Aquele artigo sobre "low-fat vence low-carb"

Artigo traduzido por Antônio Junior. O original está aqui.

por Tom Naughton

Eu teria que fazer estatística com meus arquivos do Outlook para dizer com certeza (e não vou fazer isso), mas desta vez pode ter sido o novo recorde para o número de emails do tipo "Você viu isso ?!" que recebi. 

Se você acompanha as notícias de saúde (e se você não foi a um retiro no deserto ou ficou sem internet na semana passada), você já sabe de um novo estudo que declarou que baixo teor de gordura bate low-carb para perda de peso... de uma vez por todas, fim da história, a palavra final, circulando pessoal, nada a ver por aqui. Vejamos alguns tratamentos dados pela mídia.


Cortar a gordura da sua dieta leva à perda de mais gordura do que a redução de carboidratos, um estudo de saúde dos EUA mostra. Os cientistas analisaram intensamente pessoas em dietas controladas ao inspecionar cada pedaço de comida, minuto de exercício e respiração. Ambas as dietas, analisados pelos Institutos Nacionais de Saúde, contribuíram para a perda de gordura quando as calorias foram cortadas, mas as pessoas perderam mais quando eles reduziram a ingestão de gordura.


Buscando resolver o debate, os cientistas dos Institutos Nacionais de Saúde criaram um experimento muito detalhado e um tanto incomum.
Eles colocaram 19 adultos obesos (que estavam com mais ou menos o mesmo peso e tinham o mesmo índice de massa corporal) em uma unidade de internação em centro clínico do NIH, por intervalos de 2 semanas.
Durante os primeiros 5 dias de cada visita, os voluntários receberam uma dieta basal de 2.740 calorias que foi de 50% de carboidratos, 35% de gordura e 15% de proteína. Esta não era muito diferente da que comiam antes. Mas nos próximos seis dias, a eles foram dadas quer uma dieta de baixo teor de gordura ou uma dieta low-carb, cada um com 30% calorias. Cada participante foi também convidado a exercitar-se durante uma hora por dia, na esteira.
Depois de analisar tudo o dióxido de carbono e nitrogênio eles liberavam a partir de seus hormonios e níveis de metabólitos, os pesquisadores concluíram que caloria por caloria, dietas de baixa gordura vencem as dietas de baixo carboidrato.


Baixo teor de gordura ganha com folga? Deve ter sido mesmo uma vítória esmagadora a demonstrada nesses resultados.

É um dogma central do estilo de vida low-carb: que enquanto evitar carboidratos irá forçar o corpo humano o modo de queima de gordura, qualquer dieta que falhe em suprimir a insulina irá travar a gordura corporal no lugar e frustrar a expectativa de um praticante de dieta de tornar-se mais magro, com um corpo mais saudável.
Mas os pesquisadores do National Institutes of Health descobriram que o credo sagrado de acólitos Atkins não é realidade no laboratório metabólico, onde o dietante não pode enganar e quocientes respiratórios não mentem.

Por isso, foi a dieta de Atkins, que levou uma chicotada da low-fat. Repito: A dieta Atkins. Eu não sei quanto a vocês, mas eu entendo que isso significa que eles adotaram a dieta prescrita pelo Dr. Atkins.

E quanto tempo as dietas duraram? Vamos verificar o LA Times novamente:

À medida que os 19 indivíduos recrutados para o estudo fizeram dieta pelas 4 semanas de low-carb e low-fat, Hall e seus colegas conduziram varreduras do cérebro e outros testes para observar como dietas com composições nutricionais diferentes afetavam seu estado de espírito, motivação e sentido de satisfação.
Meu Deus... Eles fizeram dieta por 4 semanas de low-carb e low-fat, de acordo com o LA Times. Suponho que isso significa que os indivíduos estiveram em dietas com duração de 4 semanas. Isso deveria ser suficiente para diferenças reais surgir.

Mas espere um momento... Me lembro do Washington Post descrevendo as dietas de maneira um pouco diferente...

Mas nos 6 dias seguintes, foi dada a eles quer uma dieta de low-fat ou uma dieta low-carb, cada uma com 30% menos calorias.

Hmmm, parece que temos histórias conflitantes aqui. Quatro semanas vs. seis dias em cada dieta. Talvez devêssemos verificar o estudo em si – o que eu fiz. Depois de lê-lo, suspeitei que temos um caso de "vamos projetar um estudo para produzir os resultados que queremos". Na verdade, não consigo evitar imaginar a conversa:

– Ok, Jenkins, pegue seu laptop e vá para o meu escritório. Precisamos projetar um estudo bom, sólido, científico para resolver esta questão low-fat contra low-carb de uma vez por todas.
– Excelente, senhor. Você quer dizer que em uma ala metabólica e tudo?
– Exatamente. Vamos começar com a parte low-fat.
– Bem, senhor, a definição usual de uma dieta de baixa gordura é inferior a 30% do total de calorias, então eu suponho que nós deveríamos...
– Não seja ridículo, Jenkins. Se nós estamos indo low-fat, vamos realmente ir low-fat!
– Ahh, entendi. Algo como a dieta very low-fat que o Dr. Ornish empurra. Ok, 10% do total de calorias, então.
– Droga, Jenkins, você não está ouvindo! Eu disse realmente low-fat! Vamos descer para, digamos, 7,7% do total de calorias provenientes de gordura.
– Assim, uma dieta que ninguém jamais iria seguir voluntariamente na vida real por qualquer período de tempo, então?
– Correto. Agora, para o lado low-carb das coisas...
– Isso é fácil, senhor. Os livros do Atkins recomendam começar em 30g de carboidratos por dia, então...
– Que terror, homem, não podemos colocar seres humanos em uma dieta tão extrema!
– Mas...
– Então nós vamos com 140g por dia, incluindo, por exemplo, 37g de açúcar. Isso deveria ser uma comparação justa para os nossos propósitos.
– Mas isso é o dobro de carboidratos por dia do que a dieta Atkins recomenda, mesmo na fase de manutenção. Precisa ser menos, ao começar uma...
– Bem, é complicado, Jenkins, então deixe-me explicar desta forma: Cale a boca.

Na verdade, a explicação não é particularmente complicada. Aqui está uma citação do estudo completo:

Dada a composição da dieta basal, não foi possível conceber uma dieta isocalórica muito pobre em carboidratos sem também a adição de gordura ou de proteína. Decidimos contra uma abordagem deste tipo devido à dificuldade de se atribuir quaisquer efeitos observados da dieta à redução de carboidrato, em oposição à adição de gordura ou de proteína.

Em outras palavras, eles não queriam adicionar ou remover a proteína de qualquer dieta, e eles não queriam adicionar gordura à dieta low-carb ou carboidratos à dieta low-fat. Eles queriam comparar restrição de carboidratos à restrição de gorduras sem outras alterações, no período.

Certo, tudo bem. Mas, nesse caso, a dieta "low-carb" não é nada parecida com a dieta low-carb recomendada pelos livros do Atkins, ou por quaisquer médicos que promovem dietas low-carb. Portanto, a conclusão precisa e/ou título deveriam ser algo como "dieta low-fat extrema produz mais perda de gordura do que uma espécie-de, tipo-de, quase dieta low-carb... ao menos quando as dietas duram 6 dias".

Yup, 6 dias. A descrição do Washington Post de duração foi precisa. O L. A. Times entendeu errado. Com base nesses 6 dias, os pesquisadores então descrevem em seu artigo como modelos de computador prevêem perda substancialmente de mais gordura para o grupo low-fat, se ambas as dietas durarem 6 meses.

Ã-hã. Eu ponho isso na mesma categoria do Al Gore reivindicando que seus modelos de computador podem prever com precisão o clima em 2050... ainda que esses modelos não previram com precisão os últimos 10 anos. Eu sou um programador, então confie em mim: modelos de simulação de computador dizem o que você diz a eles para lhe dizer. A única maneira pela qual vamos realmente saber o desempenho dessas dietas em mais de 6 meses é manter as pessoas nelas por 6 meses.

E nós também queremos mais que 19 pessoas envolvidas. Eu só escrevi um post na semana passada demonstrando o quanto o acaso pode criar diferenças "significativas" em pequenos grupos de estudo. 19 pessoas, dietas que duraram gritantes 6 dias... Eu não apostaria nesses resultados sendo reproduzidos com grandes grupos ao longo de longos períodos de tempo.

Mas sobre esses resultados... o Los Angeles Times assegurou-nos que a dieta low-fat supera a (aham) dieta "low-carb" com folga. Então, quais foram as grandes diferenças nos resultados?

Bem, as pessoas na dieta low-fat perderam (em média) 583g corporal. Pessoas na (aham) dieta "low-carb" perderam (novamente, em média) 524g de gordura corporal. A diferença foi, portanto, de 59 gramas. Se você não acredita que o acaso possa produzir uma diferença trivial dessas em um grupo de estudo de 19 pessoas colocadas em dietas com duração de 6 dias, eu sugiro que você tome umas aulas de estatística.

Mas espere... eu disse 19 pessoas ? Bem isso não é exatamente verdade. De acordo com o artigo, 19 pessoas estavam inscritas no estudo – 10 homens e 9 mulheres. O estudo teve um desenho cruzado, o que significa que todo mundo vai para uma dieta, depois volta à alimenta normal por algumas semanas, e depois vai para a outra dieta. Eles são aleatoriamente atribuídos a uma ou outra dieta, no início.

Mas a tabela de resultados mostra n = 19 para o (aham) "low-carb" dieta e n = 17 para a dieta low-fat. Isso significa que dois indivíduos não completaram a dieta low-fat. Então eu não consigo evitar perguntar o motivo de os pesquisadores simplesmente não lançarem os resultados para essas duas pessoas a partir do estudo completo. Por que calcular seus resultados na (aham) dieta "low-carb" na média, se não terminaram a outra dieta? Eu pensei que o objetivo aqui era uma comparação cabeça-a-cabeça das mesmas pessoas em diferentes dietas.

Eu também não consigo deixar de me perguntar por que, dado o pequeno grupo, os pesquisadores simplesmente não nos mostram os resultados completos para todos. Em estudos com centenas de indivíduos, é praticamente certo que você precisa apresentar resultados da média do grupo, para que os números façam sentido. Mas, para as 17 pessoas que completaram ambas as dietas, caramba, mostrem resultados de todos e mantenham as médias na parte inferior da tabela. Se algumas pessoas perderam muito mais peso na low-fat vs. low-carb ou vice-versa, valeria a pena saber. Também valeria a pena saber se um ou dois valores extremos enviesaram as médias dos grupos.

Bem, parece que aconteceu. Achei isso no artigo:

Os dados foram analisados utilizando um modelo misto de medidas repetidas controlando para efeitos de sexo e ordem e são apresentados como média de mínimos quadrados ± desvio padrão. Os valores de p referem-se aos efeitos da dieta e não foram corrigidos para as comparações múltiplas. Um indivíduo do sexo feminino teve uma mudança de dados de percentual de gordura corporal DXA que não eram fisiológicos e claramente discrepantes, então esses dados foram excluídos das análises.


Uh ... ok. Eu com certeza gostaria de ver esses resultados individuais, no entanto.

Todas essas queixas de lado, houve alguns resultados interessantes nas tabelas do estudo (de novo, tendo em mente os pequenos grupos e a curta duração). Durante as dietas de 6 dias, triglicérides diminuiu 17.5 pontos no (aham) no grupo "low-carb", e de 4.3 pontos no grupo de low-fat. Para colesterol total, a queda foi de 8.47 pontos no (ahaam) grupo "low-carb" e 19.1 pontos no grupo de low-fat. HDL diminuiu 2.67 pontos no (aham) grupo "low-carb" e 7.27 pontos no grupo low-fat.

Então, se baixos triglicérides e HDL alto são indicadores da saúde do coração (e se estes resultados são realmente significativos), eu fico com uma dieta low-carb... mas com mais gordura, muito obrigado, porque eu quero o meu HDL alto, não baixo.

Os resultados eu achei mais interessante foram para glicose e insulina. No (aham) grupo "low-carb", glicose caiu em uma média de 2.69 pontos... mas no grupo de baixo low-fat, glicose caiu 7.1 pontos. Portanto, é claramente possível reduzir os níveis de glicose com uma dieta very low-fat, apesar da alta ingestão de carboidratos, se as calorias são restritas o suficiente.

Este estudo foi alardeado pelas brigadas anti-Taubes como uma refutação da hipótese da insulina, mas as tabelas mostram muito pouca diferença nos níveis de insulina. O (aham) grupo "low-carb" mostrou uma queda na insulina de jejum de 2.76 pontos, enquanto o grupo low-fat mostrou uma queda de 2.04 pontos. No entanto, é aqui como os pesquisadores descreveram a diferença:

As dietas experimentais com energia reduzida resultaram em diferenças substanciais na secreção de insulina, apesar de serem isocalóricas.

Hmmm ... Eu estou pensando que há uma razão para eles escolherem a palavra "substancial" em vez de "significativo". Vamos verificar as tabelas de novo .... Yup, o valor p (RC versus RF) para a mudança de insulina de jejum é 0.48. O limiar de "estatisticamente significativo" é 0.05 ou menos.

Assim, a diferença aqui não foi nem perto de significativa – em um estudo que algumas pessoas estão ostentando por aí como prova de que os níveis de insulina não são um fator na capacidade de perder gordura corporal... talvez porque leram o que escreveram os pesquisadores em suas conclusões, ao invés de verificar as tabelas do estudo.

E, a propósito, o valor p (RC versus RF) para a mudança na gordura corporal foi 0.78 – por isso, a menos que eu esteja interpretando mal o significado do valor de p (RC versus RF), gostaríamos de interpretar isso como "estatisticamente, as chances desta diferença dever-se inteiramente ao acaso são de 78% ."

Dentro das limitações óbvias, o estudo mostra que restringir calorias pode produzir uma queda na insulina, mesmo quando a contagem global de carbs permanece a mesmo. Portanto, não é tão simples como ingestão de carboidratos = nível de insulina em jejum. A ingestão total de energia influi também.

Dito isto, seria muito, muito interessante ver quais as diferenças nos níveis de insulina (entre outros resultados) foram se 1) o estudo corresse por muito mais tempo, 2) houvesse mais de 17 pessoas que completaram ambas as dietas, e 3) a dieta "low-carb" fosse realmente low-carb e não incluísse 37g de açúcar por dia.

Eu acredito que a notícia menos publicitário, e mais substancial sobre o estudo apareceu em um artigo publicado na revista on-line da Forbes:

Mas um novo estudo bem controlado descobre que – pelo menos em laboratório – low-fat pode ser um pouco melhor para a perda de peso a longo prazo. Isso não significa que todos nós devemos reverter para a insanidade low-fat dos anos 80 e 90. Pelo contrário, a mais valiosa mensagem para levar para casa pode ser que rejeitar carboidratos pode não ser tão necessário para a perda de peso a longo prazo, como muitos de nós acreditamos, e que uma dieta equilibrada em nutrientes é provavelmente a estratégia mais inteligente a longo prazo. E, francamente, qualquer tipo de dieta que seja factível para um indivíduo é provavelmente a que deve ser seguida. Se é mais fácil aderir a low-carb que a low-fat, então então faça. Mas uma dieta equilibrada ainda é rainha.

Bingo. É certamente possível perder peso em uma high-carb, very-low-fat. É possível perder peso em qualquer dieta, se você restringir calorias suficientes. Eu tentei uma dieta estilo Pritikin (10% de calorias de gordura), por duas vezes, e perdi um pouco de peso ambas as vezes – e então eu tive que parar duas vezes porque eu estava mal, com fome o tempo todo, e eventualmente me sentia muito apático e deprimido para continuar. As refeições eram um exercício de disciplina monástica, me entupindo de alimento sem sentido e tentando me convencer de que eu estava bem isso.

Agora eu não estou mal, não estou com fome o tempo todo, e nunca deprimido... o que significa que quando as pessoas alardeiam um estudo como este como "prova" de que uma dieta low-fat é melhor do que um (aham) dieta "Atkins", eu dou boas gargalhadas.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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