O paciente cardíaco moderno - de um perfil de risco para outro

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Axel Sigurdsson



Apesar de a taxa de mortalidade por doença coronariana (CHD) ter declinado rapidamente durante as últimas décadas, CHD continua sendo a causa de morte mais comum na maioria dos países. A redução na taxa é parcialmente devida a menos pessoas sendo diagnosticadas com CHD, e parcialmente devida a melhor prognóstico dos diagnosticados.

Entretanto, a maré pode estar virando e se observarmos de perto, podemos ver algumas nuvens escuras no horizonte. A epidemia de obesidade recente e o rápido aumento na diabetes tipo 2 podem ter iniciado uma nova pandemia de doença crônica. Obesidade e diabetes são fatores de risco fortes para doença cardíaca, muitos cânceres e Alzheimer.

Para compreender para onde os ventos estão soprando, pode ser útil analisar o paciente cardíaco moderno e compará-lo com o paciente típico dos anos 1980. Como o paciente moderno se parece ? Ele é diferente do paciente dos anos 80 ? Se sim, ainda daremos as mesmas recomendações dietárias e de estilo de vida de 30 anos atrás.

Diretrizes dietárias oficiais tendem a mudar muito lentamente. Para "vingarem" e serem capazes de reverter o rápido aumento nas desordens metabólicas associadas com a obesidade e hábitos dietários não-saudáveis, podemos ter que reagir rapidamente. Podemos também ter que admitir que tivemos um número de erros ao longo do caminho. De outra maneira, vamos encarar problemas de proporções enormes.

É claro que não existe um paciente cardíaco típico. Eles podem ser jovens e velhos, homens e mulheres, magros e obesos, sedentários ou ativos, há todas as variações possíveis. Entretanto, tentar definir o paciente típico pode nos ajudar a compreender se há um padrão ou não.

Os anos 80


Olhando 25 anos atrás, para quando eu ainda estava começando a minha formação como cardiologista, vejo o típico paciente cardíaco como um homem de peso normal, de meia-idade, tabagista, com histórico familiar de doença cardíaca e às vezes LDL elevado. Naquela época, a terapia era relativamente conservadora comparada com hoje, e o prognóstico era geralmente pior. É claro que abster-se de fumar era um ponto chave para tais pacientes. Outras recomendações incluíam uma dieta prudente, com pouca gordura, bastante similar à que ainda é recomendada por muitos profissionais médicos. Estatinas não existiam, mas as recomendações dietárias eram direcionadas primariamente para a redução dos níveis de colesterol.

Como um jovem médico, meu primeiro projeto científico foi coletar dados de pacientes com menos de 40 anos que sofreram infarto agudo do miocárdio entre 1980 e 1984. Felizmente, infartos eram bastante incomuns nessa faixa etária e pouco mais de 50% tinham um pai ou irmão com histórico de CHD. O nível médio de colesterol total nestes indivíduos era 244mg/dL, que era o mesmo entre pessoas saudáveis da mesma faixa etária. Entretanto, os níveis de triglicérides (TG) eram mais altos entre os pacientes de infarto que na população geral. O IMC médio era 26.1, que não diferia significativamente da população geral.

Nós geralmente consideramos os fatores de risco para CHD como sendo tabagismo, pressão alta, níveis altos de LDL, diabetes, obesidade e estresse emocional. Níveis baixos de HDL e altos de TG também podem ser importantes. Nos anos 80, obedidade e diabetes eram muito menos prevalentes que hoje. Por conseguinte, nossa ênfase principal era em controlar a pressão, fazer o paciente largar o tabaco e apressá-lo a reduzir o colesterol através de medidas dietárias.

A situação atual


Recentemente, foi feita no nosso instituto uma análise de pacientes de 40 anos ou menos, que sofreram um infarto entre 2005 e 2009. Assim como no estudo de 1980-1984, houve uma alta prevalência de tabagismo e histórico familiar foi comum. Entretanto, o IMC médio foi de 28.6, que é significativamente mais alto que o estudo dos anos 80.

O nível médio de colesterol total foi 197mg/dL, significativamente menor que nos anos 80. Interessantemente, este nível de colesterol foi significativamnete menor que o colesterol total de indivíduos de idade semelhante na população geral. O HDL foi significativamente mais baixo entre os pacientes, que na população geral.


Então, comparados aos anos 80, os jovens vítimas de infarto atualmente parecem ter mais sobrepeso e menor HDL que a população geral. Curiosamente, LDL alto não parece ser um problema entre estes pacientes. O padrão também foi encontrado no grande estudo “Get With the Guidelines” (N.T.: em tradução livre, "Em dia com as diretrizes"), que mostrou que uma grande proporção dos pacientes admitidos em hospitais nos EUA entre 2000 e 2006 por causa de CHD não tinham LDL elevado. Entretanto, o HDL era geralmente baixo entre estes pacientes.

Tais dados sugerem que a síndrome metabólica está tornando-se mais prevalente entre indivíduos com CHD. Síndrome metabólica é caracterizada por grande circunferência abdominal, altos níveis de TG, baixo HDL, e às vezes diabetes. Uma proporção alta TG/HDL geralmente reflete resistência à insulina e é frequentemente associada com a preponderância de pequenas partículas de LDL. Esse padrão está associado com risco aumentado de eventos cardiovasculares. A síndrome metabólica está fortemente associada com o risco de infarto e derrame.

Um artigo recente do Painel de Consenso da EAS (Sociedade Européia para Aterosclerose) frisou um padrão lipídico que provavelmente causa aterosclerose e portanto aumenta o risco de CHD. A combinação de TG elevado e baixo HDL é fator-chave na determinação do risco em indivíduos com síndrome metabólica.

Uma análise de um grande registro internacional mostrou que indivíduos com índice de massa corporal (IMC) elevado tinham doenças coronarianas mais graves que poderia ser explicadas pela presença dos fatores de risco tradicionais. Outro estudo mostrou que a proporção cintura-quadril estava significativamente associada com o risco de infarto, evidenciando o risco da obesidade abdominal.

Pesquisadores da Universidade de Oxford recentemente acompanharam a saúde de 1.2 milhões de mulheres inglesas e escocesas por quase uma década. Análise dos dados mostrou que a ocorrência de CHD aumentava com o IMC. A cada 5 unidades acrescentadas no IMC, o risco de doença coronariana aumenta 23%.

Um relatório francês mostrou aumento recente no número de pacientes mais jovens com infarto, particularmente mulheres. A proporção de mulheres vítimas de infarto, com menos de 60 anos, aumentou de 12 para 26% em 15 anos. Vale a pena levar em consideração a prevalência de fatores de risco entre tais mulheres. Em 15 anos, o tabagismo aumentou de 37 para 73%, e a obesidade de 18 para 27% entre mulheres com menos de 60 anos que tiveram infarto. A proporção de pacientes jovens sem pressão alta, diabetes ou colesterol elevado, também aumentou significativamente.

A dieta prudente, com pouca gordura, está obsoleta ?


2/3 dos americanos adultos estão sobrepesados ou obesos. As taxas de obesidade mais que dobraram em adultos e crianças desde 1970. A mesma tendência é vista em muitos países mundo afora, tornando a obesidade um problema mundial. Uma mudança tão grande em tão pouco tempo é ao mesmo tempo incrível e assustadora, considerando a forte relação entre doença cardíaca, derrame, diabetes e certos tipos de câncer.

Então, obviamente ainda veremos uma nova onda de doenças crônicas, é só questão de tempo. Entretanto, tudo indica que essa é uma pandemia fabricada pelo homem. Mas aí está a solução. Obesidade é uma desordem evitável. É uma questão de estilo de vida. Entretanto, isso não significa que a solução seja simples, só que é potencialmente prevenível.

A prevenção moderna contra doença cardíaca deveria ter como alvo a obesidade e a síndrome metabólica. Não é mais sobre escolher comida com pouca gordura e prescrever drogas redutoras de colesterol (estatinas). Apesar de que prevenir a obesidade não é tarefa simples, alguns dos alvos são óbvios. Se o consumo excessivo de açúcares refinados não parar, não teremos chance. Tenha em mente a palavra do Dr. John Yudkin em seu livro "Puro, Branco e Mortal":

"Não existe requisito fisiológico para o açúcar, toda a necessidade nutricional humana pode ser atingida completamente sem ter que consumir uma simples colher de açúcar branco ou mascavo, seja puro ou em qualquer comida ou bebida".

Mas, como lidamos com o paciente cardíaco moderno ? Uma dieta low-fat ainda aplica-se ? Provavelmente não. Muitas evidências indicam que a restrição de carboidratos com um consumo de gorduras relativamente alto provavelmente reduz mais a resistência à insulina, diminui o TG, aumenta o HDL e melhora o tamanho e o número de partículas de LDL.

A mudança no perfil de risco de pacientes com doença coronariana ilustra a necessidade da reavaliação das nossas recomendações dietárias. Tenha em mente as famosas palavras de Albert Einstein:

"Insanidade é fazer a mesma coisa vez após vez, e esperar resultados diferentes".

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1 comentários:

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17 de setembro de 2014 15:59 ×

Perfeito!

Congrats bro Alice Dalpicolli Rodrigues you got PERTAMAX...! hehehehe...
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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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