O mito ácido-alcalino: Parte 2

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Chris Kresser

Na parte 1 desta série, falei sobre o motivo de a premissa básica da teória ácido-alcalina ser falha, e mostrei que a evidência não suporta a idéia de que uma dieta formadora de ácidos é danosa à saúde óssea. agora quero observar os efeitos da carga ácida dietária em outras condições de saúde.

Pode a acidez ou alcalinidade da sua dieta afetar o seu risco de perda muscular, câncer e outros ?


Perda muscular



Há algumas pesquisas afirmando que dietas formadoras de ácido podem causar perda muscular, e o mecanismo proposto é similar ao da hipótese da osteoporose por resíduo ácido. Alguns pesquisadores hipotetizam que para eliminar o excesso de ácido e manter a homeostase, os rins precisam roubar aminoácidos do tecido muscular (1, 2). Assim como uma carga ácida mais alta aumenta o cálcio na urina, ela também aumenta o nitrogênio na urina, levando alguns a crer que uma dieta formadora de ácidos causa perda de nitrogênio. Entretanto, alguns destes estudos negligenciam a medida do balanço de nitrogênio, então isso não é necessariamente verdade (3, 4). Na prática, um estudo mostrou que uma dieta mais rica em ácidos melhorou o balanço de nitrogênio (5)! Esta teoria também não reconhece que as proteínas, apesar de serem formadoras de ácidos, na prática aumentam a habilidade do corpo de excretar ácido (6). Por último, o único estudo observacional que concluiu que dietas alcalinas aumentam a massa magra sequer mediu a carga ácida da dieta (7). Ao invés, eles usaram a ingestão de potássio como medida aproximada, e simplesmente assumiram que a melhora observada na massa magra foi devido à dieta ser mais alcalina. Isso, juntamente com as limitações que acompanham dados observacionais, torna a evidência menos que convincente, especialmente dado que os testes clínicos tem resultados conflitantes.

Câncer


Uma das afirmações mais populares da dieta alcalina é que ela pode curar o câncer. Os proponentes dizem que como o câncer só pode crescer em ambientes ácidos, uma dieta alcalinizante pode evitar que células tumorais cresçam, e pode eliminar células existentes. Esta teoria é incorreta por algumas razões: Primeiramente, a hipótese depende da habilidade da comida de alterar substancialmente o pH do sangue e do fluido extracelular, que já mostrei não ser o caso (8, 9, 10). Em segundo, o câncer é perfeitamente capaz de crescer em ambiente alcalino. O pH do tecido normal do corpo é 7.4, levemente alcalino - e em quase todos os experimentos feitos com células cancerígenas, elas são cultivadas em ambientes com tal pH (11).

Agora, células cancerosas tendem sim, a crescer melhor em ambientes ácidos, mas a causalidade é revertida. Uma vez que um tumor se desenvolve, ele cria seu próprio ambiente ácido através da estimulação da glicólise e da circulação reduzida - então o pH do paciente deixa de determinar o pH do câncer (12). Não é o ambiente ácido que causa o câncer; é o câncer que causa o ambiente ácido. Além disso tudo, a única revisão extensa sobre acidose "induzida por dieta" e câncer nem sequer menciona isso como mecanismo válido através do qual uma dieta formadora de ácidos poderia aumentar o risco de câncer. Eles discutem uns poucos caminhos metabólicos que poderiam potencialmente ligar a carga ácida dietária e o câncer, mas admitem que isso é na maior parte especulação e que não há ligação direta (13).

Outros efeitos


Há uns poucos estudos observacionais que tentam ligar dietas formadoras de ácidos à hipertensão, mas os resultados são mistos (14, 15). Há também dados observacionais limitados que associam cargas ácidas mais altas com coisas como colesterol alto, obesidade e resistência à insulina, mas não há mecanismos propostos ou estudos clínicos para validar as hipóteses (16, 17).

Há uns poucos artigos de revisão que examinam os efeitos das dietas formadoras de ácido sobre a saúde, mas como você viu acima, a evidência que se tem para revisar é esparsa (18,19, 20, 21, 22). Se você ler tais artigos, vai perceber que sempre que citam estudos mostrando os efeitos deletérios da acidose, estes estudos foram feitos em pacientes com doença renal crônica ou acidose induzida por diabetes. Nos estudos feitos com pessoas saudáveis, estas recebem cloreto de amônia para induzir acidose. O que você não vai achar são estudos clinicos mostrando efeitos de saúde consequentes de acidose "puramente induzida por dieta". (Talvez porque "acidose induzida por dieta" não existe!). 

Você vai perceber também que as duas hipóteses mais fortes lidam com osteoporose e perda muscular, e que ligações com outras doenças são especulativas ou baseadas em dados observacionais. E apesar de conflitos de interesse não necessariamente significarem que a conclusão não é confiável, é interessante notar que uma destas revisões foi financiada pela “pH Sciences®,” que "desenvolve e produz ingreditentes patenteados que segura e efetivamente controlam os níveis de pH biológicos" (23).

Para sumarizar, não estou convencido de que uma dieta formadora de ácido tenha efeitos negativos em pessoas saudáveis, baseado na ciência. Mas só para ter certeza, é sempre uma boa idéia observar culturas saudáveis para verificar se há evidência antropológica que suporte ou refute a hipótese.

Dados evolucionários


Há poucos estudos nos quais os pesquisadores tentaram aproximar a carga ácida das dietas paleolíticas. Um estimou que 87% dos povos pré-agriculturais comiam dietas alcalinas, e propuseram que esta discrepância com as nossas dietas modernas é uma possível razão para o declínio da nossa saúde (24). Entretanto, um estudo mais recente estimou que apenas metade das sociedades caçadoras-coletoras do mundo comem dietas alcalinas, enquanto a outra metade come dietas ácidas (25). Eles argumentam que esta outra estimativa é provavelmente acurada para nossos ancestrais mais antigos, pelo habitat tropical no qual teríamos sido providos com muitas frutas, verduras e legumes. Esta idéia é confirmada por outra análise que mostrou que a carga ácda aumentou com a latitude (26). Mesmo sem o estudo, parece fazer sentido que à medida que os humanos moveram-se para ambientes menos hospitaleiros, o conteúdo animal (e a carga ácida) de suas dietas aumentou.

Dada a ciência clínica abaixo da média nesse tópico, acredito que o argumento evolucionário é de longe mais convincente. Se metade da população de caçadores-coletores do mundo evita as "doenças da civilização" em dietas formadoras de ácidos, parece que a carga ácida tem pouco ou nada a ver com a saúde em geral. Para alguns estudos de caso, podemos sempre olhar para o trabalho de Weston Price para ver claramente que dietas formadoras de ácido não são detrimentais à saúde. Baseado nas descrições de Price, muitas das dietas tradicionais estudadas por ele seriam primariamente formadoras de ácido, tais como a suíça, a maasai e a inuit. E ainda assim, apesar de sua alta ingestão de comidas animais ou grãos, e comparativamente baixa ingestão de frutas e vegetais, eles mantinham excelente saúde.

Conclusão


Eu não nego que muitas pessoas tem melhoras de saúde significativas quando mudam para uma dieta alcalina, mas há um bocado de razões possíveis para isso não estar ligado ao equilíbrio do pH. Comer mais produtos frescos raramente é uma má idéia, especialmente quando eles colocam para escanteio as comidas processadas pobres em nutrientes. Uma pessoa que mude para uma dieta alcalina veria redução significativa no consumo de grãos, que pode causar melhoras de saúde impressionantes para alguém que tenha intestino permeável ou sensibilidade ao glúten. Laticínios também seriam minimizados, o que ajudaria quem tem sensibilidades a eles. E apesar de o açúcar puro não ser um nutriente formador de ácidos, muitos leigos afirmam que ele é - e então dietas alcalinas tendem a conter muitomenos açúcar que a dieta ocidental padrão.

Entre a evidência científica (ou a falta dela) e a pesquisa antropológica, acredito que podemos confiar que a carga ácida das nossas dietas não impacta negativamente pessoas saudáveis. Para aqueles com falha renal ou condições similares que afetam a função renal, é uma outra história - há certamente espaço para a manipulação do pH da urina no tratamento de tais condições. Mas para alguém com rins funcionando bem, não deveria haver preocupação que uma dieta formadora de ácido seja ameaça à saúde.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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