Como as dietas cetogênicas (pobres em carboidrato, ricas em gordura) funcionam

Artigo traduzido por Roberta Monteiro. O original está aqui.

por Grant Schofield


Um artigo realmente muito bom acabou de ser publicado por Paoli, Rubini, Volek e Grimaldi no European Journal of Clinical Nutrition intitulado “Além da perda de peso: um review sobre o uso terapêutico das dietas very low carb (cetogênicas)"

Você não vai encontrar um artigo de revisão melhor para resumir o mais recente sobre como pensamos que a restrição de carboidratos afeta vários aspectos da saúde metabólica; da perda de peso aos problemas neurológicos, à acne (sim, acne!).

Um segundo excelente artigo de revisão também foi publicado na Nutrition Today pelo Volek (outra vez!) e Phinney, gurus do low carb. Este é se chama “Um novo olhar sobre as dietas restritas em carboidratos: Separando fatos de ficção”. Outra vez este é um excelente artigo científico de revisão.

O que eu deveria estar fazendo neste blog é simplesmente chamar sua atenção paras esses bons trabalhos e você poderia ir e dar um olhada você mesmo.

Só que eu sei que a menos que você trabalhe em uma universidade, isso é mais faácil falar que fazer. Você teria que comprar os artigos, o que significa que a maioria das pessoas que se beneficiariam do conhecimento não vão.

Na verdade, publicações copyright são fraudes da pior ordem. O que acontece é que caras como Volek e Phinney realizam pilhas de trabalho, e frequentemente esse trabalho é pago por por instituições públicas, ou por fundos de pesquisa pagos por fundos públicos. Eles então (geralmente) são escravizados no degradante processo do peer reviewed, muitas vezes tendo que responder a comentários inanes e a refutações infinitas. Quando terminam, assinam então seu IP em toda a publicação, o que a mantem toda a custo zero (e todo o lucro) para a perpetuidade. Você consegue imaginar isso acontecendo em qualquer outro lugar além do mundo acadêmico? É engraçado, mas isso é o que realmente acontece a nós, acadêmicos, todos os dias, e francamente, já não achamos mais engraçado.

De qualquer forma, estou divagando. O que realmente quero fazer aqui é resumir as duas reviews.

Vamos começar com o artigo do Nutrition Today de Volek e Phinney, que é uma boa síntese da evidência disponível da biologia de regulação da energia nos homens e de homeostase, e como funciona uma dieta restrita em carboidratos. Os pontos principais aqui são:

1. Os níveis de gordura saturada no sangue não são associados com a ingestão de gordura saturada na dieta, mas sim com a ingestão de carboidratos. Mostram evidências tanto de ensaios controlados e randomizados quanto de dados populacionais para isso.

2. Eles discutem, em detalhes, o que é o estado de ceto-adaptação (adaptação à gordura); sobre o que se trata, incluindo o aumento da beta-oxidação de gordura, a diminuição da hiperinsulinemia, e uma reorganização da utilização do substrato no corpo, incluindo o uso de cetonas para alimentar o funcionamento do cérebro . É interessante que a maioria de praticantes de dieta, endocrinologistas, cardiologistas, e médicos de saúde pública nunca ouviram nada disso.

3. Eles apontam para o que é um conjunto muito importante e óbvio de resultados, que são bem documentadas na literatura científica; que o tratamento de um paciente com resistência à insulina com uma dieta de baixa gordura/alta carboidrato é paliativo e vai piorar o problema. Se você estiver com problemas com glicose nas células, então reduza a carga de glicose, estúpido!

4. Eles mostram um ótimo diagramazinho, que eu reinterpretei e redesenhei aqui abaixo, para mostrar do carboidrato da dieta na (dis)função metabólica. Para citar os autores “O ponto principal é que os SFAs (ácidos graxos saturados), e a resposta aos ovos, têm um comportamento metabólico totalmente diferente quando consumidos no contexto de um dieta low-carb.”


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5. Mostram um planejamento nutricional de uma típica refeição low-carb. Isto é excelente porque mostra os alimentos reais e saborosos dos quais estamos falando.

Ingestão de 2500 kcal diárias, restringindo carboidratos

Café da manhã (ovos mexidos com espinafre e linguiça)


  • Ovos mexidos: 2 ovos grandes + 1 colher de sopa de óleo de palma
  • Queijo mussarela: 28g
  • Linguiça de porco: 2 pedaços (48 g)
  • Espinafre congelado fatiado, cozido: 3/4 de xícara (142.5 g) + 1,5 colher de sopa de manteiga

Lanche


  • 1/2 abacate: 67 g
  • Queijo suíço: 56 g

Almoço (salmão grelhado e salada)


  • Salmão grelhado: 112g + 1 colher de sopa de manteiga
  • Mix de mini verduras: 2,5 xícaras
  • Tomates picados: 1/4 de xícara
  • Cebola picadinha: 1/8 de xícara
  • Queijo Feta: 28g
  • Azeitonas pretas e verdes: 4 de cada
  • Molho de gorgonzola: 1,5 colher de sopa

Lanche


  • Amendoins torrados: 28g
  • Leite de vaca: 1/2 xícara

Jantar (Contra-filé com cogumelos salteados e purê de couve-flor)


  • Bife de contra-filé: 85g
  • Azeite de oliva: 1,5 colher de sopa
  • Cogumelos salteados: 1/4 de xícara
  • Spray de azeite de oliva para cozinhar
  • Purê de couve-flor: 1 xícara de couve-flor cozida + 28g de queijo cheddar ralado + 1 colher de sopa de manteiga
  • Gelatina sem açúcar: 1/2 xícara (121 g)

Macronutrientes:


  • Proteína: 134 g
  • Carboidratos: 42 g, 20g de fibra
  • Gordura: 204 g
  • Colesterol: 853 mg
  • Ácidos graxos saturados: 81 g
  • Ácidos graxos monoinsaturados: 78 g
  • Ácidos graxos poli-insaturados 28 g

Reproduzido de Volek e de Phinney (2013), Nutrition Today

Agora, no segundo artigo do European Journal ofClinical Nutrition intitulado “Além da perda de peso: um review sobre o uso terapêutico das dietas very low-carb (cetogênicas)”. Esta é uma revisão científica detalhada da evidência e a evidência emergente do tratamento e da prevenção de uma gama de doenças crônicas com uma dieta restrita de carboidratos (cetogênica). Eu adaptei uma de suas figuras em duas novas outras, mostrando o estado da evidência científica (forte e emergente separadamente) para “usos terapêuticos da dieta cetogênica”. 

Chamo a sua atenção para os “mecanismos sugeridos” abaixo de cada uma. Não vou me aprofundar nesses detalhes mas vale a pena olhar estas duas figuras e notar algumas coisas:

1. As dietas restritas em carboidrato são abordagens legítimas e bem-documentadas para o tratamento de larga gama de problemas.

2. Há mecanismos comuns, na maior parte a respeito da redução da carga de insulina com a qual o corpo tem que lidar. Isto é porque o corpo tem que descartar menos carboidratos da dieta. Este ponto é aparentemente é extraviado na maioria do campo de prevenção e tratamento de doenças crônicas. Hiperinsulinemia é por si só, um problema. Reduzindo o carboidrato, melhora.

3. Há também mecanismos associados com a insulina elevada. Há problemas com fatores de crescimento semelhantes à insulina, com a função mitocondrial, e com inflamação.


Adaptado da figura original por Paoli et al.
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Adaptado da figura original por Paoli et al.
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Agora, há fortes evidências que mostram que as dietas low-carb são tratamentos seguros e eficazes para diversas circunstâncias, e tem alguns prováveis efeitos positivos em outras condições.

Então é isso. Dois grandes artigos. Tomara que eu tenha capturado a essência do que eles estão dizendo e do que a evidência mostra. Isto é importante que seja divulgado ao público e à comunidade de saúde. Enquanto estiver tudo por trás dos jornais pagos, não será divulgado. Espero que isso ajude.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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