O Dr. Ornish detona as dietas ricas em proteína

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Michael Eades

O Dr. Dean Ornish ataca novamente com um editorial detonando o que ele chama de "dietas ricas em proteína" na edição de hoje do New York Times.

Eu recebi um email logo cedo pela manhã, de uma jornalista sul-africano perguntando sobre o que eu achava sobre isso. Segundas pela manhã são complicadas para mim, então eu pensei em dar uma resposta rápida e não voltar mais ao assunto. 45 minutos depois, eu ainda estava escrevendo. Então imaginei que ao menos postaria aqui o que tinha respondido a ela, para que todos pudessem ler.

Como parece ser de praxe, a postura do Dr. Ornish é suportada por meias-verdades, ofuscação e todos os truques escorregadios do seu livrinho de enganações. Eu não tenho tempo para passar por todo o texto, especialmente numa segunda pela manhã – quando tenho tantas outras obrigações.

Como é usual da parte dele, apóia-se em estudos observacionais ou epidemiológicos para tentar implicar causalidade – e como qualquer cientista decente sabe, eles não são capazes de fazer tal coisa.

Só para mostrar o quão insincero ele é, dê uma olhada em como ele cita as estatísticas do USDA (Departamento Americano de Agricultura) que referencia em seu editorial: 

Extraído do 3o parágrafo do artigo:

Apear de as pessoas terem sido orientadas há décadas a comerem menos carne e gordura, os americanos na prática consumiam 67% mais gordura adicionada, 39% mais açúcar e 41% mais carne em 2000, do que faziam em 1950, e 24.5% mais calorias do que consumiam em 1970, de acordo com o USDA. Não é de surpreender que estejamos mais gordos e doentes.

A mensagem que Ornish quer que o leitor tire disso é que o excesso consumo de carne e gordura estão guiando os problemas de saúde que enfrentamos enquanto nação. Nada poderia estar mais longe da verdade. Mas isso é clássico do Ornish: citar estatísticas e até mesmo dar a referência de onde encontrá-las, e presumir que ninguém vai se importar em lê-las.

Aqui está o que as estatísticas realmente dizem, na publicação citada:

"Apesar de os americanos aparentemente terem relaxado seus esforços para reduzir o consumo 
de gorduras adicionadas, eles estão escolhendo comer gorduras mais saudáveis. Azeite de oliva e 
óleo de canola – ricos em gorduras monoinsaturadas saudáveis ao coração e que reduzem os 
níveis sanguíneos de colesterol ruim – representaram 23% do mercado de óleos para salada e
para cozinharm em 2000, sendo que eram menos de 4% em 1985.

O uso médio de gorduras e óleos adicionados em 2000 foi 67% acima da média anual usada nos
anos 1950 (tabela 2-3). Gorduras adicionadas incluem aquelas usadas diretamente pelos consumidores, 
tais como manteiga no pãp, bem como margarinas e óleos usados em biscoitos comercialmente 
preparados, salgadinhos e frituras. Todas as gorduras naturalmente presentes em comidas tais 
como leite e carne, foram excluídas."


Gorduras adicionadas NÃO incluem a gordura nas carnes e laticínios (veja o grifo em amarelo, acima). Gorduras adicionadas são basicamentes óleos vegetais e margarinas, os mesmos óleos que o Ornish, Neal Barnard, o CSPI (Centro de Ciência em Prol do Interesse Público) e outros representantes da persuasão vegetariana têm promovido continuamente desde os anos 1980. E uma grande quantidade destes óleos é usada em biscoitos e salgadinhos processados. Mas o que Ornish quer que você acredite lendo o editorial, é que tais gorduras vêm da carne.

No mesmo 3o parágrafo, após nos contar que comemos 41% mais carne, ele diz que comemos 24.5% mais calorias do que fazíamos em 1970, implicando é claro, que a maioria destas calorias vêm da carne. Mas vamos ver o que o documento diz na prática:

"Do aumento de 24.5% nas calorias, os grãos (principalmente produtos refinados feitos 
de grãos) contribuem com 9.5%; óleos e gorduras adicionadas, 9%; açúcar adicionado, 4.7%; 
frutas e legumes juntos, 1.5%; carnes e castanhas juntas, 1%; laticínios e ovos juntos, -1.5%"


Mais de 1/3 do aumento calórico (39%, para ser exato) vem do consumo aumentado de grãos refinados, uma mudança da qual o Ornish estaria orgulhoso (leia o seu livro, Coma mais, pese menos, no qual ele basicamente diz às pessoas para comer todas comidas ricas em carboidratos e pobres em gorduras que quiserem, para perder peso).

De fato, o consumo geral de grãos aumentou 45%:

"O consumo médio de grãos anual foi 45% mais alto em 2000, do que nos anos 1970"


Outros 37% do aumento calórico vieram das gorduras adicionadas – que, lembre-se, não é gordura das carnes ou laticínios. É o mesmo óleo vegetal que o Ornish recomenda desde o primeiro dia. E é crescentemente usado junto com os produtos de grãos refinados para fabricar salgadinhos, biscoitos, etc, mencionados previamente.

Os açúcares adicionados respondem por 19% do aumento das calorias.

Se você leu a parte frisada em amarelo acima, viu que a carne e as castanhas juntas contribuíram com 1% do aumento da ingestão calórica. Perceba que carne e castanhas são computadas juntas. Por qualquer que seja a razão, o USDA gosta de colocar carnes e castanhas na mesma categoria. Depois de 15 minutos de pesquisa, encontrei um gráfico publicado pelo USDA que separa os dois. Acontece que desde 1970 o consumo de castanhas aumentou 27%, então eu imagino que o 1% atribuído às carnes e castanhas juntas, deve vir mais das castanhas – uma comida de origem vegetal que Ornish abraça.

Da Pesquisa de Grandes Tendências Dietárias  Americanas, 1970-2005 /  Serviço de Pesquisa Econômica / USDA.


O consumo de ovos e laticínios, que representam uma variação para baixo de 1.5%, é negativo. Então o total de calorias representado pelos alimentos que Ornish condena é na prática um número negativo.

Então, no geral, o que Ornish quer que acreditemos é que o aumento da obesidade e diabetes nos EUA vem do aumento do consumo de carnes e gorduras animais (laticínios); mas as estatísticas do governo americano contam uma história diferente. Aqui está o gráfico que mostra o consumo de gordura ao longo deste período:


"O consumo de gorduras e óleos adicionados aumentou 63% entre 1970 e 2005"

Como qualquer um pode ver, o único aumento na gordura vem dos óleos vegetais – exatamente os que Ornish promove.

Toda essa ofuscação, e estamos apenas no 3o parágrafo. Mas você nem precisa ler até lá. A primeira sentença dele afirma:

Muitas pessoas têm afirmado que os americanos engordaram porque comem muito amido e açúcar, e não comem o suficiente de carne, gordura e ovos. 

Muitas pessoas estão corretas, de acordo com a própria estatística governamental que Ornish apresenta. O consumo de amido e açúcar cresceu muito, enquanto o de carnes na prática não mudou e o de ovos e laticínios diminuiu. Ornish precisa aprender a interpretar os dados que cita.

Gostaria de ter tempo para escrever mais, porque isso é só o iniciozinho. Mas aponta para um padrão muito familiar para quem está familiarizado com o padrão Ornish.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

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Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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