Ao vencedor, as batatas!

Estudo deu argumentos contra dietas sem carboidratos  (Foto: Thinkstock/ BBC)Um leitor me mandou um email falando sobre o "novo estudo que mostra que a dieta paleo entendeu tudo errado". O estudo, da Universidade Autônoma de Barcelona, argumenta que os cérebros humanos desenvolveram-se com a ajuda da energia abundante dos carboidratos, quando submetidos ao cozimento.

Aponta ainda para o fato de os humanos serem os primatas com mais amilases (enzimas que quebram amidos) disponíveis. 

Isso tudo invalida a dieta paleo, certo ? Afinal, se vivemos batendo no peito e dizendo que seguimos preceitos evolutivos, então a evolução nos manda comer carboidratos!

Bem, não tão rápido.

Primeiramente, vejamos o que diz a mídia nacional: o G1 alardeia com todas as forças que o "desenvolvimento de nossa capacidade de obter açúcares de amidos sustentou acelerado crescimento do cérebro e contradiz defensores da dieta das cavernas". Obviamente, as imagens que ilustram o artigo são de batatas-fritas e macarrão – comidas certamente muito apreciadas ao longo da evolução da espécie humana. Só que não. Os primeiros relatos históricos do macarrão são do século 1 A.C., e só começamos a fritar batatas no século XIV.

Mas isso não vem ao caso, realmente.

Em primeiro lugar, a Dra. Hardy, autora do tal estudo, não diz em momento algum que os carboidratos foram a única fonte de energia concentrada que permitiu aos nossos cérebros crescer. Quem afirmou isso foi o jornalista cujo cérebro estava precisando de energia :-D Ela diz apenas que foram uma fonte – e não vejo problema algum na afirmação. Quem segue a linha do Mark Sisson, não exclui batatas, mandiocas e inhames do seu cardápio...

Mas continuando: pela argumentação do artigo, os nossos cérebros cresceram quando tivemos acesso a vegetais amiláceos (tubérculos e raízes) processados pelo cozimento: sendo fontes de energia altamente concentradas, teriam permitido cérebros mais potentes. Pela análise de Hardy, a invenção do cozimento (800.000 anos atrás) permitiu que tivéssemos acesso a percentagens maiores de nutrientes dos alimentos (isso é indiscutível!), e assim evoluímos.

Só que um dos principais pontos do artigo, os tais genes que codificam amilases, parecem ter surgido nos humanos cerca de 600.000 anos atrás – ou seja, depois da invenção do cozimento. Ops, deu tilt!

Basicamente é assim:

  1. 800.000 anos atrás: começamos a cozinhar alimentos (carnes, tubérculos, raízes, etc) e nossos cérebros começam a crescer em ritmo mais acelerado
  2. 600.000 anos atrás: desenvolvemos maior capacidade de digerir amidos

Tivemos então 200.000 anos de melhoria cerebral antes de sermos processadores eficientes de carboidratos ? Será então que nesses 200.000 anos os nossos cérebros (que estavam ficando maiores e melhores) "pararam", esperando os amidos ficarem mais abundantes na dieta ? Me parece meio ilógico.

O artigo da Dra. Hardy está sendo usado para mais um bom e velho episódio da falácia do espantalho: dão uma definição errada do que é dieta paleo, e depois preocupam-se em malhar esta definição.

Vou escrever em maiúsculas, negrito e vermelho, para não ficarem dúvidas: PALEO NÃO É "NÃO COMER TUBÉRCULOS NEM RAÍZES". Nunca existiu uma única dieta paleo. E embora os povos "primitivos" contemporâneos não sejam a representação exata de como eram os humanos dezenas ou centenas de milhares de anos atrás, são boas aproximações. 

Cada povo ancestral teve/tem a sua dieta paleo, como já estamos carecas de saber. O exemplo clássico é Kitava, com 60% de calorias vindas dos carboidratos...

O Dr. Loren Cordain, criador do termo "dieta paleo", é contra tubérculos e raízes, assim como é radicalmente contra laticínios. O fato de ele ser um expoente da ciência e ter criado um divisor de águas no quesito "saúde ancestral", não implica automaticamente que ele tem razão em tudo. Cientistas são pessoas, como também estamos carecas de saber. Muitos são desonestos (não acredito que seja o caso do Dr. Cordain), muitos são simplesmente cabeça-dura.

Tome caras como o Mark Sisson e o Chris Kresser, e vai ver que a vertente de paleo que eles adotam é MUITO mais "relax" que a do Cordain. Quer comer batata ? Coma. Apenas não coma QUILOS de batatas, assim como provavelmente os seus ancestrais não faziam (até mesmo porquê as batatas só se transformaram nesses autênticos "purês de amido puro" pela seleção artificial nos últimos séculos).

E uma coisa que quase passa batido: a matéria do G1 é tudo que os anti-paleo queriam: motivo para justificar encherem a cara de pizza e sorvete, ou de pão integral com geléia light – afinal de contas, "dieta paleo é baseada em uma hipótese furada".

Mas tente achar, no artigo original da Dra. Hardy, menção a grãos (grains) e sementes (seeds). Cada palavra aparece exatamente UMA vez. Surpráise! No artigo inteiro ela fala sobre amidos provenientes de TUBÉRCULOS e RAÍZES, e nadica de nada sobre grãos cereais.

Resumindo: se os humanos dependeram dos carboidratos para evoluir (o que pode ser verdade, mas precisa ser pesado à luz do do contra-argumento que fala sobre as amilases), a dependência pode ter sido de batata, mandioca, inhame & cia. Mas não de trigo, milho, centeio, cevada e outras comidas de passarinho.

Parece que depois do "novo estudo revolucionário" da semana passada, esse também veio para somar ao desserviço que a imprensa nos presta. Lembre-se sempre: a verdade não vende (aqui e aqui).

Agora passe as batatas por favor, com muito requeijão e bacon frito!

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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