Cáries, dentes e arcadas desalinhadas

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Barry Groves

Introdução


O Dr. Weston A. Price, dentista e um dos grandes pioneiros da nutrição, estava na ativa por volta de 1900 – quando as primeiras comidas processadas foram apresentadas ao público. Ao longo dos primeiros 15 anos do século XX, ele reportou um aumento incrível nas cáries em seus pacientes. Essa observação inspirou sua jornada de 10 em torno do planeta, estudando diferentes populações isoladas e não-modernizadas, às quais ele diversas vezes teve que fazer grandes viagens para contactar, e que eram imunes à deterioração dental. Ele estudou o que comiam, como mantinham a fertilidade do seu solo, e relacionou isso às taxas de cáries. Descobriu que, apesar de não terem qualquer forma de limpar os dentes, muitos dos grupos não tinham qualquer sinal de cáries. Também descobriu que membros das mesmas culturas que tinham contato com a civilização, tendiam a ter altos níveis de deterioração dos dentes [1].

Baseado nessas descobertas, Price desenvolveu um regime dietético para seus pacientes que enfatizava o leite cru, caldos de ossos com carne e legumes, óleo de fígado de bacalhau, manteiga e ghee, trigo não-processado, frutas e legumes crus. Com isso ele na prática revertia as cáries dentário em seus pacientes, e fez raios-x para comprovar.

Açúcares – e amidos


Doces causam cáries. Quanto maiores o tempo e a frequência do contato do açúcar com os dentes, mais provável de acontecer. Alimentos grudentos como caramelo, que levam um longo tempo para serem comidos, são problemas ainda maiores. É o tempo em que o açúcar encontra-se presente que é importante, não a quantidade. Por exemplo, uma pequena barra de doce e um tubo de "Life Savers": ambos contêm a mesma quantidade de açúcar. A barra, quando comida, precisa ser mastigada, e isso estimula o fluxo de saliva. Uma vez engolida, o nível de açúcar na boca diminui bastante rapidamente. A mesma quantidade de açúcar em balas "duras", dissolvidas lentamente uma por vez, mantém os níveis de açúcar altos na boca o dia inteiro, e fazem muito mais mal.

Atualmente não é nenhum segredo que doces, refrigerantes e sucos de frutas aumentam as taxas de cáries. Mas é menos conhecido ao público geral, que amidos como pão, macarrão e cereais matinais também contribuem para a condição. Dentistas da Universidade de Göteborg (Suécia) usaram uma variedade de alimentos ricos em amidos: chips de batata, chips de queijo (sem açúcar) e biscoitos doces, e mediram os níveis de acidez na boca juntamente com quanto tempo os alimentos permaneciam nela [2]. Descobriram que, enquanto comidas açucaradas auementam a acidez da boca mais que os amidos durante os primeiros 30 minutos, todos as três guloseimas foram piores que o açúcar após algum tempo. Eles concluíram que isso foi devido ao fato de comidas amiláceas não estimularem tanto a produção de saliva que limpe o amido da boca.

A maioria da pesquisa já mostrou que carboidratos de todos os tipos aumentam as cáries, mas muito menos trabalhos foram feitos para identificar alimentos que podem ter efeito protetor. Investigações recentes estão mudando isso.

Um dos alimentos que tem declinado em anos recentes, é o queijo. Queijo não é percebido como "saudável" por causa da quantidade de gordura e sal que contém. Mas parece que essa crença terá que ser mudada, pois pesquisas feitas sugerem que queijo ajuda a evitar cáries se for o alimento final de uma refeição. Uma revisão de literatura conduzida em 1991 observou as várias teorias sobre o motivo disso acontecer. Diversos mecanismos foram propostos [3]: mastigar queijo estimula o fluxo de saliva; a natureza alcalina da saliva neutraliza os ácidos formados na placa; a taxa aumentada de limpeza do açúcar devida à ação diluente da saliva estimulada pelo queijo. Pesquisas também sugeriram que mastigar queijo possa reduzir os níveis de bactérias causadoras de cáries; o maior problema do leite, a caseína, reduziu a quantidade de cálcio removida dos dentes pelas bactérias; a grande quantidade de cálcio e minerais da caseia concentrou o cálcio e o fosfato na placa.

Em 1999, essa evidência foi confirmada a reforçada quando um time de pesquisadores da Escola de Odontologia de Newcastle upon Tyne deu aos leitores do Jornal Odontológico Britânico um presente de natal: a edição de 25 de dezembro trazia um artigo mostrando que queijo cozido aumentava o nível cálcio na placa e ajudava a proteger contra cáries [4].

Por último, uma revisão feita por dois cientistas do Instituto Forsyth, em Boston, mostrou que leite e queijo poderiam reduzir os efeitos dos ácidos metabólicos, e poderiam ajudar a restaurar o esmalte perdido durante a alimentação [5]. Em um estudo revisado pelo time do Instituto, comedores de queijo tiveram 71% menos danos ao esmalte ao longo do tempo.

A proteção dentária do queijo é um balé molecular complexo, envolvendo o cálcio do queijo, um aumento da saliva pela mastigação, e a habilidade do queijo de restaurar esmalte. Como acontecido anteriormente com o chocolate e o vinho, o queijo, antes vilificado, está agora recebendo redenção à medida que os pesquisadores reconhecem que mesmo alimentos aparentemente não-saudáveis têm seus pontos bons. Um quarto de século de estudos dentários provam que um dos nossos "prazeres com culpa", o queijo, na prática previne cáries. Dada essa informação, consumidores podem ser motivados a usar queijo e leite para reduzir o reverter os efeitos cariogênicos de muitas outras comidas.

Arcos dentários e dentes desalinhados


Assim como em relação às cáries, o Dr. Weston Price também percebeu que crianças de povos que tinham sido influenciados pelas idéias dietéticas ocidentais tinham deformidades faciais e nos arcos dentários [6]. Essas apareciam como rostos estritos, narizes estreitos com narinas mais fechadas, e dentes tortos, desalinhados ou encavalados. Tais condições foram associadas com alta ingestão de alimentos ricos em amido e grande redução do consumo de laticínios.

Olhe à sua volta hoje em dia, e veja quantas crianças e mesmo jovens adultos usam aparelhos nos dentes em um esforço para corrigir o problema. Mas enquanto os aparelhos dentários podem disfarçar o efeito, eles não solucionam outros problemas tais como inspiração restrita através de passagens nasais estreitas.

Referências


  1. Price, Weston A. Nutrition And Physical Degeneration: A Comparison Of Primitive And Modern Diets And Their Effects. Paul B. Hoeber, Inc, New York, London, 1939. 
  2. Lingstrom P, Birkhed D. Plaque pH and oral retention after consumption of starchy snack products at normal and low salivary secretion rate. Acta Odontol Scand 1993; 51: 379-88. 
  3. Herod EL. The effect of cheese on dental caries: a review of the literature. Aust Dent J 1991; 36: 120-5. 
  4. Moynihan PJ, Ferrier S, Jenkins GN. The cariostatic potential of cheese: cooked cheese-containing meals increase plaque calcium concentration. Br Dent J 1999; 187: 664-7. 
  5. Kashket S, DePaola DP. Cheese consumption and the development and progression of dental caries. Nutr Rev 2002; 60: 97-103. 
  6. Price, Weston A. Op cit.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

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Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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