Osteoporose

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Barry Groves

No final dos anos 1980, mulheres pós-menopáusicas na Inglaterra tinham 50% de chance de sofrererm de osteoporose (doença dos ossos quebradiços), e 1 em cada 5 delas morria como resultado direto [1]. Isso é o dobro do número de fraturas que havia nos anos 1950 [2]. E os números não estão diminuindo. Ainda assim, há muitas culturas no mundo nas quais mulheres pós-menopáusicas são fortes, saudáveis e ativas até o fim de suas vidas. Também é perceptível que as mulheres nestas culturas não sofrem de osteoporose.

Mulheres indígenas da América Central, por exemplo, vivem por uma média de 30 anos após a menopausa, mas não desenvolvem osteoporose – elas não perdem estatura, não desenvolvem uma "corcunda" e não têm fraturas. Um time de pesquisadores analisou seus níveis hormonais e densidade óssea, e descobriu que os níveis de estrógeno não eram mais altos do que os de mulheres americanas brancas – em alguns casos, eram até mesmo menores. A densidade óssea testada pelos pesquisadores mostrou que a perda óssea ocorria nessas mulheres com a mesma taxa das suas contrapartes nos EUA [3]. Então por que elas não sofriam fraturas ?

Para compreender isso, é importante entender a natureza dos ossos. Osso parece ser estático, mas é um tecido vivo que sofre renovação e reposição constantes. A qualquer dado momento, em cada um de nós, há até 10 milhões de locais nos quais pequenos segmentos de ossos velhos estão sendo dissolvidos e novos ossos estão sendo depositados para substituí-los [4]

As células formadoras de ossos são de dois tipos diferentes: osteoclastos e osteoblastos. O trabalho dos osteoclastos é localizar partes velhas que precisem de renovação: elas dissolvem o osso e deixam para trás pequenos espaços vazios. O osteoblastos então movem-se para estes espaços de maneira a construir osso novo. Desta forma, o osso se cura e se renova em um processo chamado remodelação. São os desequilíbrios na remodelação que contribuem para a osteoporose: quando mais osso velho é removido do que osso novo é depositado, a perda óssea ocorre.

O processo de remodelação continua durante toda a nossa vida. Mas após uma idade de cerca de 50 anos, apesar de a taxa aumentar, os osteoblastos construtores de ossos tornam-se menos e menos capaazes de preencher completamente os espaços feitos pelos osteoclastos [5].

O termo correto para a baixa densidade óssea é osteopenia. E densidade é apenas um dos fatores na osteoporose e nas fraturas que resultam desta. Outro fator que tende a ser esquecido é a micro-arquitetura do osso. À medida que os osteoclastos absorvem mais osso do que é reposto, a micro-arquitetura torna-se frágil. À medida que ela enfraquece, o pulso e quadril tornam-se mais vulneráveis a fraturas. As vértebras não se fraturam ou racham na prática, elas desabam – causando perda de estatura, e se um número suficiente desabar, uma "corcunda" é criada.

A definição médica de osteoporose constumava ser "fraturas causadas por ossos finos". Em 1991, foi redefinida como "uma doença caracterizda por baixa massa óssea e deterioração da micro-arquitetura do tecido ósseo, que leva à fragilidade óssea aumentada e consequente aumento do risco de fratura" [6]. Entretanto, há um problema em definir osteoporose como doença ao invés de fratura, porque baixa massa óssea é apenas um "fator de risco" para a osteoporose, e não a osteoporose em si. É como definir doença cardíaca como "ter colesterol alto", ao invés de "ter um infarto". Não é necessário dizer, esta nova definição tem aumentado o número de mulheres que "tem osteoporose".

A osteoporose tem na prática dois componentes: densidade óssea e micro-arquitetura. Mas tudo o que ouvimos é sobre densidade óssea; a micro-arquitetura é virtualmente ignorada. Isso provavelmente é porque a densidade óssea pode ser medida. Mas simplesmente medir a densidade ósse pode ser enganador, porque nem todomundo com baixa densidade óssea tem fraturas. Mulheres asiáticas, por exemplo, tendem a ter baixa densidade óssea e ainda assim tem muito poucas fraturas; e se você tiver tido uma alta ingestão de flúor, sua densidade óssea será mais alta – mas também será o seu risco de fraturas, porque o flúor aumenta a fragilidade!

A premissa geral é de que uma vez que o osso atinja certo nível de finura, ele torne-se alvo de fraturas mais facilmente. Agora que mais é sabido sobre a fisiologia do osso, é claro que isso não é a história completa. O osso não se fratura devido à sua finura apenas. A Dra. Susan Brown, especialista de ponta em ossos, afirma: "A osteoporose por si, não causa as fraturas. Isso é documentado simplesmente pelo fato de que metade da população com ossos osteoporóticos, finos, na prática nunca sofre fraturas" [7].

E Lawrence Melto da Clínica Mayo notou já em 1988: "A osteoporose sozinha pode não ser suficiente para produzir tais fraturas osteoporóticas, dado que muitos indivíduos permanecem livres de fraturas mesmo nos subgrupos com densidade óssea mais baixa. A maioria das mulheres com 65 anos ou mais, e dos homens com 75 ou mais, perdeu osso o suficiente para colocá-las em risco significativo de osteoporose – e ainda assim, muitas nunca fraturaram qualquer osso. Aos 80, virtualmente todas as mulheres nos EUA são osteoporóticas no que diz respeito à densidade dos ossos do quadril, e ainda assim apenas uma pequena percentagem delas sofre fratura de quadril a cada ano" [8].

Então por que parece haver muito mais mulheres com osteoporose agora do que no passado ? Parte disso pode ser nada mais que a mudança na definição da doença. Entretanto, isso não altera o fato de que o número de fraturas tanto em mulheres quanto em homens aumentou desde que a "alimentação saudável" foi introduzida. Está aí a pista.

Como é que se pode evitar a osteoporose ?



A maneira recomendada de evitar a osteoporose é suplementar com cálcio, geralmente sob forma de leite desnatado fortificado com cálcio. Mas a falta de cálcio causa osteomalácia (veja abaixo), não osteoporose. Esse é um equívoco comum. E na prática pode ser contraproducente, como muitos estudos já mostraram: a suplementação com cálcio pode na verdade piorar a condição. Como a osteoporose é causada por um enfraquecimento da matriz proteica dos ossos, a melhor prevenção não é suplementar com cálcio, e sim uma dieta rica em proteínas.

Então não deveria ser surpresa o fato de que a maioria dos estudos epidemiológicos mostra que a baixa densidade óssea esteja mais intimamente associada com baixa ingestão de proteínas, e a alta densidade óssea com alta ingestão de proteína [9].

A densidade óssea varia muito em indivíduos diferentes. Ela é determinada pelo quantidade de ossos com a qual você iniciou a vida, e com a taxa de perda. Esta é a importância de comer-se bastante comida formadora de ossos e fazer exercícios com pesos para construir densidade muscular, quando se é jovem. É muito tarde para fazer quaisquer destas coisas quando os sintomas aparecem aos 70.

Só na Inglaterra, 1/5 de todos os leitos de ortopedia já estavam ocupados por pacientes com quadris fraturados duas décadas atrás, e os custos apenas com hospitais chegavam a mais de 160 milhões de libras por ano [10]. E este número não inclui outras fraturas, custos pessoais e, é claro, a dor e dificuldade trazidas pela doença. É coincidência que a incidência da osteoporose tenha aumentado cerca de 10% ao ano pelos últimos 20 anos, enquanto nos diziam para reduzir nossa ingestão de carne e trocá-la por cereais ricos em fibras ?

Proteína e saúde óssea


Em certas seções do mundo da nutrição, parece haver uma crença de que se comermos proteína animal, isso vai fazer com que nossos ossos percam cálcio. Esta questão é de particular interesse à luz da pesquisa sobre dieta paleolítica por duas razões: a primeira é porque estima que os níveis de proteína animal na dieta dos hominídeos durante os últimos 1.7 milhões de anos de evolução (desde a época do Homo erectus) eram muito mais altos que os considerados prudentes por alguns setores da pesquisa nutricional na atualidade; a segunda é porque a evidência fóssil mostra que humanos paleolíticos tinham uma massa óssea mais alta que seria mais robusta e resistente a fraturas que os ossos dos humanos ocidentais modernos.

Estudos publicados nos anos 1980, sobre pessoas comendo dietas ricas em proteína, também não detectaram perda de cálcio mesmo no longo prazo, desde que a carne fosse comida com sua gordura [11]. E estudos subsequentes confirmaram isso: 

  • comer carne não afeta negativamente o balanço de cálcio [12, 13]
  • proteína na prática promove ossos mais fortes [14]
  • homens e mulheres que comem mais proteína animal tem massa óssea melhor do que aqueles que a evitam [15, 16]

Aumentar a ingestão de proteína também ajudou pacientes mais idosos que estavam tomando vitamina D e suplementos de cálcio. Os Drs. B. Dawson-Hughes e S. Harris, do Laboratório de Cálcio e Metabolismo Ósseo (Universidade Tufts, Boston) testaram associações entre a ingestão de proteínas e a mudança na densidade da massa óssea em 342 homens e mulheres saudáveis com 65 aos ou mais, que completaram um estudo sobre suplementação de cálcio e vitamina D, com duração de 3 anos, randomizado e controlado por placebo. Eles descobriram que no período, a ingestão mais alta de proteína estava significativamente associada com uma mudança favorável na densidade e massa óssea do grupo que recebeu o suplemento, mas não no grupo que recebeu placebo.

Proteínas em pó são as culpadas


O que é significativo nos vários estudos sobre ingestão de proteínas e densidade óssea, é que os estudos que pretendiam mostrar que a ingestão de proteínas causava perda de cálcio, não foram conduzidos com comidas de verdade – e sim com aminoácidos isolados e proteínas fracionadas em pó, do tipo usado por praticantes de dietas low-carb e atletas. A razão pela qual estes aminoácidos e proteínas sem gordura causam perda de cálcio, enquanto uma dieta com carne gorda não causa, é porque a proteína, cálcio e minerais requerem as vitaminas A e D, solúveis em gordura, para sua assimilação e utilização pelo corpo. Quando a proteína é consumida sem estes fatores, ela perturba a bioquímica normal do corpo e perdas minerais ocorrem [18]. Vitamina A verdadeira e o complexo D inteiro só são encontrados em gorduras animais. Além disso, as gorduras saturadas presentes na carne são essenciais para o depósito apropriado de cálcio nos ossos [19]. Não deveria ser surpresa, portanto, que dietas veganas demonstradamente colocam mulheres no maior risco para osteoporose [20, 21].

Referências


  1. Fractured neck of femur: prevention and management. A report of the Royal College of Physicians, London. 1989. 
  2. Bengner U. Changes in the incidence of fracture of the upper humerus during a 30-year period: A study of 2125 fractures. Clin Orthop 1988; 231: 179-82. 
  3. Love S. Dr Susan Love's Hormone Book. Random House, New York, 1997, p. 85. 
  4. Frost H. The pathomechanics of osteoporosis. Clin Orthop 1985; 200: 198-225. 
  5. Love S. op. cit., p 77. 
  6. Consensus Development Conference. Prophylaxis and treatment of osteoporosis. Conference Report. Am J Med 1991: 107-110. 
  7. Brown S. Better Bones, Better Body. Keats Publishing, Connecticut, USA, 1996, p.38. 
  8. Ibid. 
  9. Kerstetter, et al. Low protein intake: The impact on calcium and bone homeostasis in humans. J Nutr 2003; 133: 855S-861S. 
  10. Fehily A M. Dietary determinants of bone mass and fracture risk: a review. J Hum Nutr and Diet 1989; 2: 299. 
  11. Spencer H, Kramer L. Factors contributing to osteoporosis. J Nutr 1986; 116:316-319.; Further studies of the effect of a high protein diet as meat on calcium metabolism. Amer J Clin Nutr 1983; 37:6: 924-9. 
  12. Hunt J, et al. High- versus low-meat diets: Effects on zinc absorption, iron status, and calcium, copper, iron, magnesium, manganese, nitrogen, phosphorus, and zinc balance in postmenopausal women. Am J Clin Nutr 1995; 62: 621-32. 
  13. Spencer H, et al. Do protein and phosphorus cause calcium loss? J Nutr 1988;118:657-60. 
  14. Cooper C, et al. Dietary protein and bone mass in women. Calcif Tiss Int 1996; 58:320-5. 
  15. Munger RG, et al. Prospective study of dietary protein intake and risk of hip fracture in postmenopausal women. Am J Clin Nutr 1999; 69: 147-52. 
  16. Hannan MT, et al. Effect of dietary protein on bone loss in elderly men and women: The Framingham Osteoporosis Study. J Bone & Min Res 2000; 15: 2504-2512. 
  17. Dawson-Hughes B, Harris SS. Calcium intake influences the association of protein intake with rates of bone loss in elderly men and women. Am J Clin Nutr 2002; 75: 773-9 
  18. Fallon S, Enig M. Dem bones — do high protein diets cause osteoporosis? Wise Traditions 2000; 1: 4: 38-41. Also posted at http://www.westonaprice.org 
  19. Watkins BA, et al. Importance of vitamin E in bone formation and in chondrocyte function. American Oil Chemists Society Proceedings 1996, at Purdue University.; Food Lipids and Bone Health in McDonald and Min, Eds Food Lipids and Health. Marcel Dekker Co. NY, 1996. 
  20. Chiu JF, et al. Long-term vegetarian diet and bone mineral density in postmenopausal Taiwanese women. Calcif Tissue Int 1997; 60: 245-9. 
  21. Lau EM, et al. Bone mineral density in Chinese elderly female vegetarians, vegans, lacto-vegetarians and omnivores.Eur J Clin Nutr 1998; 52: 60-4.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

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Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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