono enquanto trabalhasse, ganhando peso e sentindo-se uma m*rda em geral, escutaria seu corpo e iria verificar a sua tireóide não é ? Apenas garanta que você não ignore seu corpo se ele estiver te dizendo coisas boas também, e não deixe que alguns números levemente "irregulares" ultrapassem seu senso de bem-estar intuitivo.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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