A epidemia de obesidade está sendo exagerada ?

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

A obesidade atingiu proporções epidêmicas. As pessoas estão gordas e ficando mais gordas, sem um fim à vista. Mesmo as crianças estão gordas atualmente. Certo ? Todos nós vimos as fotos do bebê que só come McDonald's e ouvimos as notícias sombrias sobre o crescimento da obesidade, narradas com imagens das costas de famílias gordas anônimas andando de shorts e roupas de baixo apertadas. Mas enquanto o público em geral lamenta a difusão da epidemia, muitos críticos estão afirmando o oposto: que a epidemia de obesidade é exagerada e inflacionada; que as categorias "com sobrepeso" e "obeso" são esquemas das companhias de seguro para tirar mais dinheiro dos segurados; que a obesidade em si não é um risco real à saúde. Alguns, como Paul Campos, estão até argumentando que o problema de peso dos americanos é "imaginário”.

Seria possível ? Eu estou brigando com moinhos de vento quando grito sobre o nosso problema de peso coletivo ?

Vamos observar as afirmações sendo feitas.

Primeiro, há a afirmação de que a definição de obesidade é arbitrária e que a epidemia de obesidade só surgiu porque nossa definição de obesidade mudou para incluir mais pessoas. De acordo com tal argumento, as pessoas não estão necessariamente mais pesadas, mas o que era previamente assumido como peso saudável foi agora taxado como não-saudável por truques estatísticos. Em seu livro de 2005, "Fat Politics", J. Eric Oliver nos conta a história de Louis Dublin, um estatístico para a companhia de seguros MetLife nos anos 1940, que analisou a conexão entre idade, peso corporal e taxa de morte entre os clientes da empresa. Dublin descobriu que pessoas mais magras geralmente viviam mais  e aqueles que se mantinham próximos do peso que tinham em média aos 25 anos, viviam mais. Ele publicou um novo gráfico de peso que empurrou para baixo o peso saudável, efetivamente tornando milhões de americanos obesos ou com sobrepeso da noite para o dia. E ainda que ele tenha feito isso para predizer quem morreria mais cedo, determinar quem deveria pagar mais pela apólice de seguro, e não desvelar uma ameça à saúde pública, a idéia vingou e formou a base para a política governamental no que diz respeito à obesidade e saúde - que vale até hoje.

A controvérsia está em determinar se os gráficos de peso atuais são baseados em observações médica e biológicas a respeito do efeito de certos IMCs na doença e risco de morte, ou em interesses corporativos. Um IMC maior que 25 é oficialmente "sobrepeso" porque a pesquisa mostra que pessoas com IMC maior que 25 tem mais chance de morrer ou desenvolver diabetes, doença cardíaca, câncer e outras doenças degenerativas ?

Isso nos leva ao segundo grande argumento - que a obesidade em si e por si nunca foi casualmente ligada a problemas de saúde ou mortalidade aumentada.

Não é um argumento novo. Tanto no livro de Oliver e em O mito da obesidade, do Paul Campos, os autores tentam desmerecer as conexões causais entre a obesidade e saúde ruim. De acordo com Campos, Oliver e outros como o movimento Saúde em Qualquer Tamanho (HAES), os efeitos negativos sobre a saúde associados com a obesidade não são causados pelo excesso de peso corporal em si, mas pela inatividade, má alimentação e outros fatores metabólicos que causam ganho de peso. A obesidade é apenas um indicador das disfunções metabólicas subjacentes. E mesmo ela não é um indicador confiável, dizem eles, uma vez que muitas pessoas obesas permanecem "metabolicamente saudáveis". Frequentemente citam estudos que indicam que IMCs ligeiramente altos parecem ser protetores contra a mortalidade precoce, como prova.

Algumas das suas mensagens ressoam. Fixar-se somente ao que a balança diz, enquanto exclui-se a sua aparência, a maneira como se sente, seu desempenho (na academia, no quarto e no banheiro) e sono, não funciona de verdade - e eu sempre afirmei que peso corporal não é o determinante definitivo de saúde. IMC é bom para identificar obesidade em grandes populações, mas é menos preciso no nível individual, quase ao ponto de ser inútil. Pessoas que treinam força vão frequentemente ter IMCs altos, mas pouca gordura corporal. Eles tem sobrepeso ? Tecnicamente, sim. Mas eles são insalubremente sobrepesados ? Absolutamente não.

Mas não estou convencido de que a epidemia de obesidade seja produto da nossa imaginação, nem acho que a obesitade em si seja inofensiva.

A evidência nos mostra que a gordura corporal é um órgão endócrino - ela produz hormônios que ajudam a controlar o peso do corpo e o metabolismo energético, bem como as citocinas inflamatórias. Não é apenas um isolamento inerte que fica quietinho lá. Ela faz coisas, e se você tem muito dela, ela faz coisas ruins. Como:

  • Gordura corporal secreta leptina, o hormônio do "estou cheio". Leptina indica "satisfeito" para o corpo, e ela cresce junto com a gordura corporal. Quanto mais gordura você tiver, mais leptina vai secretar, e menos vai comer. É uma maneira do nosso corpo manter-se em balanço energético, e funciona muito bem - até certo ponto. Infelizmente, quantidades excessivas de gordura corporal secretam mais leptina que o corpo consegue processar, os receptores de leptina tornam-se resistentes ao hormônio, a mensagem "estou cheio" não pode mais ser recebida e a fome permanece sem diminuição. Então, a obesidade frequentemente perpetua a si mesma ao embotar o efeito supressor de apetite da leptina.
  • Gordura corporal também secreta adiponectina, um hormônio anti-inflamatório envolvido na regulação da glicose, oxidação de ácidos graxos, depuração de triglicérides e sensibilidade à insulina.. Mais adiponectina significa melhor queima de gordura, lipídios sanguíneos favoráveis, tolerância melhorada à glicose e níveis mais baixos de insulina. Infelizmente, a relação entre gordura corporal e secreção de adiponectina não é como a que existe entre gordura corporal e leptina. Quanto mais gordura corporal você tem, menos adiponectina você secreta. É por isso que pessoas obesas e com sobrepeso tendem a ter níveis menores deste homônio benéfico.
  • Gordura corporal secreta resistina, um hormônio que aumenta a resistência à insulina. Tanto a genética quanto a obesidade ligada à dieta aumentam os níeis de resistina, sugerindo que a resistina é uma função da obesidade e da gordura corporal, ao invés dos fatores de estilo de vida que levam à obesidade. Se uma ruim e hábitos de exercício ruins aumentam a resisitina, é somente porque eles também aumentam a gordura corporal.
  • Gordura corporal secreta citocinas inflamatórias, também conhecida como adipocitocinasInflamação derivada de adipocitocinas pode causar ou exacerbar a resistência à insulina e outras condições frequentemente associadas à obesidade. Então, a obesidade é inerentemente inflamatória.

Há também diferentes tipos de gordura corporal. Você tem gordura subcutânea, gordura visceral e gordura marrom. A gordura visceral (a que envolve órgãos e concentra-se na área abdominal) contém mais células inflamatórias que secretam citocinas inflamatórias. Ela é mais metabolicamente ativa, mais resistente à insulina, mais perigosa que a gordura subcutânea, que é mais estável e menos inflamatória (mas nem por isso inofensiva!). Enquanto isso, a gordura marrom na prática promove a oxidação dos outros tipos de gordura corporal. É assim que os bebês se mantêm aquecidos sem a habilidade de tremer, e novas evidências revelam que ela tem um grande papel no metabolismo de adultos, também; adultos com maior quantidade de gordura marrom tem menor glicemia em jejum e pesam menos. Se você vai dizer que a obesidade é saudável ou imaginária, tem que levar em consideração as diferenças funcionais entre gordura subcutânea, visceral e marrom.

A respeito da arbitrariedade da interpretação do IMC, ok. Isso é verdade. Não foi baseada na mais rigorosa análise de dados. Ainda assim: como nós interpretamos o IMC mudou, mas como o medimos, não. Digamos que havia um cara com IMC=26, em 1985. Você o coloca numa máquina do tempo e o traz até 2014, e então recalcula seu IMC. Vai continuar sendo 26. A taxa de pessoas com IMCs altos, indicativos de sobrepeso/obesidade/qualquer outro nome que você queira dar, não permaneceu estática. A menos que você esteja afirmando que os interesses corporativos corrompem o cálculo do IMC, o peso corporal tem crescido. Os dados são claros. Julgamentos de valor sobre esses IMCs é outra coisa, mas isso não nega o fato central: as pessoas estão ficando maiores.

Além disso, IMC não é a única maneira de se medir a obesidade. Não é sequer uma maneira particularmente efetiva. Se olharmos para cada uma das outras medidas de obesidade, veremos que o número delas está crescendo. A circunferência abdominal (um marcador discutivelmente melhor que o IMC para predizer mortalidade por doença cardíaca) vem crescendo. Adiposidade abdominal - o tipo mais perigoso (ou o tipo que está mais fortemente associado com saúde ruim, se você é o Paul Campos) - está aumentando e triplicou desde os anos 1960. E apesar disso ser anedótico e então inadmissível pela Medicina Baseada em Evidências, apenas dê uma olhada da próxima vez que for a um parque de diversões ou shopping center e vai perceber que a obesidade permanece um problema.

E as co-morbidades comuns da obesidade e sobrepeso tem aumentado em incidência, também. Fígado gorduroso (mesmo em adolescentes), diabetes tipo 2, apnéia obstrutiva do sono (que está fortemente correlacionada com percentual de gordura corporal, especialmente gordura abdominal), a maioria dos cânceres, e muitas outras condições associadas com a obesidade - estão todas aumentando.

Então vamos lá. As pessoas estão ficando maiores. Estão ganhando gordura na barriga. Co-morbidades comuns da obesidade estão disparando; mesmo que as pessoas estejam vivendo mais, elas estão se sentindo pior. Talvez tais morbidades estejam apenas associadas à obesidade, não causadas ou exacerbadas por ela. Tudo bem. Chame do que você quiser, desde que você admita  que o problema existe.

Porque no fim das contas, perder o excesso de gordura corporal simplesmente funciona. Se é pela saúde inerente aos passos que você toma para perder o peso, pela normalização dos níveis de leptina, resistina e adiponectina e a redução dos níveis de adipocitocinas inflamatórias que vem com a perda do excesso de gordura, ou uma combinação de todos, você fica mais saudável. E um pouco mais magro.

Vamos imaginar por um momento que o acúmulo excessivo de tecido adiposo (obesidade) seja completamente inócuo. Talvez a obesidade e seus males associados tenham simplesmente causas comuns, como inatividade ou uma dieta ruim, e não interajam um com outro. Talvez a gordura corporal seja a maneira de o corpo lidar com o real culpado e a obesidade seja apenas uma indicador confiável de saúde, dieta e hábitos de exercícios ruins (eu suspteio que esse seja parcialmente o caso). Assumindo tudo isso, o que muda ? O que você está fazendo de diferente para melhorar a sua saúde ? Você está perdendo gordura corporal. Se livrar-se da obeidade (através da mudança da sua dieta, da modificação dos seus padrões de atividade, de dormir melhor e de reduzir o estresse) te faz mais saudável, a causa primária não importa. Apenas os resultados. Você não ignora o alarme de fumaça só porque ele não é a causa do fogo.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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