A pílula: o que você precisa saber sobre contracepção oral

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Mark Sisson


Ao longo dos anos eu recebi questões sobre a pílula com frequência constante. Conforme uma leitora comentou, se você torna-se primal e passa por todo o trabalho de normalizar seus hormônios, tomar a pílula desfaz todo o bem ? Os rumores que ouvi são apenas alarde, ou há riscos substanciais ? E sobre tomar a pílula após um longo período de tempo ? Importa se eu tiver 45 e não 25 anos ? Claramente, há um monte de questões e nuances aqui. Vamos ver o que conseguimos fazer para tratar do assunto.

Antes de começar, deixe-me oferecer os reveses razoáveis. Sim, eu sou um homem escrevendo sobre medicação para mulheres – e uma medicação muito pessoal. Eu sei disso. Quero pisar devagar nessas áreas. Para ter certeza, a pílula marcou uma revolução no planejamento reprodutivo. Ela foi a primeira escolha de contracepção conveniente, sobre as quais as mulheres tinham controle absoluto. Eu não quero diminuir o impacto pessoal e social disso. Nem quero ignorar a conveniência e a eficiência que a pílula (quando tomada corretamente) oferece a uma mulher/casal que não querem começar (ou aumentar) a família. Há uma razão para que 100 milhões de mulheres no mundo usem a pílula.

Dito isso, eu acho que a maioria concordaria que estamos olhando para uma questão de saúde legítima, bem como uma intimamente pessoal. Da minha humilde perspectiva, direi no máximo que a comunidade médica prestou um desserviço às mulheres ao não ser mais transparente sobre a contracepção oral (e outras contracepções hormonais) ao longo dos anos. (Permita-me focar nos contraceptivos orais hoje, que são as mais antigos e melhor estudadas forams de controle natal hormonal). As mulheres compreensivelmente tem um monte de questões, questões importantes. O problema é, o assunto com muita frequência por profissionais de saúde bem-intencionados cuja primeira prioridade é respeitar o direito de escolha da mulher sobre o assunto. Sim, muitos fatores pessoais entram na decisão, mas a conversa entre um médico e sua paciente não deveria parar antes que sequer comece. Médicos precisam reconhecer que mulheres importam-se  com as implicações de saúde da decisão.

Como vocês todos sabem, eu sou antes de mais nada um apoiador da transparência completa. As pessoas deveriam ter acesso a todos os detalhes sobre as escolhas que são obrigados a fazer – sejam escolhas envolvendo comida, procedimentos médicos ou medicamentos. Apesar de haver muito a ser dito só sobre o lado medicamentoso dos contraceptivos orais, deixe-me fazer o que posso (no escopo modesto de um artigo de blog) para ao menos colocar a bola para rolar.

O fato é, quando estamos lidando com assuntos do copro, não existe almoço grátis. Eu acho que todos sabemos disso. Tomar hormônios diariamente (sejam naturais, sintéticos ou ambos) vai sem dúvida ter repercussões. O corpo é uma máquina de colaborações e interações afinadas precisamente. A quantidade móvel de hormônios vai ter um efeito correspondente sobre outros hormônios, que por sua vez influenciam uma enorme quantidade de outras funções fisiológicas e secreções bioquímicas. Mas sigamos com os detalhes...

Primeiro, uma pequena perspectiva histórica... A dosagem da pílula de hoje (e há muitas versões por aí) é pequena, comparada à que era produzida nos anos iniciais. As fórmulas mudaram ao longo do tempo para incluir níveis mais baixos de hormônios. A chamada "mini-pílula" não contém nada de estrógeno. Entretanto, os efeitos colaterais ainda existem, em parte porque o corpo humano não mudou e porque novas fórmulas contêm novas versões dos hormônios que parecem ser mais arriscadas que os antigos. Quanto à fertilidade pós-pílula, a evidência sugere que tomar a pílula não impacta a fertilidade futura. Eu posso compreender, entretanto, que mulheres deveriam estar alertas sobre essa possibilidade, especialmente com novos ingredientes sendo adicionados às fórmulas. Eu espero que estudos e revisões nesse assunto continuem.

Agora, vamos aos riscos de saúde – os que você ouviu, e os que são reais. Há muito a ser coberto. Apesar de eu não afirmar que um simples artigo de blog pode cobrir cada estudo e nuance, deixe-me tentar o máximo que puder. Primeiro, as "boas" notícias. Você provavelmente já escutou que tomar a pílula pode reduzir o risco de câncer de ovário, câncer endometrial, câncer de útero e endometriose. E parece ser verdade. Dito isso, eu obviamente não sugeriria a uma mulher assumir os outros riscos (sobre os quais falarei abaixo) para reduzir levemente a chance de desenvolver estas condições.

Câncer de mama


De acordo com análises, dados de mais de 50 estudos sugerem que a pílula dá uma chance 10-30% maior de risco de câncer de mama. Pílulas com mais estrógeno estão mais implicadas nestes dados, assim como o uso prolongado de anticoncepcionais e histórico familiar. Apesar deste risco aumentado ser uma coisa a certamente ser considerada, ele é significativamente mais baixo que os riscos de terapias de reposição hormonal para mulheres pós-menopáusicas.

Câncer de cérvix


Nos últimos anos, tem-se falado em abandonar os exames Papanicolau (o procedimento que testa por células anormais no cérvix) por exames de DNA HPV. O problema é, HPV não é a única causa de câncer de cérvix. A pílula anticoncepcional é também considerada outr grande fator de risco, especialmente para mulheres que a tomaram por 5 ou mais anos. Se este plano for algum dia adotado, aqui está a mensagem para milhões de mulheres que tomam pílula e são HPV negativo: boa sorte ao detectar quaisquer alterações no cérvix precocemente. É a inflamação trabalhando aqui, pessoal. A pílula, particularmente as variedades que contêm estrógeno, causa inflamação.

Problemas gastrointestinais


É um fato sabido, mas pouco divulgado, que estrógeno aumentado pode contribuir para a irritação do endotélio estomacal e para o agravemento de condições gastrointestinais existentes como refluxo gastroesofágico (GERD) e Doença de Crohn. Algumas mulheres são mais sensíveis ao efeito da pílula sobre a saúde gastrointestinal. Dica: se o seu médico tentar te fazer tomar Nexium (conhecida como a "pílula roxa") ou qualquer dps seus vários parentes, tente ficar sem a pílula primeiro.

Risco cardiovascular


A pílula, particularmente as fórmulas tradicionais que combinam estrógeno e progestina, podem aumentar a pressão sanguínea em algumas mulheres, particularmente aquelas que já tem pressão alta. A pesquisa também mostra que a pílula eleva muito ligeiramente o risco de derrame em mulheres sem fatores de risco para derrame (por exemplo, enxaquecas e pressão alta). A diferença computada é de aproximadamente 1 derrame a mais em cada 25.000 mulheres.

Coágulos sanguíneos


Este é um dos riscos que teve mais alarde da mídia nos últimos anos, e por boas razões. É uma questão que tem perseguido a pílula desde o início. À medida que as fórmulas mudaram, as pessoas assumiram que o risco seria reduzido. Mas há um porém. Novos tipos de progestinas (por exemplo, drospirenona, desogestrel ou gestodeno) aumentam o risco de coágulos sanguíneos em mulheres, comparados com a forma mais antiga de progestina (levonorgestrel). Pesquisa mostrou que mulheres que tomam pílulas anticoncepcionais com uma dessas novas progestinas têm 6 vezes o risco de coágulos comparadas às mulheres que não tomam a pílula. Mulheres que usam a pílula com as fórmulas antigas de progestógeno tem 3 vezes o risco de coágulos sanguíneos, quando comparadas às não-usuárias. O risco das progestinas tradicionais é de aproximadamente 10 mulheres a cada 10.000 anos.

Outros efeitos colaterais




Finalmente, há uma pesquisa mais sensível publicada nos últimos anos sobre o efeito da pílula na escolha do parceiro. A alteração mensal nos hormônios femininos tem implicações sobre a sua atração por certas características dos homens. Mulheres que conheceram seus parceiros enquanto tomavam a pílula ficaram mais felizes com o cuidado e a paternidade e tiveram menor probabilidade de se separarem, do que aquelas que não tomavam; entretanto, elas "tiveram menor pontuação nas medidas de satisfação sexual e atração pelo parceiro" e "experienciaram dessatisfação sexual aumentada durante o relacionamento".

Então, qual é a mensagem que fica ? Leitores têm pedido a minha opinião sobre contracepção oral/hormonal. Eu sei o que você pode inferir do curso de evidências aqui, e você estaria majoritariamente correto. Há risco médico suficiente para merecer uma pausa para pensar ? Certamente. Ele é suficiente para descartar a pílula como contraceptivo para uma mulher que é saudável, não tem histórico familiar ou fatores de risco nas áreas relevantes, e tem forte preferência por esta forma de anticoncepcional ? Não, eu não posso dizer que os descartaria. Os riscos aumentados pelas condições supracitadas foram de fato mensuráveis, mas no geral não foram dramáticos em mulheres saudáveis, não-fumantes, que não tinham históricos familiares significativos ou doenças relevantes. A idade não parece aumentar o risco, exceto no caso de que outros riscos existem (por exemplo, pressão alta).

Dito isso, deixe-me lançar alguns reveses. Eu certamente favoreceria as versões com doses mais baixas. Eu sugeriria um monitoramento de perto, por um médico que reconheça os riscos da contracepção hormonal. Eu também sugeriria fortemente o exercício regular (não do tipo aeróbico crônico que acelera a inflamação), uma dieta anti-inflamatória consistetne (eu acho que você conhece uma que eu recomendo), suplementação anti-inflamatória (óleo de peixe, açafrão, etc.), e suplementação de vitaminas e minerais. E – apesar de isso chocar-se com alguns fatores bastante pessoais – eu recomendaria observar outras opções contraceptivas no longo-prazo. Em outras palavras, eu não sugeriria tomar a pílula indefinidamente "e que está tudo bem", como alguns médicos e grupos dizem. Alguns destes riscos aumentados (por exemplo, coágulos e câncer) só diminuem após um período de mais de 10 anos após a interrupção do uso. Isso é muito tempo.

Ainda assim, não vou longe o suficiente para cortar completamente os contraceptivos orais porque sei que cada um dos outros métodos também tem suas complicações (maiores ou menores). A realidade é que não há nenhuma maneira 100% perfeitamente segura, assombrosamente conveniente, inteiramente sem ônus, completamente à prova de falhas, de burlar a natureza nesse campo. Não é sobre fazer uma escolha particular. É sobre tomar uma decisão informada. Nem todo mundo é capaz de controlar seus ciclos com precisão perfeita. Nem todo mundo tolera bem um DIU, diafragma ou espermicidas. Nem todo mundo quer depender apenas do uso de preservativos por várias razões. Nem todo mundo está pronto para seguir a rota da esterilização. Tome tudo isso, e é uma outra história – para outro artigo, não esse...

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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