Como o vício alimentar funciona (e o que fazer a respeito)

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Kris Gunnars


Se você já tentou "cortar" a comida-lixo, deve ter percebido que é mais fácil falar do que fazer.

Nós tendemos a ter compulsões… o cérebro começa a pedir por essas comidas.

Ainda que nossa mente racional e consciente "saiba" que elas são ruins para nós, uma outra parte do nosso cérebro parece discordar.

Algumas pessoas não têm esse problema e conseguem controlar facilmente os tipos de alimentos que comem.

Outras não parecem ter controle algum.

Independente de suas melhores intenções, elas repetidamente se vêem comendo comidas não-saudáveis, ainda que anteriormente tenham decidido não comê-las.

Enquanto algumas pessoas acham que isso é causado por falta de força de vontade, a situação pode ser muito mais complicada.

O fato é que... Comida-lixo estimula o centro de recompensas no cérebro da mesma maneira que drogas de abuso como a cocaína.

Para pessoas suscetíveis, comer comida-lixo pode levar ao vício, que compartilha das mesmas bases biológicas que o vício em drogas de abuso  (1).

Como o vício em comida funciona ?


Há um sistema em nosso cérebro chamado de sistema de recompensa.

Esse sistema evoluiu para nos "recompensar" quando fazemos coisas que encorajam nossa sobrevivência. Isso inclui comportamentos primários como comer.

O cérebro sabe que quando comemos, estamos fazendo algo "certo", e libera um bocado de compostos químicos no sistema de recompensas, tais como o neurotransmissor dopamina – interpretado por nossos cérebros como "prazer".

O cérebro está programado para buscar comportamentos que liberam dopamina no sistema de recompensas.

O problema com a comida-lixo moderna é que ela pode causar uma recompensa que é muito mais poderosa do que qualquer coisa à qual estamos expostos na natureza.

Enquanto comer uma maçã ou um pedaço de bife pode causar uma liberação moderada de dopamina, tomar um sorvete é tão incrivelmente recompensador que libera uma quantidade maciça.

Isso pode levar à Tolerância e Abstinência – as marcas registradas do vício



Quando as pessoas repetidamente fazem algo que libera dopamina no sistema de recompensas (tais como fumar um cigarro ou comer uma barra de chocolate), os receptores de dopamina podem começar a se regular para baixo.

Quando o cérebro vê que a quantidade de dopamina está muito alta, ele começa a remover os receptores de dopamina para manter as coisas "equilibradas".

Quando você tem menos receptores, precisa de mais dopamina para atingir o mesmo efeito, o que faz com que as pessoas comecem a comer mais comida-lixo para alcançar o mesmo nível de recompensa de antes.

Isso é chamado tolerância.

Se você tem menos receptores de dopamina, então terá muito pouca atividade de dopamina e vai começar a sentir-se infeliz se não tiver sua "dose" de comida-lixo.

Isso é chamdo abstinência.

Tolerância e abstinência são as marcas regitradas do vício físico.

Múltiplos estudos em ratos mostram que eles podem se tornar fisicamente viciados em comida-lixo da mesma maneira que tornam-se viciados em drogas de abuso (2).

É claro, tudo isso é uma supersimplificação drástica, mas é basicamente como o vício alimentar (e qualquer outro vício) funciona.

Isso pode levar a vários efeitos característicos sobre o comportamento e o padrão de pensamento.

Compulsões são uma característica chave do vício


Uma compulsão é um estado emocional, um desejo de consumir certo alimento. Não deve ser confundido com simples fome, que é diferente.

Compulsões às vezes parecem aparecer do nada.

Podemos achar que estamos fazendo coisas comuns... vendo o programa de TV favorito, passeando com o cachorro, lendo... e então, repentinamente surge uma compulsão por algo como sorvete.

Ainda que as compulsões pareçam aparecer do nada, elas podem ser diparadas por certos gatilhos – que são conhecidos como "deixas".

Passar em frente a uma sorveteria, o cheiro de pizza... pode disparar uma compulsão.

Mas elas também podem ser iniciadas por certos estados emocionais, tais como sentir-se deprimido ou solitário. Alguém aí já comeu por estar emocionado de alguma forma ?

Uma compulsão verdadeira é questão de satisfazer a necessidade do cérebro por dopamina. Não tem nada a ver com a necessidade do corpo por energia ou nutrição.

Quando uma compulsão ocorre, ela pode começar a dominar sua atenção.

Pode ser muito difícil pensar em qualquer outra coisa, e pode ser difícil lembra-se de por que diabos você decidiu que não ia mais comer comida-lixo.

Não é incomum ter compulsões, a maioria das pessoas as tem de alguma maneira.

Mas se você se vê repetidamente cedendo às compulsões e comendo comida-lixo, apesar de previamente ter tomado a decisão de não fazer isso, então algo decididamente NÃO está normal.

Para os viciados em comida, tais compulsões podem ser tão poderosas que fazem as pessoas quebrarem as regras que definiram para si mesmas (tais como só comer bobagens aos sábados) e constantemente exagerarem nas porcarias apesar de saberem do dano físico que elas causam.

Recompensas, que às vezes podem transformar-se em comilanças


Quando você finalmente cede à compulsão... é a hora da recompensa, que é a razão de tudo isso, no final das contas.

Agora você come aquela comida específica até que seu cérebro tenha recebido toda a dopamina da qual estava sentindo falta.

Quanto mais frequentemente você repete esse ciclo de compulsão e recompensar-se, mais forte ele se torna e mais comida você precisará a cada ocasião.

Se 4 colheres de sorvete eram suficientes 3 anos atrás, hoje você pode precisar de 8 para ter o mesmo nível de recompensa.

Pode ser quase impossível comer "com moderação" quando se está satisfazendo uma compulsão disparada pelo vício.

Esse é o motivo pelo qual é impossível para algumaspessoas comer uma fatia pequena de bolo ou apenas uns poucos M&M's. É como dizer a um fumante para só fumar 1/4 do cigarro e parar. Simplesmente NÃO funciona.

Isso pode levar a comportamentos complexos, similares aos do vício


Ao longo do tempo, o vício alimentar pode causar problemas físicos e psicológicos severos.

Muitas pessoas que têm lutado contra o vício alimentar por um longo tempo, pode começar a esconder seu consumo de outras pessoas, podem sofrer de depressão e ter uma auto-estima severamente danificada.

Isso é agravado pelo fato de que a maioria das pessoas sequer percebe que é viciada em comida e acha que apenas são fracos e indisciplinados.

O que fazer a respeito?


Infelizmente... não há solução fácil para o vício. Não há suplemento, truque mental ou solução mágica por aí.

Enquanto algumas pessoas podem aprender a controlar seu consumo, pode ser melhor para outras que evitem essas comidas completamente. Se você já lutou contra o vício alimentar, então pode ser melhor buscar ajuda profissional.

Psiquiatras e psicólogos podem ajudar. Há também organizações como a OA (Overeaters Anonymous – Comedores Anônimos), às quais qualquer um pode se juntar gratuitamente.

O Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (ou TCAP, que eu acho que é quase idêntico ao vício alimentar) está atualmente classificado como distúrbio alimentar no DSM-V, o manual oficial que profissionais da saúde mental usam para definir distúrbios mental.

Você pode encontrar mais informação sobre vício alimentar aqui.


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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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