Eixo HPA: Estresse Metabólico e Amenorréia Hipotalâmica

Artigo traduzido por Juliana Whately. O original está aqui.

hypothalamic amenorrhea by stefani


O eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal (HPA) é um dos principais contribuintes para uma saúde reprodutiva ruim. A glândula pituitária (hipófise) diz aos órgãos reprodutivos o que fazer e o hipotálamo diz à glândula pituitária o que fazer. Se o hipotálamo levanta a placa de "pare", os níveis de hormônios sexuais caem.

Pior ainda, quando este sinal de pare está ligado, as adrenais produzem cortisol – que influencia a atividade de ambos hipotálamo e glândula pituitária. 

A amenorreia hipotalâmica – ou a perda da menstruação via distúrbio do eixo HPA – afeta 5% das mulheres em idade reprodutiva. Eu suspeito que mulheres com AH subclínica pelo menos dobrem esse número. Muitos problemas surgem como resultado da desregulação do eixo HPA que não vão tão longe quanto a AH. 

O eixo HPA é desregulado por todos os tipos de estresse. O estresse agudo é superado facilmente, já que o eixo HPA é normalmente estável e construído de fato para otimizar a resposta de um indivíduo ao estresse. Mas o estresse crônico está – como sabemos todas – a um fio de cabelo de distância de ser francamente insidioso.

Estressores crônicos, ainda, são divididos em categorias ainda mais particulares: estresse psicológico de um lado e o estresse metabólico de outro. 

Estresse psicossocial é causado por fatores mentais, emocionais e sociais. Estresse metabólico é causado por viver em um déficit de energia, que por sua vez é causado por restrição calórica e excesso de exercício. Basicamente, qualquer coisa que prive o corpo de uma mulher de calorias é um estressor metabólico.

Este post vai focar em estresse metabólico. Vou tratar o estresse psicossocial e como esses dois estão inter-relacionados no post seguinte.

A patologia da amenorreia hipotalâmica em geral


O ponto do eixo HPA é para mobilizar metabolicamente os indivíduos em circunstâncias de estresse. Então, neles, os níveis de estresse sobem – o que pode te energizar!

Em situações de estresse, o hormônio do estresse aumenta e os hormônios sexuais caem.

Num estudo, o grau de comprometimento dos ovários de mulheres estressadas tinha uma relação inversa precisa com os níveis de cortisol observados. Isso é bastante surpreendente. O que o cortisol faz é realizar uma reação negativa no hipotálamo, de tal modo que o hipotálamo libera GnRH (hormônio liberador da gonadotropina) em quantidades diminuídas. Sem GnRH, a hipófise não recebe o sinal para seus próprios hormônios. Estes incluem LH e FSH, hormônios que sinalizam de volta para os ovários quanto estrogênio eles devem produzir de acordo com que fase do ciclo estiver.

A pituitária também é responsável pela secreção de hormônio estimulador da tireóide (TSH). Normalmente, os níveis de TSH aumentam ou diminuem em resposta a mudanças no T3 e T4 no sangue. Na AH, a pituitária nunca recebe estes sinais, então os níveis de TSH não aumentam quando deveriam. Além disso, devido à AH, os padrões de secreção do hormônio do crescimento, prolactina e melatonina variam. Isso é problemático por uma série de razões, algumas delas são sono, reparação tecidual e desenvolvimento hormonal.

Eis o resumo do que é o estresse e a cascata hormonal. Hormônios são produzidos como dominós. Se alguma coisa acontece de errado no início, nenhum dos dominós vai cair da maneira esperada.

Exercício, perda de peso e estresse metabólico


Quando comparadas com mulheres que menstruam normalmente, mas sedentárias, as atletas amenorréicas demonstram menor secreção de progesterona, menores pulsos de LH da hipófise em um dia e níveis mais altos de cortisol. Atletas com amenorreia que são anovulatórias tem o menor número de pulsos de LH em um dia de todos os grupos de mulheres e maior nível de cortisol, apesar dos níveis comparáveis de esforço e aptidão entre estas atletas e outros. 

Isso tudo é para dizer que as atletas apresentam maior risco de amenorreia.

Embora ambos os tipos de estresse sejam importantes para os ovários, não há dúvida de que o exercício e a perda de peso servem como estressores por si só. 

Em macacas treinados para correr, demonstrou-se que a suplementação calórica inverteu a anovulação induzida por exercícios. Curiosamente, as macacas não desenvolveram espontaneamente um aumento compensatório no apetite e tiveram que ser subornadas com doces coloridos para consumirem mais calorias. O eixo HPA estava hipo-regulando sua vontade de comer. Estudos em mulheres também indicam que o exercício e a perda de peso causam anovulação, provavelmente através da menor liberação de GnRH. 

Uma equipe de pesquisadores, Louks e Thurma, quantificou a quantidade de restrição de energia (ausência de estresse psicossocial) necessária para afetar a liberação de GnRH em mulheres que menstruam normalmente. Eles alimentaram as mulheres com uma estase de energia de 45kcal/kg de massa corporal média por dia. Isso equivale a cerca de 2.200 calorias para uma mulher que pesa 50 quilos. Eles administraram déficits graduais de energia diárias de 10, 25 ou 35kcal/kg. Isso gera valores absolutos para uma mulher de 50kg de 1.750 calorias/dia, 1.000 calorias/dia e, em seguida, 500 calorias/dia. Um déficit de energia de 33% não mostrou impacto na frequência dos pulsos de LH após 5 dias, e um déficit de energia de 75% mostrou uma diminuição de 40% no LH em 5 dias. 

Eu imagino que ambos os números seriam mais significativos com períodos de tempo mais longos. Muito mais significativo. Para todos os déficits de energia os níveis de cortisol aumentaram. Na redução de 75%, os níveis de cortisol aumentaram 30%. Para as mulheres que tiveram os mais baixos níveis de progesterona no início do estudo, os níveis de cortisol e de redução do LH foram muito maiores. 

A maioria das mulheres, eu imagino, que entram em tais déficits foram obrigadas, mas os escolhem. Isto indica que elas estão sob uma grande dose de estresse, assim como as mulheres "estressadas" testadas neste estudo, provavelmente mais próximas da maioria das mulheres reais americanas.

A questão permanece: Será que é o estresse do exercício ou o déficit de energia que altera a pulsabilidade do LH em mulheres que se exercitam?

Esta questão fundamental talvez tenha sido respondida por estudos controlados em que as mulheres se submeteram à restrição calórica na dieta imposta em face da crescente demanda de exercício. Parece que a pulsabilidade do LH não é interrompida pelo estresse de exercício, mas sim pela disponibilidade reduzida de energia

Com o aumento de calorias, as mulheres não experimentam perturbação do LH tanto quanto quando elas não atendem às suas necessidades calóricas. Presumivelmente, então, a ingestão de calorias suficientes realmente ajudariam a atenuar o problema para as mulheres que sofrem de AH induzida pelo exercício. De acordo com esta série de estudos. 

Honestamente, eu não estou convencida. Os músculos se rompem e crescem, e qualquer reparação que ocorre nas articulações e outros tecidos envolve a ativação de respostas inflamatórias. O cortisol anda junto com eles. Se o exercício e o cortisol resultante é significativo o suficiente, a suplementação com calorias pode não curar tudo. Além disso, o estresse psicossocial que acompanha o excesso de exercício desempenha um papel. Além disso, a função da tireóide pode sofrer impacto negativo pela tentativa de compensar a flutuação da ingestão calórica. E, finalmente, acho improvável que as mulheres fora de estudos controlados saibam exatamente o quanto elas precisam adicionar em suas dietas, a fim de alcançar o equilíbrio adequado.

Implicações bioquímicas do gasto energético excessivo


O desequilíbrio metabólico ocorre quando o gasto energético supera a ingestão de energia. Isto é importante para o nosso corpo, por isso há muitos sinais diferentes (e redundantes) para o cérebro dos sistemas metabólicos. Isso torna difícil descobrir qual sistema faz exatamente o quê e qual é o mais importante para estudar essas questões. Sinais que refletem as reservas de energia, informação nutricional recente e classes específicas de nutrientes estão integrados no sistema nervoso central, particularmente no hipotálamo, para coordenar consumo e gasto energético. Deficiência energética crônica altera o funcionamento da tireóide para desacelerar o metabolismo e corrigir o balanço energético negativo.

A suposta supressão de apetite e sinais de saciedade incluem cortisol, CRH, insulina, glicose, resistina, a leptina, POMC (pró-opiomelanocortina), transcrito regulado pela cocaína – e anfetamina – CART, peptídeo YY e o peptídeo semelhante ao glucagon 1. 

Os hormônios provenientes de células adiposas envolvidos na regulação da energia incluem leptina, adiponectina e resistina. A leptina é o sinal de energia dominante a longo prazo informando o cérebro das reservas de gordura – é também um sinal de saciedade. É uma grande coisa e para mulheres com desregulação do eixo HPA, ter muito ou pelo menos uma boa sensibilidade a ela; é útil. 

A adiponectina atua como um agente de sensibilização à insulina, reduzindo a produção de glicose hepática (fígado). Esta, em contrapartida à leptina, está reduzida na obesidade. A resistina está ligada à tolerância à insulina e diminui a absorção de glicose por células adiposas. A grelina é produzida pelo aparelho gastrointestinal. Os níveis plasmáticos de grelina sobem durante o jejum e imediatamente antes das refeições e depois caem dentro de uma hora após a ingestão de alimentos, o que sugere que a grelina é importante para o início da refeição.

Os níveis de resistina se correlacionam com níveis de cortisol livre, indicando que em estados de estresse o organismo está tentando sensibilizar o corpo à insulina. A adiponectina se correlaciona com a sensibilidade à insulina também, particularmente em estudos de seres humanos deprimidos. Nas mulheres, os níveis de grelina aumentam tanto na anorexia nervosa quanto na amenorréia do exercício. Não há surpresa nisso. Quanto maior o déficit de energia, mais o corpo quer comer.

A leptina é crucial. É importante ressaltar que as mulheres que sofrem principalmente de estresse psicossocial e não de estresse metabólico recuperam da AH sem alterar o peso ou os níveis de leptina. O que isto nos diz é que a leptina é um problema principalmente para as mulheres que sofrem déficits de energia. Estudos em roedores, assim como de mulheres, indicam que o aumento da leptina e de sensibilidade a ela induz a regularidade. Quando os ratinhos recebem injeções de leptina durante um jejum, por exemplo, os ciclos continuam com a duração adequada. Sem leptina, no entanto, seus ciclos se tornam mais longos e irregulares.

Como aumentar os níveis de leptina


A leptina é produzida por células de gordura. Alguns outros tecidos tembém a produzem, mas não tão significativamente. Baixa gordura corporal é um problema muito significativo para a amenorreia hipotalâmica. Isto é indicado pelo fato de que, embora muitas mulheres atléticas experimentem AH, as mulheres que participam de esportes que exigem físicos mais finos têm taxas muito maiores de AH.

Dependendo do tipo de esporte e nível de competição, a incidência de amenorreia varia de 5 a 25%. As taxas de AH em esportes que exigem baixo peso corporal são tão elevados quanto 6-43% no balé e 24-26% em corrida de longa distância. Nos esportes menos rigorosos, como ciclismo e natação, as taxas de AH são ambos 12%. 

Tudo isso é para dizer que baixa gordura corporal é um sinal claro de que o corpo está passando por um déficit de energia. Quando este é o caso – isto é, quando o corpo está funcionando em déficit – ele pensa que está passando fome. 

Não, desculpe, ele não pensa que está passando fome. Ele está passando de fome. Então, todos os hormônios da saciedade – neste caso grelina, resistina e leptina – reunem suas forças e tentam levar o corpo a comer mais. 

Se isso não acontece e se os níveis de leptina são muito baixos, o hipotálamo não receberá o sinal para iniciar a cascata do hormônio reprodutivo.



Tudo isso dito, os fatores que causam, respondem e mitigam a amenorreia hipotalâmica induzida metabolicamente são muitos e complexos. 

No final das contas, eles quase podem ser reduzido a um problema de leptina. Mas a leptina é um problema unicamente por causa da gordura corporal baixa e de déficit de energia (bem como qualquer insensibilidade à leptina, que vou tratar em outro post). Há também as questões de inflamação e estresse que surgem a partir do exercício, bem como o estresse psicossocial – tudo construído nas interações complexas entre o eixo HPA e o corpo como um todo.

A solução é comer todas as coisas. É errar no sentido de comer mais, ao invés de menos. É reduzir o estresse tanto quanto possível. É reenergizar-se o suficiente após malhar.


No próximo post, eu vou falar sobre o estresse psicossocial e como estes dois estão relacionados. Depois eu vou falar sobre como lidar com a amenorreia hipotalâmica.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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