A Hipótese Dieta-Coração: Perdida já na largada ?

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Stephan Guyenet


A Hipótese Dieta-Coração é a idéia de que (1) a gordura saturada dietária, e em algumas versões, o colesterol dietário, elevam o colesterol sanguíneo em humanos e (2) por conseguinte contribuem para o risco de infarto do miocárdio.

Eu não vou gastar muito tempo na teoria com relação ao colesterol dietário porque a evidência de que quantidades dietárias típicas causem doença cardíaca em humanos é fraca. Abaixo está um gráfico do Estudo Cardiológico de Framingham (extraído do livro "Prevenção da doença cardíaca coronariana", do Dr. Harumi Okyama et al.) para deixar isso claro. Ovos são a maior fonte de colesterol da dieta americana. Nestre gráfico, o grupo "low" comeu 0-2 ovos por semana, o grupo "medium" comeu 3-7, e o grupo "high" comeu 7-14 ovos por semana.


A distribuição dos níveis sanguíneos de colesterol entre os 3 grupos foi virtualmente idêntica. O estudo também não encontrou associação entre o consumo de ovos e o risco de infartos. O colesterol dietário não tem grande impacto no colesterol sérico no longo prazo, talvez porque os humanos estejam adaptados a comer colesterol. A maioria das pessoas é capaz de ajustar seu próprio metabolismo de colesterol para compensar quando a quantidade na dieta aumenta. Coelhos não têm tal mecanismo de realimentação porque sua dieta natural  não inclui colesterol, então dar colesterol a eles aumenta seu colesterol sérico e causa patologia vascular.

A primeira metada da hipótese dieta-coração afirma que comer gorduras saturadas aumenta o colesterol no sangue. Isso foi aceito sem muito questionamento pelas autoridades de saúde/dieta por quase meio século. Em 1957, o Dr. Ancel Keys propôs uma fórmula (Lancet 2: 1959. 1957) para predizer as mudanças no colesterol total, baseadas na quantidade de gorduras saturadas e poliinsaturadas da dieta. Esta fórmula, baseada primariamente em estudos curtos dos anos 1950, afirmava que a gordura saturada é a influência dietária primária sobre o colesterol sanguíneo.

De acordo com a interpretação dos testes por Keys, a gordura saturada aumentava o colesterol sanguíneo, e a gordura poliinsaturada, até certo ponto, o diminuía. Mas havia falhas significativas nos dados desde o início, que foram apontadas por essa revisão crítica, de 1973, no Jornal Americano de Nutrição.

O maior problema é que os testes controlados tipicamente comparavam gorduras saturadas com óleos vegetais ricos em ácido linoleico ômega-6 (LA), e quando o colesterol sanguíneo ficava mais alto no grupo da gordura saturada, isso era mais frequentemente atribuído às gorduras saturadas elevando o colesterol do que ao LA diminuindo-o. Quando uma dieta rica em gordura saturada era comparada com a dieta basal sem mudar o LA, frequentemente nenhum aumento significativo no colesterol era observado. Estudos afirmando mostrarem o efeito elevador de colesterol da gordura saturada frequentemente a introduziam após um período rico em LA. Assim, o efeito às vezes tinha mais a ver com o LA ter baixado o colesterol do que com a gordura saturada tê-lo aumentado. Isso não é o que eu esperava encontrar quando comecei a ler estes estudos.

Vendo  estes ensaios controlados de curto prazo, fiquei surpreso com a variabilidade e falta de acordo aparente entre eles. Um pouco disso provavelmente era por falta de controle sobre outras variáveis e por um projeto de estudo não-otimizado. Mas se a gordura saturada tem um efeito dominante sobre o colesterol sérico no curto prazo, isso deveria ser pronta e consistentemente demonstrável.

Os dados de longo-prazo não são gentis com a hipótese dieta-coração. Reduzir a gordura saturada enquanto aumenta-se o LA certamente reduz substancialmente o colesterol sanguíneo. Essa foi a conclusão da Pesquisa Coronária de Minnesota, um estudo bem-controlado, por exemplo (redução de 14%). Mas em outros casos nos quais a ingestão de LA mudou menos, tais como o MRFIT, a Iniciativa da Saúde da Mulher e o estudo Dieta-Coração de Lyon, reduzir a ingestão de gordura saturada teve pouco ou nenhum efeito sobre o colesterol total ou o LDL (0-3% de redução). As pequenas mudanças que ocorreram poderiam ter sido devido a outros fatores, tais como aumento de fibra e fitosteróis, dados que foram intervenções multifatoriais.

Outro golpe na idéia de que gordura saturada aumenta o colesterol no longo-prazo, vem de estudos observacionais. Aqui está um gráfico com dados do estudo Acompanhamento de Profissionais de Saúde, que observou 43.757 profissionais de saúde por 6 anos  (extraído do livro "Prevenção da doença cardíaca coronariana", do Dr. Harumi Okyama et al.)



O que este gráfico mostra é que com uma ingestão relativamente constante de LA, nem a ingestão de gordura saturada nem a proporção entre LA e gordura saturada estavam relacionados ao colesterol sanguíneos em indivíduos de vida livre. Isso foi constatado em uma ampla gama de ingestões de gordura (7-15%).

E tem mais. Se a gordura saturada fosse importante em determinar a quantidade de colesterol sanguíneo no longo-prazo, seria de se esperar que populações que comem mais gordura saturada tivessem os níveis mais altos de colesterol. Mas não é o caso. Os masai tradicionalmente obtêm uma grande proporção das suas calorias de gordura de leite, a metade da qual é saturada. Em 1964, o Dr. George Mann publicou um artigo mostrando como os guerreiros masai tradicionais, comendo praticamente nada além de leite extremamente gordo, sangue e carne, tinham um colesterol médio de 115mg/dL no grupo de 20-24 anos. Para se ter comparação, ele publicou valores de homens americanos para a mesma faixa etária: 198mg/dL (J. Atherosclerosis Res. 4:289. 1964). Aparentemente, comer 3 vezes mais gordura animal saturada e muitas vezes mais colesterol que os americanos, não era suficiente para elevar o colesterol sanguíneo dos masai. O que é que eleva o colesterol de um masai ? Comida-lixo

Agora vamos nadar até a ilha de Tokelau, na qual a dieta tradicional inclui aproximadamente 50% das calorias extraídas a partir de coco. É a ingestão mais alta de gordura saturada de qualquer população que eu conheça. E como está o colesterol deles ? Homens na faixa dos 20-24 anos tinham uma concentração de 168mg/dL em 1976, que era mais baixa que a de homens americanos na mesma faixa etária, apesar de ingerirem 4 vezes mais gordura saturada. Os tokelauanos que migraram para a Nova Zelândia, comendo metade da gordura saturada dos seus parentes na ilha, tinham um colesterol total de 191mg/dL para a mesma faixa etária e mesma época, e LDL substancialmente mais alto (J. Chron. Dis. 34:45. 1981). O consumo de sacarose era de 2% em Tokelau, e 13% na Nova Zelândia. A gordura saturada parece ficar no banco de trás, no que diz respeito a outros fatores de dieta e estilo de vida. A gordura corporal e a ingestão excessiva de calorias parecem ser bons candidatos, uma vez que influenciam as lipoproteínas em circulação

A gordura saturada dietária influencia o colesterol total e o LDL no longo prazo ? Não tenho as respostas, mas acho que é interessante o fato de que a evidência é muito menos consistente do que se anuncia. Pode ser que se a gordura saturada dietária influencie o colesterol total e o LDL no longo prazo, o efeito fique atrás de outros fatores. Dito isso, é claro que o ácido linoleico, em grande quantidade, reduz o colesterol total e o LDL em circulação.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

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Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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