Glúten tem algum efeito em não-celíacos ?

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Mark Sisson


As notícias estão por toda a parte: sensibilidade ao glúten não existe na prática, e qualquer um que achar que a tenha é um mentiroso, paranóico, idiota ou os três. A mensagem não é nova, mas as histórias apontam para um novo estudo de um grupo de pesquisadores que previamente descobriu que remover o trigo da dieta melhorava os sintomas de pessoas com SII. No novo artigo, os pesquisadores testaram se o glúten isolado – ao invés do trigo – exacerbava os sintomas de SII. Ele não fazia isso. Os pacientes de SII no estudo mais recente não mostraram reação ao glúten isolado, e a única variável de dieta que aumentou seus sintomas foi o trigo. Isso poderia sugerir que no mínimo para algumas pessoas (com SII), a sensibilidade ao glúten pode ser na realidade sensibilidade ao trigo disparada pelas fibras FODMAP fermentáveis encontradas no grão.

As pessoas estão tão ansiosas para dizer "eu te disse!" que elas ignoram um fato importante: livrar-se do glúten ainda funciona. Claro, eu acho que alguns pacientes de SII podem começar a cheirar carreiras de glúten solado em pó ou o que quer que o valha, mas se o mecanismo dos FODMAPs funciona, eles continuarão a não comer trigo. Continuam estando livres do glúten, ou livres do trigo, ou o como quer que você chame – e eles ainda experimentarão alívio dos sintomas debilitantes.

O "motivo" é certamente importante. É interessante. Ele provê trabalho para os pesquisadores e argumento para discussões online. Ele pode levar a tratamentos efetivos e intervenções farmacêuticas. Mas ele não afeta as pessoas de hoje, que estão lidando com problemas de saúde e que não podem esperar por um consenso da literatura. Elas precisam de resultados, e livrar-se do glúten tende a funcionar mais frequentemente do que não. E descartar o glúten não machuca, desde que você simplesmente não troque os grãos cheios de glúten por comida-lixo sem glúten.

Mas o ponto de hoje não é realmente sobre isso.

As pessoas tipicamente analisam a sensibilidade ao glúten através do prisma dos distúrbios gastrointestinais. É frequentemente o primeiro sintoma que notamos. É certamente o mais óbvio. Se você não for celíaco mas comer um pouco de glúten e sua barriga fizer sons estranhos e o banheiro tornar-se irresistível, você tem sensibilidade não-celíaca ao glúten (SNCG). Se você pode comer pizza sem ter diarréia, inchaço, constipação e/ou quantidades incomuns de gás, você provavelmente não tem.

É assim que eu sei que comi glúten – meu intestino me conta. Mas para muitas pessoas, há sintomas periféricos extra-intestinais. E esses não são simplesmente delírios coletivos. Pesquisa legítima está descobrindo e começando a desenovelar as conexões entre glúten, trigo e uma série de outros distúrbios, mesmo na ausência de doença celíaca.

Tais sintomas e distúrbios podem ser mediados pelo intestino, mas não são sempre sentidos no intestino. Mais ou menos como um músculo contraído pode afetar outros tecidos ao longo de seções aparentemente não-relacionadas da cadeia cinética (disfunção do tornozelo pode causar dor no joelho, por exemplo).

As informações a seguir não estão escritas em pedra, nem são relações causais comprovadas. Elas descrevem correlações com mecanismos plausíveis, hipóteses ainda a ser provadas. Eu estou omitindo quaisquer relacionamentos puramente baseados em evidência anedótica, não para descartá-los, mas para focar nas condições que são as candidatas mais fortes a serem causadas ou exacerbadas pelo glúten em não-celíacos.

Fibromialgia


A condição misteriosa e dolorosa conhecida como fibromialgia foi há muito tempo conectada com a doença celíaca e com distúrbios gerais do intestino (SII é muito comum em pacientes de fibromialgia, por exemplo, e pacientes de SII com fibromialgia geralmente são celíacos). Mas só recentemente a SNCG também foi ligada à fibromialgia. Pesquisadores selecionaram 20 pacientes com fibromialgia que tiveram remissão ao mudar para uma dieta livre de glúten, sendo que a remissão incluiu uma ou mais das seguintes melhoras: redução na dor, retorno ao trabalho, retorno à vida normal, ou a remoção dos analgésicos. Testes confirmaram que eles não eram celíacos, levando os autores a sugerirem que "sensibilidade não-celíaca ao glúten pode ser uma causa subjacente da síndrome de fibromialgia".

Autismo


Dietas livres de glúten (e frequentemente, livres de caseína) são populares com muitos pais de crianças no espectro autista, mas a maioria dos médicos tem uma premissa cética sobre toda a premissa. Era de se esperar. Entretanto, pais que reportam a implementação mais estrita de uma dieta livre de glúten em suas crianças autistas reportam as maiores melhoras nos sintomas. "Ah, mas isso é apenas uma grande, bem-documentada e externamente verificada coleção de evidências anedóticas", você diz ? Pesquisa recente mostrou que um subconjunto de crianças autistas mostram reação aumentada ao glúten distinta da resposta característica da doença celíaca. Você pode certamente dizer que livrar-se do glúten provavelmente não vai ajudar toda criança autista, mas parece que uma porção delas vai beneficiar-se da remoção. 

(Se houver leitores de espanhol por aí, verifiquem esse artigo para dar mais uma olhada na evidência)

Diabetes tipo 1


Em ratas grávidas que eram diabéticas mas não celíacas, uma dieta maternal livre de glúten mantida durante a amamentação e até o desmame reduziu tanto a inflamação quanto o diabetes tipo 1 na prole. Células T regulatórias (que suprimem a inflamação) e a atividade das junções oclusivas foram ambas reguladas para cima na prole livre de glúten. Isso ecoa outros estudos com roedores que remontam aos anos 1990. Ok, mas são ratos. Eles são bonitinhos e mamíferos e tudo mais, mas e a pesquisa com humanos ? Mais recentemente, uma criança de 6 anos com diabetes tipo 1 teve remissão ao adotar uma dieta livre de glúten. 20 meses depois, ele ainda não precisava de insulina.

Esquizofrenia


Por aproximadamente 50 anos, um grande conjunto de pesquisa tentou estabelecer ligações entre a esquizofrenia e o consumo de trigo. Um estudo de 1966 descobriu que à medida que o consumo de trigo e centeio aumentou após a Segunda Guerra Mundial, as admissões hospitalares por esquizofrenia também aumentaram. Mais tarde naquela década, descobriu-se que a então rara doença celíaca parecia ser estranhamente comum entre pacientes de esquizofrenia, ao mesmo tempo que intervenções iniciais tiveram algum sucesso ao tratar esquizofrenia reincidente com dietas livres de grãos. Sensibilidade anormal ao glúten não é universal entre pacientes, mas parece haver algo aqui. E a pesquisa continua atualmente, com uma meta-análise recente descobrindo que certos marcadores da sensibilidade ao glúten são elevados em esquizofrênicos comparados aos controles (e de maneira diferente nos celíacos). Sensibilidade maternal ao glúten ainda está relacionada à chance da prole desenvolver esquizofrenia.

Depressão


Um estudo de caso recente descobriu que uma dieta livre de glúten levava à remissão dos sintomas de depressão em um paciente com SNCG. Um teste controlado por placebo de 2014 descobriu que embora o glúten isolado adicionado a uma dieta livre de glúten não causasse distúrbios gastrointestinais (assim como o estudo descrito na introdução), ele aumentava os sintomas de depressão em um grupo de pacientes com SNCG "auto reportada".

Ataxia


Não tão bem conhecida quanto algumas das outras condições mencionadas, a ataxia é um distúrbio neurológico caracterizado pela incapacidade de controlar a marcha, equilíbrio e coordenação olho-mão. É incrívelmente séria, e múltiplos relatos a ligam à sensibilidade ao glúten. Eles até mesmo nomeiam um subconjunto dela de ataxia do glúten, que não é acompanhada por enteropatias ligadas à doença celíaca. Um estudo recente em pacientes com ataxia descobriu que uma dieta livre de glúten melhorava significativamente os sintomas, indepentende de sintomas gastrointestinais.

Claramente, observar o intestino por evidências de SNCG não é suficiente. E sim, talvez seja uma outra coisa no trigo que causa os problemas descritos – mas isso muda a terapia efetiva ? Uma dieta sem glúten/sem trigo ?

Não, ela ainda funciona.

Se quaisquer dessas condições afeta você ou alguém próximo, pode valer a pena tentar uma dieta sem glúten. 

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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