Os Stefansson e sua dieta esquimó

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

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Vilhjalmur e Evelyn Stefansson, 1959

Certa manhã do outono de 1955, no desjejum, o meu marido Vilhjalmur Stefansson, explorador e antropólogo, me perguntou se ele poderia retornar à dieta da idade da pedra, baseada em carnes, que ele consumira e com a qual sentira-se muito bem durante a maior parte do seu trabalho ativo o ártico. Dois anos antes, ele tinha sofrido uma trombose cerebral leve, da qual praticamente havia se recuperado. Mas ele não tinha tido ainda suncesso em perder os 5kg de sobrepeso que seu médico lhe recomendara. Por força de vontade e passando foem, ele tinha perdido alguns deles; mas os quilos extras sempre retornavam quando sua força de vontade falhava. Sem dúvida parcialmente por causa dessas falhas, Stef tinha tornado-se um pouco infeliz, e às vezes rabugento.

Minha primeira reação à sua proposta de "dieta da idade da pedra" foi desânimo. Eu tenho 3 empregos. Dou aulas dentro e fora da cidade, e desfruto de inúmeras atividades extracurriculares na faculdade da nossa cidade, Hanover. Pelas manhãs, eu escrevo livros sobre o ártico, "para adolescentes e adultos desinformados", para ser capaz de manter o luxo de ser bibliotecária à tarde, na grande biblioteca polar que meu marido e eu adquirimos quando éramos escritores free-lancer e terceirizados do governo, cuja biblioteca agora pertence à Universidade Dartmouth. Eu faço parte de um curso chamado Seminários Árticos, e no último inverno fui a diretora. Eu canto em corais e atuo em peças de teatro. Somente por um "orçamento" de tempo reguladíssimo, eu consigo fazer essas coisas. "Além de tudo", pensei comigo mesma, "agora ainda vou ter que preparar dois menus diferentes".

Mas em voz alta, eu disse: "Claro, querido". E começamos a planejar.

Para meu assombro e felicidade, ao contrário de tudo o que eu tinha imaginado antes, a dieta da idade da pedra não apenas se mostrou eficiente em livrar Stef do seu sobrepeso, mas também era mais barata, mais simples e mais fácil de preparar que a nossa dieta mista tinha sido. Ao invés de exigir mais tempo, requeria menos. Ao invés de acrescentar às tarefas de casa, ela as aliviava. Quase imperceptivelmente, a dieta de Stef tornou-se a minha. Tempo era economizado em não ter que comprar, não ter que preparar, não ter que cozinhar e nem lavar pratos desnecessários, entre eles os de vegetais, saladas e sobremesas.

Alguns de nossos amigos dizem: "Nós seguiríamos uma dieta de carnes também, mas não há como pagarmos por ela". Isso me levou a investigar o custo da dieta na prática. Ao contrário de saladas e sobremesas, que frequentemente não duram muito tempo, a carne fica boa por muitos dias depois de cozida. Não há sobras. Eu descobri que nossos gastos com alimentação ficaram menores que antes. Mas eu atribuo isso ao nosso gosto por carneiro. Felizmente para nós, é uma carne pouco popular, o que quer dizer que é barata. Ambos gostamos dela, e graças ao nosso freezer, compramos ovelhas gordas e velhas a preços que variam de US$0.48 a US$0.73/kg, e vivemos da sua gordura. Também compramos carne de vaca, geralmente tutano. Cozinheiros europeus apreciam o tutano, mas a maioria das pessoas no nosso país nunca sequer provaram. Coitados.

Quando você come uma dieta esquimó, você vive de carnes gordas e magras. Um jantar típico na casa dos Stefansson é um bife ao ponto ou mal passado, e café. O café é moído na hora. Se houver gordura suficiente na carne, tomamos o nosso café puro. De outra maneira, acrescentamos creme-de-leite. Às vezes tomamos uma garrafa de vinho. Não comemos pão, nenhum vegetal amiloso, nenhuma sobremesa. Ao invés, cada um come metade de uma grapefruit. Comemos ovos no café da manhã, dois para Stef, um para mim – com muita manteiga.

Melhoras incríveis na saúde de Stef aconteceram após algumas semanas na nova dieta. Ele começou a perder seu sobrepeso quase imediatamente, e perdeu constantemente – comendo tanto quanto quisesse até sentir-se satisfeito. Ele perdeu 7.5kg, e então seu peso estacionou – apesar de a quantidade comida ser a mesma. De levemente irritado e deprimido, ele retomou seu "eu" antigo, otimista e entusiasmado. Ao comer carneiro, ele tornou-se um "carneirinho".

Uma mudança notável – e inesperada – foi o desaparecimento da sua artrite, que lhe tinha causado problemas por anos e a respeito da qual ele pensava ser um resultado natural do envelhecimento. Um de seus joelhos estava tão rígido que ele subia as escadas um degrau por vez, e nos cinemas sempre sentava-se na cadeira próxima ao corredor para poder esticar a perna confortavelmente.

Diversas vezes por noite, ele acordava com dores no quadril e ombros, quando ficava deitado muito tempo de um lado só; então ele tinha que virar-se e deitar-se do outro lado. Sem perceber a mudança inicialmente, Stef ficou um dia espantado por perceber-se subindo e descendo as escadas usando ambas as pernas igualmente. Ele parou no meio da nossa escada; então desceu e subiu novamente. Ele não conseguia lembrar-se de qual joelho tinha tido o problema!

Conclusão: a dieta da idade da pedra, feita inteiramente de carne, é completa. É uma dieta redutora do tipo "coma o quanto você quiser", que permite que você se esqueça da dieta – sem pontadas de fome para te relembrar. Ela te economiza tempo e dinheiro. E o melhor de tudo, ela melhora o temperamento. De alguma maneira, faz com que você sinta-se otimista e levemente eufórico.

Epílogo: Stef costumava amar seu papel de ser um espinho na carne dos nutricionistas. Mas em 1957 um artigo apareceu no jornal da Associação Médica Americana, confirmando o que Stef já sabia há anos por experiência e pelos estudos antropológicos. O autor desse livro também popularizou a dieta de Stef na Inglaterra, com as bênçãos de médicos britânicos.

Foi com o mais leve traço de desapontamento na voz que Stef virou-se para mim, depois de uma estenuante discussão sobre nutrição, e disse: "Eu sempre estive certo. Mas agora eu estou me tornando ortodoxo! Preciso achar outra heresia para mim".

Evelyn Stefansson
22/04/1959


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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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