Tudo sobre as solanáceas

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por PaleoLeap



Responda rápido: o que têm em comum as batatas inglesas, pimentões e berinjela ? Se você disse "são deliciosas", não está errado – mas também há uma similaridade mais importante: essas três plantas (e também os tomates, jilós e todas as variedades de pimentas) pertencem à família das solanáceas. Embora a maioria das pessoas não tenha problemas com essa família, as solanáceas podem causar problemas sérios para qualquer um que esteja lutando com doenças auto-imunes, bem como qualquer pessoa que tenha sensibilidade digestiva a elas.

O que são solanáceas ?

Membros da família Solanaceae, essas plantas incluem as batatas inglesas (não as batatas-doces!), berinjelas (e jilós), tomates e pimentas – tanto as ardidas quanto as suaves como pimentão. A lista de solanáceas comestíveis também inclui quaisquer temperos feitos de pimenta, como páprica, pimentas desidratadas e pimenta cayenne (apesar de a pimenta-do-reino ser uma planta diferente).

Essa lista de solanáceas comestíveis é bem curta, mas a lista das venenosas é bem longa. A maioria das plantas da família é tóxica para humanos, com a mais conhecida sendo a beladona, tradicionalmente conhecida por seu uso como veneno (na peça "Macbeth", por exemplo, o envenenamento por beladona faz parte da trama).

A associação com tais membros tóxicos na família faz com que algumas pessoas fiquem muito preocupadas com as solanáceas – elas preocupam-se com o fato de que se há uma solanácea com tal veneno existe, então mesmo um aparentemente inofensivo tomate não deve ser bom. Fazendeiros e jardineiros em algumas culturas tradicionais pareciam concordar: eles tinham dúvidas sobre o valor alimentício dessas plantas, e a maioria as cultivava apenas como ornamentos acreditando que não eram próprias para a alimentação.

A culpa por associação e o conhecimento acumulado de jardineiros tradicionais dá uma hipótese plausível, mas felizmente não há evidências de que as solanáceas sejam perigosas sob qualquer aspecto para a maioria das pessoas saudáveis. Por outro lado, elas podem ser uma má-idéia para pessoas cujos intestinos e sistemas imunes já estejam comprometidos, especialmente gente com doenças auto-imunes.

Solanáceas e Auto-imunidade: Vitamina D


A melhor evidência dos riscos à saúde pelo consumo de solanáceas está conectado com a artrite e dor articular, especialmente na doença auto-imune artrite reumatóide. Mas mesmo a "melhor evidência" não é assim tão grande: é na maior parte baseada em relatos pessoais e na experiência de nutricionistas e especialistes em saúde integrada. Um médico conduziu diversas pesquisas, e descobriu que eliminar as solanáceas era extremamente útil, mas esse tipo de estudo tem muitas limitações: não havia grupo de controle, e simplesmente perguntar às pessoas "o que você comeu?" é uma maneira não-confiável de reunir evidência.

Mesmo tendo em mente a relativa falta de evidência sólida em huamnos, entretanto, ainda é uma hipótese interessante – especialmente quando você observa as causas propostas para esse efeito: por que as solanáceas são tão frequentemente acusadas de causarem dor, inflamação e problemas auto-imunes ?

Uma teoria tem a ver com a vitamina D. Há muitas evidências em animais, indicando que as solanáceas causam muitos tipos de dor articular e problemas ósseos, principalmente por causa da maneira como os corpos dos animais processam a forma de vitamina D que existe nas solanáceas. A vitamina D é crucial para a formação apropriada dos ossos, mas a forma extremamente potente da vitamina D3 contida nas solanáceas na prática impede o metabolismo apropriado do cálcio, fazendo com que o corpo deposite cálcio em tecidos moles (onde você não o quer) ao invés de nos ossos (onde você o quer).

Em animais, isso causa artrite muito dolorosa e inflamação articular. Por outro lado, entretanto, humanos não metabolizam vitamina D da mesma maneira que vacas e cavalos. Estudos animais simplesmente não são sempre relevantes para seres humanos. Por exemplo, abacates são tóxicos para cães, mas perfeitamente saudáveis para pessoas. Então a evidência animal é interessante, mas não necessariamente prova que humanos vão sofrer da mesma maneira.

Solanáceas e auto-imunidade: Alcalóides e Lectinas



Outras pesquisas não culpam a vitamina D, e atribuem os perigos auto-imunes das solanáceas a vários outros fatores, usualmente um grupo de compostos químicos chamados alcalóides. Os alcalóides incluem a solanina (das batatas, especialmente se estiverem verdes), nicotina (em quantidades muito pequenas; solanáceas não são viciantes como cigarros!) e capsaicina (o composto que dá o ardor da pimenta).

Enquanto a planta está viva, esses compostos funcionam como se fossem "inseticidas caseiros", defendendo-as das pragas e fungos que de outra maneira a matariam. Em outras palavras, eles são projetados para serem tóxicos. Nos membros venenosos da família das solanáceas, esses químicos são tão concentrados que têm efeitos mortais em humanos – mas nas solanáceas comestíveis, eles estão presentes em quantidades muito menores e principalmente nas folhas e caules (que não comemos, no fim das contas).

Dado que humanos são muito maiores que insetos e fungos, e dado que não comemos as partes mais ricas em alcalóides da planta, a maioria de nós não apresenta qualquer efeito ao comer pequenas quantidades desse "inseticida natural". É quase como tentar sentir o sabor de um grão de areia em uma enorme tigela de sopa. Teoricamente é uma má idéia comer areia, mas uma quantidade tão pequena não faz qualquer diferença mensurável à sua saúde.

Intestinos saudáveis podem lidar com esses compostos perfeitamente, mas pessoas cujo sistema digestivo já esteja comprometido por uma doença auto-imune têm problemas com eles. Por exemplo, alguns tipos de alcalóides aumentam o poder da resposta imune – exatamente o que você não quer quando está lidando com uma desordem auto-imune.

Outro perigo dos alcalóides é a irritação intestinal: o seu papel nas plantas é matar coisas, e quando eles começam a matar coisas no seu intestino também, as células que revestem as paredes intestinais são suas primeiras vítimas. Essa irritação entérica contribui para a permeabilidade intestinal, que pode disparar uma reação auto-imune quando várias proteínas que deveriam estar dentro do trato digestivo conseguem abrir caminho até a correntes sanguínea, e são atacadas pelo corpo como resposta.

Além dos alcalóides, há também o caso da lectina. Todos os alimentos contêm lectinas: muitas dessas são completamente inofensivas, mas outras são irritantes intestinais – a parte ruim é identificar qual é qual. Nós sabemos que as lectinas dos amendoins, por exemplo, são perigosas. As lectinas das solanáceas podem também ser irritantes intestinais em indivíduos sensíveis, disparando a mesma resposta de intestino irritável que os alcalóides.

Qual é a evidência de que isso realmente acontece ? É bem escassa, mas sugestiva. Nesse estudo, por exemplo, os pesquisadores deram cascas de batata (que é onde se escondem a maioria dos alcalóides) a ratos com doença intestinal inflamatória, e descobriram que a inflamação foi significativamente aumentada. Quanto maior o conteúdo de alcalóides das batatas, pior a inflamação.

Toxicidade x Estresse benéfico



Não se pode realmente enfatizar o suficiente que todos esses perigos só são relevantes para pessoas sensíveis às solanáceas. Se você não é sensível a elas, não há nenhuma razão para sair correndo e eliminar todos esses alimentos da sua dieta "por precaução".

Na prática, os mesmos compostos que causam tantos problemas às pessoas sensíveis às solanáceas podem trazer benefícios para pessoas com sistemas digestivos saudáveis. A capsaicina, por exemplo, pode ser mais conhecida para maioria de nós como anti-inflamatório – que é um dos grandes benefícios à saúde de se comer pimentas ardidas. É porque é assim que ela funciona em pessoas saudáveis. A irritação da capsaicina dispara uma resposta anti-inflamatória tão forte que o resultado geral é anti-inflamatório e benéfico (se isso soa familiar, é porque é exatamente a mesma maneira pela qual os antioxidantes funcionam).

Os alcalóides já foram estudados como terapia para diversas doenças, precisamente por causa desses benefícios. A beladona, por exemplo, vêm sendo usada em remédios populares desde que percebemos o quão poderosa ela é, e agora é a matéria-prima da droga antiespasmódica atropina. Um veneno forte pode também ser transformado em um remédio igualmente forte, se preparado corretamente.

Sumarizando, é apenas para pessoas com problemas intestinais – doenças auto-imunes, intestino permeável e questões relacionadas – que a pequena irritação dos alcalóides das solanáceas comestíveis é demais para suportar. Para pessoas saudáveis, o estresse hormético dos alcalóides é neutro no melhor caso, e pode até mesmo ser benéfico.

Conclusão


Você deveria evitar as solanáceas ? Se estiver tentando curar-se de uma doença auto-imune (especialmente artrite reumatóide ou qualquer coisa que cause dor articular e inflamação), um período de 30 dias sem solanáceas definitivamente vale a pena. Afinal de contas, não vai fazer mal, e você pode se surpreender com os benefícios. Você pode encontrar detalhes sobre o protocolo paleo auto-imune (que restringe as solanáceas, bem como alguns outros tipos de alimentos) aqui.

A eliminação total é uma opção, mas para pessoas que são apenas levemente sensíveis, pode ser suficiente apenas reduzir o conteúdo de solanáceas na sua dieta, ou reduzir os níveis de vários dos químicos problemáticos ao preparar adequadamente as solanáceas. Isso inclui:


  • Descascar todas as batatas (os alcalóides são mais frequentemente encontrados na casca)
  • Evitar tomates verdes e batatas verdes e/ou brotando (solanáceas não-maduras são mais ricas em alcalóides)
  • Cozinhar as solanáceas sempre que comê-las (isso reduz ainda mais o conteúdo de alcalóides)

Pessoas sem doença auto-imune ou questões de dor crônica provavelmente não verão muito benefício ao eliminar as solanáceas. Não há muito mal em experimentar, mas não há razão para tornar uma dieta paleo estrita ainda mais estrita sem necessidade. A maioria de nós pode desfrutar molho de tomate, berinjela, jiló e pimentas ardidas sem problemas, e até mesmo tirar alguns benefícios desses mesmos compostos.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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