Seus micróbios intestinais e sua tireóide: Qual a conexão ?

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Chris Kresser


Embora haja muitos fatores que influenciam a função da tireóide, pesquisas recentes sugerem que a saúde intestinal pode ser um ator chave. Os trilhões de micróbios que residem no seu intestino têm uma influência profunda sobre a produção de hormônios no corpo – incluindo os da tireóide. Continue lendo para descobrir se uma microbiota desequilibrada pode estar contribuindo para o seu problema de tireóide, e aprenda como curar seu intestino para melhorar a função da sua tireóide.

Um princípio central da medicina funcional é abordar a causa subjacente de uma doença, em oposição a simplesmente tratar os sintomas. Em um artigo prévio do blog, eu discuti a conexão entre a saúde geral do intestino e a tireóide. Nesse artigo, vamos nos focar nos micróbios em si e nas nas muitas maneiras como eles se conectam à função da tireóide.

A importância dos micróbios e seus metabólitos na saúde endócrina


Em anos recentes, a microbiota foi implicada em numerosas doenças crônicas, de obesidade a síndrome do intestino irritável (SII) à esclerose múltipla (1). Não deveria realmente ser surpresa que ela também tenha um impacto profundo em órgãos endócrinos como a tireóide. Perturbações da flora intestinal e a subsequente função prejudicada da tireóide foram primeiramente hipotetizados nos anos 1900, muito antes de os termos "microbiota" e "microbioma" sequer terem sido cunhados (2). 

Atualmente, o sequencimanto microbiano de amostras de fezes humanas nos permitem medir direfenças de composição na microbiota. Um estudo de 2014 descobriu que indivíduos com hipertireoidismo tinha números significativamente menores de Bifidobacteria e Lactobacili, e níveis significativamente mais altos de Enterococcus sp, comparados a controles saudáveis (3). Nenhum estudo equivalente foi feito em indivíduos com hipotireoidismo, mas dado que 90% dos casos de hipotireoidismo são de natureza autoimune (4) e o fato de que uma microbiota alterada já foi implicada em incontáveis outros casos de doença autoimune, é bastante provável que a disbiose tenha um papel significativo (5).

Curar seu intestino vai melhorar o funcionamento da sua tireóide ?


Micróbios reconhecem um número de diferentes moléculas endócrinas do hospedeiro, incluindo adrenalina, noradrenalina, hormônios sexuais e tireoidianos, e podem até mesmo mudar aspectos do seu metabolismo e virulência em resposta a esses sinais (6). Além disso, ratos livres de germes, criados em condições estéreis e não têm qualquer bactéria intestinal, têm tireóides menores que ratos criados de maneira convencional, sugerindo um papel crucial desses micróbios na saúde da glândula (7).

Bactérias intestinais influenciam a disponibilidade de nutrientes

As células epiteliais que formam o revestimento do intestino têm projeções similares a dedos, chamados vilosidades, que aumentam a área para transportar nutrientes para o corpo. Quando o intestino está inflamado, que é frequentemente o caso com as disbioses microbianas, essas vilosidades podem ser reduzidas, resultando na absorção prejudicada de nutrientes. Esses incluem nutrientes como iodo e selênio, que são vitais para a saúde da tireóide.

Enquanto a microbiota provê muitos benefícios para o hospedeiro, ela também compete com ele por nutrientes. Os nutrientes que são essenciais para o funcionamento adequado das nossas células também são importantes para nossos micróbios! A composição da microbiota pode então influenciar os requisitos de uma pessoa por vários nutrientes. Na prática, um estudo de 2009 em ratos sugeriu que a microbiota compete com o hospedeiro por selênio quando o selêncio é escasso, prejudicando a síntese de selenoproteínas – que são necessárias para o funcionamento apropriado da tireóide (8). Em outro estudo, ratos alimentados com kanamicina, um antibiótico de largo espectro, tiveram absorção significativamente menor de iodo pela tireóide (7).

Bactérias intestinais e Lipopolissacarídeos (LPS)


LPS são componentes da parede celular bacteriana. Quando a permeabilidade intestinal é aumentada, frequentemente como resultado de uma disbiose, LPS podem "vazar" para a corrente sanguínea. Isso pode causar o cãos na tireóide de diversas maneiras. O hormônio estimulante da tireóide (TSH) induz a tireóide a produzir T4. T4 é a forma inativa do hormônio tireoidiano e precisa ser convertido em T3, a forma ativa. Nossos corpos produzem uma enzima chamada iodotironina deiodase que é responsável por fazer a conversão. Já se mostrou que LPS inibem essa enzima, reduzindo a quantidade de T3 ativo em circulação (9).

Não apenas você precisa de hormônio tireoidiano ativo, mas também precisa de receptores para ele nas células ao longo do corpo. Ainda que alguém cujo exame da tireóide pareça perfeito poderia sofrer de sintomas de hipotireoidismo se seu corpo não produzir receptores suficientes para receber os sinais da tireóide. Já se demonstrou que LPS reduzem a expressão de receptores tireoidianos, especificamente no fígado (10).

LPS também induz a expressão do simportador sódio/iodeto (NIS) em células tireoidianas, aumentando a captação de iodo pela tireóide (11). Uma vez que o iodo é importante para a saúde tireoidiana, isso pode soar como algo bom, mas excesso de iodo (especialmente em concorrência com deficiência de selênio) contribui com o desenvolvimento da síndrome de Hashimoto, a forma autoimune do hipotireoidismo  (12).

Bactérias intestinais influenciam a conversão de T4 a T3


Lembra que na última seção dissemos que a forma T4 inativa precisa ser convertida em T3 ativa ? Bem, cerca de 20% dessa conversão acontece no trato gastrointestinal! Micróbios comensais podem converter T4 inativo em T3-sulfato, que pode então ser recuperado como T3 ativo por uma enzima chamada sulfatase intestinal (13).

Ácidos biliares representam outra conexão interessante entre bactérias intestinais e função tireoidiana. Ácidos biliares primários são produzidos na vesícula e secretados no intestino delgado após o consumo de gorduras. O metabolismo de ácidos biliares primários pelas bactérias intestinais resulta na formação de ácidos secundários. Esses por sua vez aumentam a atividade da iodotironina deiodase (a principal enzima que converte T4 em T3) (14).

Mais à frente, quando falarmos sobre prebióticos, veremos outra maneira através da qual os metabólitos das bactérias intestinais influenciam a saúde tireoidiana.

Crescimento bacteriano excessivo no intestino delgado (SIBO) e a tireóide


A função da tireóide está também intimamente relacionada ao SIBO. Em um indivíduo saudável, a maioria dos micróbios estão concentrados no intestino grosso. No SIBO, certas bactérias e arquéias são capazes de colonizar o intestino delgado e proliferar – causando inchaço, gás e distensão, entre outros sintomas desagradáveis.

A conexão entre SIBO e a tireóide é subestimada. Um estudo de 2007 descobriu que entre pessoas com histórico de hipotireoidismo autoimune, 54% testaram positivo para SIBO em um teste de hálito, comparados a 5% dos controles (15). Atualmente não se sabe se a relação é causal. Uma vez que os hormônios da tireóide podem ajudar a estimular a mobilidade intestinal, também é possível que pouca motilidade e constipação forneçam um ambiente no intestino delgado que é propício ao crescimento bacteriano excessivo. Esse pode ser um de muitos exemplos de interações bidirecionais entre o hospedeiro e seus micróbios residentes.

Conclusão: cure seu intestino para melhorar a função tireoidiana


Então como podemos aplicar essa informação ? Aqui estão 4 maneiras que podem te ajudar a melhorar a sua função tireoidiana:

  1. Coma bastante fibra fermentável. Metabólitos bacterianos são potentes moduladores endócrinos. Quando você consome fibras fermentáveis como mandioca, batata doce ou banana-da-terra (prebióticos), suas bactérias as fermentam e produzem ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs). Já se demonstrou que SCFAs inibem enzimas intimamente envolvidas com regulação epigenética. Em outras palavras, elas ajudam a determinar se um gene é expresso ou não. Entre muitas outras coisas, a inibição dessas enzimas mediada por SCFA aumenta a expressão de receptores tireoidianos (16).
  2. Coma probióticos ou comidas fermentadas. Apesar da ligação há muito  hipotetizada entre bactérias intestinais e função da tireóide, há poucos estudos controlados em humanos que tentaram manipular a microbiota para melhorar a saúde tireoidiana. Entretanto, a suplementação com bactérias produtoras de ácido lático em frangos resultou em aumento dos níveis sanguíneos de hormônios da tireóide (17), e a suplementação com Lactobacillus reuteris especificamente melhorou a função tireoidiana em ratos (18). Bactérias produtoras de ácido lático são comumente encontradas em vegetais fermentados como chucrute, kimchi e laticínios fermentados como iogurte e kefir.
  3. Faça testes para detectar SIBO ou patógenos intestinais, e trate-se. Embora o juri ainda não tenha decididos se os problemas da tireóide causam SIBO ou se SIBO causa problemas de tireóide, fazer o teste certamente não faz mal – especialmente se você está tendo inchaço, desconforto abdominal ou outros sintomas característicos de um crescimento excessivo ou infecção.
  4. Siga outros passos para curar seu intestino: remova alimentos inflamatórios, gerencie o estresse, coma uma dieta densa em nutrientes que inclua alimentos bons para o intestino como caldo de ossos. Para algumas pessoas, curar o intestino pode ser o suficiente para melhorar os sitnomas da tireóide.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

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Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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