Imunidade alterada, desequilíbrio hormonal e inflamação: Endometriose como a tripla ameaça da dieta americana padrão

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Stefani Ruper

Endometriose é uma condição amplamente encontrada, mas muito pouco compreendida (como é o caso com a maioria das desordens hormonais como SOP). Ela afeta, por algumas estimativas, até 20% das mulheres em idade reprodutiva, e em estimativas mais modestas, 5-10%. De qualquer maneira, esta população representa milhões de mulheres.

Além disso, ninguém tem realmente certeza de como a situação da endometriose varia entre países – eu tentei um bocado desencavar informação – mas em geral todo mundo parece concordar que a endometriose acontece com todo mundo, mas a maioria é de mulheres ocidentais, e em particular as americanas. E na maioria das vezes, dolorosamente.

Endometriose é geralmente diagnosticada em mulheres através da inspeção da sua infertilidade ou dor menstrual. A razão para isso é que a endometriose é uma condição na qual o tecido endometrial cresce em locais fora do endométrio. Locais comuns incluem os ovários, tubas uterinas, cavidade abdominal e intestinos. O fato de que o tecido endometrial pode ser encontrado em áreas reprodutivas importantes é em parte o motivo pelo qual muitas mulheres descobrem que têm endometriose quando encontram dificuldade em conceber crianças. Com o tecido bloqueando uma tuba, o esperma e os óvulos encontram dificuldade em comunicar-se; e os fetos, em crescer.

O porquê da endometriose ser dolorida


O tecido endometrial pode causar dor à mulher primeiramente porque é um crescimento tecidual anormal que pode obstruir uma função fisiológica normal. E em segundo lugar, ele pode aumentar de tamanho ao longo do tempo. E a razão mais importante pela qual a endometriose causa dor é porque o endométrio ectópico (ou seja, "fora do lugar") age da mesma maneira que o endométrio real, só que espalhado pelo corpo,

O tecido endometrial responde a mudanças hormonais no sangue exatamente da mesma maneira , não importa onde esteja localizado. Por tal razão, o endométrio ectópico torna-se inflamado, pulsante, cresce e sangra durante o ciclo menstrual de uma mulher. Isso aumenta a dor da menstruação e perturba os locais onde uma mulher pode ter tecido endometrial. Se uma mulher ordinariamente tem cólicas pré-menstruais, mas as cólicas ocorrerem também nos ovários e intestinos, ela pode ter ciclos menstruais cada vez mais difíceis ao longo da vida.

Como a endometriose acontece


Profissionais médicos não têm certeza de como esses implantes endometriais conseguem escapar das tubas e multiplicarem-se ao longo do abdomen como mini-tumores. Três candidatos aparentemente menos prováveis são:

  1. Mullerianose, na qual o potencial das células tornarem-se endometriais é definido durante o desenvolvimento embrionário e organogênese. Por esta teoria, uma paciente de endometriose é definida quando tem 8-10 semanas de vida;
  2. Metaplasia celômica, que garante que alguns tipos de tecido transformam-se em outros, talvez sob influência de inflamação;
  3. Vasculogênese, na qual tecido cresce via crescimento vascular anormal. A Wikipedia tem muito a dizer sobre tais teorias.

Um forte candidato emergente entre esses, entretanto, é a menstruação retrógrada. É o fenômeno no qual o fluxo mensal de uma mulher não deixa o corpo inteiramente pela vagina, mas ao invés pode fluir "para trás", subindo as tubas uterinas e escapando para a cavidade abdominal. De lá, o tecido aderiria ao revestimento da cavidade abdominal e tornaria-se algo mais ou menos fixo.

Mas todas as mulherse com menstruação retrógrada tem endometriose ?

Não. Na prática, menstruação retrógrada é muito comum, ocorrendo em muitas mulheres que não experienciam anormalidades endometriais.

Então o que precisa acontecer junto com a menstruação retrógrada para que a endometriose ocorra ?

É aqui que a "tripla ameaça" da dieta americana padrão entra em ação. Mal-funcionamento do sistema imune, desequilíbrio hormonal e inflamação parece ter papéis significativos.

Até que ponto cada um desses fatores impacta a endometriose não está claro, e certamente nem todos os médicos concordam com a teoria. Muitos médicos acreditam que a genética é fator dominante (ela é no mínimo importante), ou que uma das questões de desenvolvimento supracitadas seja o mais importante. O que está emergindo da literatura, no entanto, é a forte influência de fatores variáveis do funcionamento alterado do sistema imune, inflamação e desequilíbrio hormonal sobre o desenvolvimento endometrial e a dor. A idéia geral é que o funcionamento alterado do sistema imune permita que o tecido se implante, e que a inflamação e o desequilíbrio hormonal exacerbem o crescimento tecidual, infertilidade e dor.

Disfunção do sistema imune


Muito da pesquisa endometrial sendo conduzida atualmente foca-se na possibilidade de que em pacientes de endometriose, o sistema imune possa não ser capaz de lidar com o ataque cíclico do fluido menstrual retrógrado. É comum que o fluxo menstrual escape para a cabidade abdominal. Mas os sistemas imunes de algumas mulheres são capazes de desmantelar apropriadamente esse tecido, enquanto os de outras, não.

O papel mais abrangente do sistema imune é distinguir entre "nós" (nossos corpos) e "eles" (intrusos), e bater nos intrusos. Uma faceta deste trabalho que ainda é pouco conhecida, entretanto, é que o sistema imune já existente em um corpo saudável identifica tecidos no lugar errado como "estranhos", e os atacam. O sistema imune trabalha tanto localmente quanto espalhado pelo corpo inteiro.

Isto é, obviamente, a menos que o sistema imune tenha sido atenuado. Se ele tiver sido debilitado de alguma maneira, seja por estresse, deficiência de micronutrientes ou por uma dieta inflamatória , então ele pode não ser forte o suficiente para impedir a implantação do tecido. Especialmente porque as mulheres do mundo moderno ovulam muito mais frequentemente que as mulheres ao longo da história... até onde podemos dizer, é claro – já que presumidamente ficamos grávidas e passamos fome simultaneamente muito menos que mulheres do passado.

De qualquer maneira, o ataque constante de tecido reprodutivo é simplesmente demais para que o debilitado sistema imune de algumas mulheres consiga combater.

A endometriose pode ser uma condição autoimune ?


A endometriose pode na prática ser uma condição autoimune. O júri ainda está longe de decidir se é ou não uma simples questão de imunidade debilitada ou autoimunidade. Um dos marcadores primários de autoimunidade é a presença de anticorpos autoimunes. Na endometriose, os anticorpos autoimunes estão sempre presentes. Entretanto, autoanticorpos também podem ocorrer em outras condições tais como câncer, dano maciço a tecidos e às vezes em indivíduos saudáveis. Ainda não está claro se a formação de anticorpos na endometriose é simplesmente uma resposta natural à destruição crônica de tecido local, ou uma resposta patológica levando a mais disfunção autoimune generalizada.

Dito isso, a endometriose preenche a maioria dos critérios de classificação para doença autoimune. Estes incluem ativação de células B policlonais, anormalidades imunológicas em células T e B, apoptose aumentada, dano tecidual e envolvimento de múltiplos órgãos.

E apesar destas similaridade, a endometriose parece ser, até onde os pesquisadores podem dizer, uma situação na qual o sistema imune está fraco, e por conseguinte a condição ocorre – não tanto uma condição na qual o sistema imune está hiperativo e destruindo os tecidos do próprio corpo (como é o caso em doenças reconhecidamente autoimunes). Mas e então ? Talvez, em muitas mulheres, doença autoimune leve à imunidade debilitada, que leva à endometriose. Isso explicaria a correlação que existe entre autoimunidade e endometriose, mas também deixaria espaço para que outros fatores, tais como inflamação e a boa e velha atividade imune diminuída, também tenham papéis causais.

De qualquer forma, endometriose está fortemente associada com doenças autoimunes

Doenças autoimunes correlacionam-se bastante bem com a endometriose, ou ao menos algumas delas o fazem. E elas podem de fato serem fatores causais, como acabei de mencionar. Doenças autoimunes que podem ser significativamente associadas com a endometriose incluem lupus, hipotiroidismo de Hashimoto, artrite reumatóide, síndrome de Sjögren e esclerose múltipla. A melhor evidência existe para uma associação com doenças inflamatórias intestinais.

Inflamação


Há duas maneiras pelas quais a inflamação impacta a endometriose. Primeiro, na gênese da condição. Aqui, a inflamação pode causar endometriose ao debilitar a resposta imune. Em segundo, a inflamação (juntamente com os hormônios, discutidos mais abaixo) tem a capacidade de tornar a endometriose dolorosa. Assim como algumas mulheres têm ciclos menstruais dolorosos e outras não, o mesmo fenômeno traduz-se para o tecido endometrial que está localizado em outras partes do abdômen. Se uma mulher tem uma resposta inflamatória exacerbada ao seu ciclo menstrual, então sua endometriose será dolorosa. Se ela não tem, sua endometriose pode passar desapercebida por anos – até mesmo pela vida inteira. Ela simplesmente não a incomoda. A inflamação explica parcialmente o motivo de não haver correlação estatística entre a quantidade de endométrio ectópico e o nível de dor. Algumas mulherse tem muito endométrio ectópico mas nenhuma dor, porque seus níveis inflamatórios são baixos.

Então o que é que faz a inflamação ser dolorida ? São as prostaglandinas e outros marcadores inflamatórios produzidos no tecido endometrial durante a menstruação. Estas moléculas inflamatórias agem localmente. Isso significa que criam sinais dolorosos tanto no tecido endometrial quanto nos tecidos adjacentes. Daí o motivo de um fenômeno em local tão específico – isto é, o endométrio – poder deixar dolorido todo o abdômen.

Quando uma mulher tem endometriose, essa sinalização e indução inflamatória pode acontecer em vários locais da parte inferior da cavidade abdominal.

Hormônios


Hormônios tem um papel intrincadamente ligado à gênese e geração de dor da endometriose. O estrógeno tem muitos papéis no corpo de uma mulher e em seu ciclo, ainda que um dos mais importantes seja estimular o espessamento do endométrio. Este é um processo normal e importante que acontece em toda mulher. Se os níveis de estrógeno forem altos, entretanto, o endométrio fica espesso demais, e muito maior que o normal. Isso provê:

  1. Mais tecido a partir do qual o endométrio ectópico pode ser fabricado 
  2. Mais tecido a partir do qual prostaglandinas e outros marcadores inflamatórios podem ser liberados.
Quanto mais tecido endometrial uma mulher tem, maior o número de locais para gerar dor. Esta é na prática a causa direta da maioria das dores "normais" que uma mulher experiencia com as cólicas menstruais... e por conseguinte, com a endometriose também.

A dominância do estrógeno é causada pelo sobrepeso, possivelmente por consumir muitos xeno- e fitoestrógenos (apesar de que essa é uma questão complexa) e por inflamação sistêmica. Também pode ser causada por ter níveis de progesterona clinicamente baixos, já que a progesterona age um pouco para contrabalancear o estrógeno no corpo. Estrógeno e progesterona precisam estar apropriadamente equilibrados para que a reprodução aconteça suavemente e sem dor.

Veja a abordagem do Danny Roddy sobre o estrógeno como molécula inflamatória (em excesso).

Endometriose é geralmente tratada com...


Cirurgia, anticoncepcionais que elevam os níveis de progesterona, anticoncepcionais que reduzem os níveis de estrógeno, ou medicamentos especificamente antagonistas do estrógeno. Cada um desses tem seus próprios problemas, o menor dos quais é o fato de que mexer com estes hormônios pode levar a maiores disfunções hormonais mais à frente. Além disso, não chegam à causa subjacente, que é muito séria em muitos casos.

A endometriose pode não ir embora inteiramente, mas pode baixar e a dor pode ser minimizada


Usualmente, mulheres que tem endometriose dolorosa experimentam uma melhora dos sintomas quando entram na menopausa. Isso é porque seus níveis de estrógenos caem, e naturalmente.

Há outras maneira de reduzir naturalmente os níveis de estrógeno. Perder peso e reduzir o estresse são os dois maiores fatores. Remover fitoestrógenos, que incluem soja, linhaça e todas as oleaginosas e sementes, bem como xenoestrógenos como BPA encontrado em plásticos também já foram implicados nos desequilíbrio do estrógeno.

E há maneiras melhores ainda de trabalhar com a endometriose. Todas elas, holisticamente, são possibilitadas com uma dieta paleo.

A endometriose provavelmente – no mínimo de acordo com a maioria da pesquisa médica e especulação – não afetaria a saúde da mulher se elas não tivessem sistemas imunes comprometidos. Na endometriose, é incerto se a mulher sofre de autoimunidade, ou se elas apenas tem o problema porque seus sistemas imunes estão funciionando em níveis sub-ótimos. Em qualquer dos casos, uma dieta paleo mitiga o problema.

Se a endometriose é autoimune (uma teoria na qual não acredito), uma dieta anti-inflamatória e amiga do intestino deveria melhorar sua gênese e sintomas. Isso significa elimiar potenciais irritantes intestinais como trigo, laticínios, leguminosas e possivelmente solanáceas e ovos da dieta. Eliminar gorduras vegetais ômega-6 também deveria ajudar. 

Se a endometriose vem de autoimunidade deficiente (uma teoria com a qual estou mais confortável), corrigir a inflamação intestinal nesse caso é um longo caminho. Ter uma dieta rica em vitaminas incluindo muitas carnes e vísceras, vegetais e frutas, pobre em açúcar e carboidratos processados, com bastante redução de estresse e bom sono, com exercício moderado e vitamina D por exposição ao sol, deveria ajudar a fortalecer a função imune ao longo do tempo. É imortante saber que não estou prometendo uma cura. Estes problemas podem ser barreiras complexas de se ultrapassar, e podem levar meses ou anos de ajustes e paciência para dar certo.

Então a endometriose não necessariamente vai sumir. Os tecidos podem encolher, mas também podem estar implantados demais para que desapareçam. Mas a endometriose pode ser mitigada, e com uma dieta e estilo de vida que focam-se na nutrição com alimentos não-processados e atividades físicas. A importância do estresse não pode ser ignoraa, também. Ele tem um papel grande na inflamação e no funcionamento do sistema imune. Ir adiante com um tratamento holístico – com redução de estresse, alimentos saudáveis e estilo de vida nutritivo – é percorrer um longo caminho que nos leva à uma feminilidade natural, saudável e forte.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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