Depressão é uma doença ou um sintoma de inflamação ?

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Chris Kresser


A idéia de que a depressão e outras condições de saúde mental são causadas por um desbalanço químico (particularmente serotonina e norepinefrina) no cérebro está tão profundamente entranhado na nossa psique coletiva, que parece quase sacrilégio questionar isso.

É claro que a indústria farmacêutica desempenhou um papel na perpetuação desta idéia. Drogas antidepressivas, que são baseadas na teoria do desbalanço químico, representam um mercado de US$10 bilhões só nos EUA. De acordo com o CDC, 11% dos americanos com mais de 12 anos tomam antidepressivos, e estes ocuam o 2o lugar entre as drogas mais prescritas (perdendo apenas para as drogas redutoras de colesterol). Médicos prescreveram o assombroso número de 254 milhões de receitas para antidepressivos em 2010 (1).

Novas pesquisas sugerem que a depressão pode ser primariamente causada pela inflamação


Por mais popular que a teoria tenha se tornado, ela está cheia de problemas. Por exemplo:

  • Reduzir os níveis de norepinefrina, serotonina e dopamina não produz depressão em humanos, ainda que pareça fazê-lo em animais.
  • Apesar de algums pacientes deprimidos terem níveis baixos de serotonina e norepinefrina, a maioria não tem. Diversos estudos indicam que apenas 25% dos pacientes deprimidos tem níveis baixos destes neurotransmissores.
  • Alguns pacientes deprimidos tem níveis anormalmente altos de serotonina e norepinefrina, e alguns pacientes sem histórico de depressão tem níveis baixos destes (2)
E se a depressão não for causada por um "desbalanço químico", no final das contas ? Mais especificamente, e se a depressão por si não for uma doença, mas um sintoma de um problema subjacente ?

Isso é exatamente o que as pesquisas mais recentes sobre depressão estão nos dizendo. Uma nova teoria chamada de "Modelo da Depressão Imuno Citocina" afirma que a depressão não é uma doença por si, mas ao invés um "sinal multifacetado da ativação crônica do sistema imune" (3)

Para colocar de maneira clara: depressão pode ser um sintoma de inflamação crônica.

A conexão entre depressão e inflamação


Um grupo extenso de pesquisas agora sugere que a depressão está associada com uma resposta inflamatória crônica, de baixa intensidade, e é acompanhada por estresse oxidativo aumentado.

Em um excelente de artigo de revisão por Berk et al., os autores apresentaram diversas linhas de evidência suportando a conexão entre depressão e inflamação (4):

  • Depressão está frequentemente presente em doenças inflamatórias agudas (5)
  • Níveis mais altos de inflamação aumentam o risco de desenvolver depressão (6)
  • Administrar endotoxinas que provocam inflamação em pessoas saudáveis, dispara sintomas clássicos de depressão (7)
  • 25% dos pacientes que tomam interferon, medicamento usado para tratar hepatite C, e que causa inflamação significativa, desenvolvem depressão séria (8)
  • A remissão da depressão clínica está frequentemente associada com a normalização de marcadores inflamatórios (9)
Durante uma reação inflamatória, químicos chamados "citocinas" são produzidos. Estes incluem o fator de necrose tumoral (TNF)α, interleucina (IL)-1, interferon (IFN)ɣ, e interleucina (IL)-10, entre outros. Pesquisadores descobriram no início dos anos 80 que citocinas inflamatórias produzem uma grande variedade de sintomas psiquiátricos e neurológicos que espelham perfeitamente as características que definem a depressão (10)

Curiosamente, já se mostrou que antidepressivos (particularmente os SSRIs) reduzem a produção de citocinas pró-inflamatórias como TNF-α, IL-1, interferon IFN-ɣ e aumentam a produção de citocinas anti-inflamatórias como IL-10 (11, 12). Eles também mudam a expressão genética de algumas células imunes que estão envolvidas em processos inflamatórios. Isso sugere que SSRIs são anti-inflamatórios, o que explicaria seu mecanismo de ação se a inflamação é um causador primário da depressão.

A pesquisa nesse tópico é robusta, e a conexão entre depressão e inflamação está agora bem-estabelecida. Mas se a depressão é primariamente causada pela inflamação, a questão óbvia que surge é "o que está causando a inflamação ?"

Causas comuns de inflamação e depressão


Se você tem seguido esse blog por qualquer quantidade de tempo, você sabe que a inflamação é a raiz de quase todas as doenças modernas, incluindo diabetes, Alzheimer, doença cardiovascular, doenças autoimunes, alergias, asma e artrite. Então talvez não seja tanta surpresa que a depressão seja causada pela inflamação.

O lado ruim desta conexão é que a nossa dieta e estilo de vida modernos estão cheios de fatores que provocam inflamação - e por conseguinte, doença. O lado bom é que se endereçarmos tais fatores e reduzirmos a inflamação, podemos evitar e mesmo reverter as doenças inflamatórias crônicas que tornaram-se característica da civilização industrial.

De acordo com os autores do artigo que referenciei acima, a seguir estão as causas mais comuns da inflamação que estão associadas com depressão.

Dieta


Há diversos problemas com a dieta moderna. Ela é rica em comidas que provocam inflamação, tais como farinha refinada, açúcar em excesso, gorduras oxidadas, gorduras trans e uma gama enorme de químicos e conservantes. E é pobre em comidas que reduzem a inflamação, como gorduras ômega-3 de cadeia longa, comidas fermentadas e fibras fermentáveis. Numerosos estudos já associaram a dieta ocidental com desordens depressivas severas (13).

Obesidade


Uma das consequências mais danosas da dieta moderna tem sido o aumento dramático na obesidade. Obesidade é um estado inflamatório. Estudos já mostraram níveis altos de citocinas inflamatórias em pessoas obesas, e a perda de peso está associada com o decréscimo destas (14). A obesidade está intimamente ligada com a depressão, e enquanto essa relação é provavelmente multifatorial e complexa, a inflamação parece ter um papel significativo (15).

Saúde intestinal


Já se demonstrou que tanto disrupções no microbioma intestinal quanto intestino permeável contribuem para a inflamação e correlacionam-se com a depressão. Por exemplo, um intestino permeável permite que endotoxinas chamadas lipopolissacarídeos (LPS) escapem do intestino e acessem a corrente sanguínea, onde provocam a liberação de citocinas inflamatórias tais como TNF-α, IL-1 e COX-2 (16). E numerosos estudos já ligaram alterações desfavoráveis nas bactérias que habitam nosso intestino com a desordem depressiva severa (17) .

Estresse


O estresse pode ser uma das causas mais óbvias da depressão, mas a ligação entre o estresse e a inflamação é menos conhecido. Pesquisas já mostraram que o estresse psicossocial estimula a rede de citocinas pró-inflamatórias, incluindo a auemntos de  TNF-α e IL-1 (18). Tais aumentos nas citocinas inflamatórias são, por sua vez, intimamente relacionados a sintomas depressivos, tal como descrito acima.

Atividade física


Há uma quantidade enorme de evidências indicando que o exercício é um tratamento efetivo para a depressão - em muitos casos, tanto quanto ou mais efetivo que drogas antidepressivas. Também já foi mostrado que evita a depressão em pessoas saudáveis e sem sintomas pré-existentes (19). Curiosamente, enquanto o exercício inicialmente produz as mesmas citocinas inflamatórias que estão associadas com a depressão, isso é rapidamente seguido pela indução de substâncias anti-inflamatórias (20). Isto é conhecido como efeito hormético, no qual um estressor inicial provoca uma resposta compensatória no corpo que tem consequências positivas no longo-prazo.

Privação de sono


Perda crônica de sono demonstradamente aumenta os marcadores inflamatórios mesmo em pessoas que são de maneira geral saudáveis (21). E apesar de privação de sono temporária ser usada para melhorar terapeuticamente a depressão, a perda de sono crônica é um fator contribuinte bem conhecido para o desenvolvimento da depressão em primeiro lugar (22).

Infecção crônica


Infecções crônicas produzem inflamação constante, então não é surpresa ver que a depressão está associada com Toxoplasma gondii, vírus do oeste do Nilo, Clostridium difficile e outros patógenos (23, 24, 25) .

Cáries e doença periodontal


Cáries e doença periodontal são outra fonte de inflamanção crônica, e assim potenciais causas de depressão. De acordo com um grande estudo em mais de 80.000 adultos, os pesquisadores descobriram que pessoas com depressão tinham maiores chances de perder dentes mesmo após controlar diversos fatores demográficos e de saúde (26).

Deficiência de Vitamina D


Níveis baixos de vitamina D são comuns em populações ocidentais, e há evidências crescentes ligando a deficiência de vitamina D à depressão. A vitamina D modula a resposta imune à infecção, incluindo a redução de marcadores inflamatórios como TNF-α e IL-1, que são associados com a depressão (27). Já foi mostrado que a suplementação com vitamina D para os níveis séricos de 25D reduz marcadores inflamatórios, mas não em todos os casos (28).


Pensamentos finais e recomendações


A descoberta no início dos anos 1980, de que as citocinas inflamatórias produzem todos sinais característicos e sintomas da depressão, deveria ter feito um grande barulho. Pela primeira vez na história, cientistas descobriram uma classe de moléculas que estavam firme e consistentemente associadas com a depressão e, quando administradas em voluntários saudáveis, produziam todos os sintomas necessários ao diagnóstico da depressão.

Infelizmente, a teoria do "desbalanç oquímico" continua a ser o paradigma dominante para a compreensão da depressão quase 30 anos após esta descoberta profunda, apesar da correlação fraca entre serotonina, norepinefrina, dopamina e sintomas depressivos. Há provavelmente diversas razões para isso - e você estaria correto se imaginasse que algumas delas são financeiras - mas eu vou deixar tal discussão para outra ocasião.

A significância desta descoberta é enorme - tanto para pacientes quanto para clínicos. Ela muda o nosso foco de ver a depressão como uma doença causada por um desequilíbrio químico, que frequentemente requer medicação para corrigir, para ser sintoma de um problema subjacente mais profundo. Também leva a vias de tratamento inteiramente novas - muitas das quais mais efetivas e seguras que drogas antidepressivas.

Compreender as raízes físicas da depressão pode ter um efeito profundo em pessoas que sofrem com ela. Apesar do estigma que circunda a depressão ter diminuído em anos recentes, muitos deprimidos ainda carregam o fardo de achar que há algo errado com eles, e que a depressão que experimentam é "sua culpa". Quando meus pacientes com depressão descobrem que há uma causa fisiológica subjacente para seus sintomas, eles frequentemente sentem um tremendo alívio e empoderamento. Mais ainda, quando endereçamos essa causa oculta, o seu humor melhora dramaticamente e rapidamente percebem que o auto-julgamento e a verqonha que sentiam sobre estarem deprimidos era descabida e injustificada.

Não quero sugerir que fatores emocionais e psicológicos não tenham um papel importante na depressão. Em muitos casos eles tem, e já escrevi sobre isso antes. Entretanto, a premissa da medicina convencional de que a depressão é exclusivamente causada por tais fatores é obviamente uma inverdade, e frequentemente outras causas potenciais ficam sem exploração. O médico prescreve um antidepressivo, o paciente o toma, e e é fim de discussão.

Com isto em mente, o que você pode fazer se estiver sofrendo de depressão ?

  1. Adote uma dieta e um estilo de vida anti-inflamatórios. Isso significa comer comidas integrais, densas em nutrientes, dormir o suficiente, gerenciar o estresse, praticar atividade física apropriada (nem muita, nem pouca) e cuidar do seu intestino. 
  2. Investigue outras causas escondidas de inflamação. Por conta própria ou com a ajuda de um bom praticante de medicina funcional, explore outras causas possíveis de inflamação que possam contribuir para a depressão. Isso inclui problemas intestinais (síndrome do intestino irritável, intestino permeável, disbioses, infecções, etc), infecções crônicas (virais, bacterianas, fúngicas), baixos níveis de vitamina D, cáries e doença periodontal, exposição a metais pesados, mofo ou outras biotoxinas, apnéia obstrutiva do sono, e mais.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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