A conexão entre estatura e saúde

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Mark Sisson

Estatura historicamente tem sido observada como marcador de saúde e robustez. Nós parecemos aceitar implicitamente que maior é de fato melhor, ainda que não queiramos admitir. Na média, pessoas altas obtêm mais sucesso profissional e ganham mais dinheiro, o candidato mais alto à presidência geralmente vence, e mulheres são mais atraídas por homens altos. Em um nível muito visceral, quanto mais alta a pessoa, mais imponente fisicamente. Afinal de contas, com quem você preferiria brigar - o cara com um soco de longo alcance de cima para baixo, ou o cara mais baixo com braços mais curtos que precisa entrar na sua guarda (apesar de que o Mike Tyson se saia muito bem com tais "limitações") ? E nessa linha, quem você preferiria ter como parceiro - o espécime fisicamente imponente ou o macho mais baixo, presumivelmente mais fraco ?

Nós na comunidade de saúde primal somos rápidos em apontar o fato de que a agricultura reduziu a estatura. Genericamente falando, os registros ósseos indicam que os humanos do paleolítico (e em menor escala, do mesolítico) eram mais altos que os humanos vivendo imediatamente o advento da agricultura. Múltiplas fontes existem, então vamos dar uma olhada em algumas delas antes de prosseguir.

De acordo com um estudo em restos de europeus, antes de 16.000 AC, os homens europeus tinham em média 1.79m de altura e as mulheres 1.58m. Entre 8.000 e 6.600 AC, as estaturas médias tinham caído para 1.66m (homens). As estaturas caíram ainda mais nas populações neolíticas, baixando a 1.64m para os homens e 1.50m para as mulheres - só chegando e ultrapassando os 1.70m no final do século XIX.

Outra fonte mostrou que humanos paleolíticos vivendo entre 30.000 e 9.000 AC tinham quase 1.78m, o que é próximo à média moderna do homem americano. Após a agricultura ser inteiramente adotada, a altura dos machos humanos caiu para 1.61m. As fêmeas foram de 1.66m para 1.54m sob os mesmos parâmetros.

Sabemos que estas mudanças na estatura também refletem uma saúde piorada, porque com a baixa estatura também vem as patologias dentárias como cáries, placa e decaimento, sinais de crescimento lento que indicam casos de desnutrição severa, e anormalidades cranianas que vem da deficiência de ferro. As pessoas ficaram mais baixas, mais doentes e menos saudáveis. A altura não era uma causa da saúde ruim, é claro, mas era um indicador.

A é aí que a estatística da estatura brilha - como um indicador. Em larga escala, o aumento de estatura indica melhora no estado nutricional ou socioeconômico, enquanto decréscimos indicam nutrição ruim, fome, guerra ou crise econômica. Então, à medida que uma população aumenta de estatura, é seguro assumir que suas pessoas ou estão comendo melhor, ganhando mais dinheiro, ou ambos. Se uma população mostra estatura decrescente (ou estagnação, que é o que os EUA tem mostrado), conjeturamos que algo está errado. Não á melhor exemplo moderno de estatura seguindo a saúde do que as Coréias do Norte e do Sul. Diversos estudos mostram que os sul-coreanos são mais altos que suas contrapartes do norte. Uma vez que as duas populações são intimamente relacionadas, diferenças genéticas não podem explicar a discrepância; tem que ser o ambiente, especialmente a nutrição infantil. A crianças norte-coreanas são famosas pela má-nutrição, e a discrepância de estatura entre o Norte e o Sul - entre 7.5 e 10cm, na média - é similar à discrepância de estatura observada entre populações paleolíticas e neolíticas.

Há numerosos outros exemplos. Até o final dos anos 1800, os índios das Tribos das Pradarias do Norte eram o povo mais alto do mundo, chegando aos 1.72m e vivendo em uma dieta nutritiva à base de carne de caça, peixe, frutas vermelhas e plantas nativas. Esta vantagem na estatura desapareceu com a vida nas reservas, é claro. Pão frito, óleo vegetal, açúcar e farinha branca misturados com estresse extremo e dificuldades econômicas são substitutos ruins para carne fresca de búfalo e pradarias abertas. E quanto aos americanos, os que suplantaram as tribos ? Pela maioria dos últimos 200 anos, os americanos eram os mais altos do mundo, até cerca de cinquenta anos atrás, quando a estatura começou a estagnar-se. Hoje, os homens americanos tem cerca de 1.78m, mas não crescemos em décadas e outros países há muito nos ultrapassaram. Enquanto isso, países europeus e asiáticos nos ultrapassaram. Os holandeses, cujos homens tem mais de 1.83m e cujas mulheres tem mais de 1.75m, são agora os mais altos do mundo. Os homens americanos figuram em 9o lugar, as mulheres, em 15o, e qualquer de meus leitores regulares sabe que a situação nutricional da América precisa de um bocado de trabalho. Não é surpresa que estejamos estagnando enquanto outros países com nutrição melhor estejam crescendo.

E ainda assim, com todos as ligações concretas entre a estatura, saúde e nutrição de uma população (especialmente a nutrição infantil), alguns pesquisadores relacionaram estatura "excessiva" a saúde e longevidade ruis. Excluindo os exemplos óbvios de pessoas de baixa expectativa de vida com gigantismo e outras desordens endócrinas, há alguma evidência de que os mais baixos entre nós vivem mais. Thomas Samara, um pesquisador de altura/saúde, escreveu diversos artigos argumentando que maior não necessariamente é melhor. Em um deles, ele revisa evidências humanas e animais e parece apresentar um argumento forte, mas outros argumetaram que Samara ignora evidências em contrário. Enquanto suas escolhas focam-se no aumento da mortalidade por cânceres não-relacionados ao tabagismo nas pessoas altas, ele ignora um bando de evidências que mostram que nas nações industrializadas, pessoas mais altas desfrutam de maior proteção contra mortalidade por todas as causas, incluindo doença cardíaca, derrame e doença respiratória.

E quanto aos centenários ? Conforme Samara nota, eles, juntamente com os nonagenários (entre 90 e 99 anos de idade) são na média mais baixos que o resto da população. Os okinawanos de vida longa são famosos por serem baixinhos, e parece que cada centenário do Mediterrâneo que aparece nos jornais é uma velha e ativa senhora.

Eu gosto de uma das possíveis explicações para os centenários seresm mais baixos e leves, enquanto desfrutam de melhor saúde e longevidade: fator de crescimento similar à insulina, ou IGF-1, uma proteína produzida no fígado e estimulada pelo hormônio do crescimento, que induz o crescimento sistêmico em quase qualquer célula do corpo, incluindo músculo, osso, vários órgãos, cartilagem, pele, nervos e pulmões. Ela afeta até mesmo a síntese de DNA e o crescimento individual de células. IGF-1 é talvez o maior determinante da estatura em humanos: em crianças, IGF-1 correlaciona-se fortemente com o crescimento, IGF-1 está em seu pico durante os estirões da adolescência, e níveis mais altos de IGF-1 geralmente correlacionam-se com a estatura do adulto. Claramente, IGF-1 suficiente é requerido para desenvolvimento musculoesqueletal apropriado, mas e sobre o excesso ? Você pode ter IGF-1 demais ?

Staffan Lindeberg acha que os níveis séricos excessivos de IGF-1 resultantes de uma hiperinsulinemia induzida por dieta estão causando quantidades de crescimento não-saudáveis, que manifestam-se como taxas mais altas de câncer e sim, de estatura em populações ocidentais. Posto de maneira simples, Lindeberg concorda que a altura de uma população é um indicador de saúde, mas apenas até certo ponto, após o qual ela indica níveis excessivos e potencialmente problemáticos de IGF-1. Há provavelmente algo nisto; mulheres centenárias são mais propensas a terem um receptor de IGF-1 mutado que resulta em níveis séricos elevados de IGF-1, enquanto reduz a atividade do receptor de IGF-1. Em outras palavras, o corpo estava produzindo mais IGF-1 para compensar pela falta de atividade do receptor. Esta mesma mutação do receptor foi ligada à longevidade em múltiplos modelos animais resultando em IGF-1 sérico mais alto, e menor atividade do receptor IGF-1 - exatamente como nos humanos centenários. Nos filhos e filhas das centenárias, entretanto, apenas as mulheres mostraram níveis séricos elevados. Os filhos tinham níveis de IGF-1 similares aos homens de controle (aqueles sem histórico familiar de longevidade). As filhas também eram 2.5cm mais baixas que as mulheres de controle; os filhos tinham estatura similar aos controles. Talvez a baixa estatura seja mais benéfica para as mulheres?

Talvez sim. Gavrilova observou cartões de acompanhamento preenchidos por americanos na casa dos 30 anos, que eventualmente tornariam-se centenários, e analisaram as diferenças entre as medidas físicas daqueles que eventualmente tornariam-se centenários e daqueles que não tornariam-se. Enquanto a obesidade (ou "corpulência", como era chamada na época) tinha ligações negativas fortes com a longevidade, a estatura não tinha. O grupo de futuros centenários era em sua maioria pessoas de estatura mediana. Sendo soldados, entretanto, eram exclusivamente homens. De acordo com o estudo da mutação do receptor de IGF-1, somente em fêmeas a mutação está ligada a menores estaturas e maior longevidade.

Pensamento geral ? A estatura está ligada à saúde de uma população e à boa nutrição infantil. Em certos indivíduos, dadas algumas diferenças genéticas, baixa estatura pode indicar o potencial para maior longevidade, mas não em uma escala populacional. Excluindo intervenções farmacêuticas (ou cibernéticas), não há muito que nós adultos possamos fazer para alterar nossas estaturas.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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