A Dieta de Okinawa

Volta-e-meia, alguém cita o caso da Dieta de Okinawa. As palavras são quase sempre assim:

"Por lá, come-se muitos vegetais e pouca carne, e ainda assim é a região mais longeva do mundo. Chega-se à idade avançada muito mais comumente em Okinawa do que em qualquer outra parte do planeta".


O que a Fundação Weston Price nos diz sobre o assunto é:

E o que os okinawanos comem ? A carne principal da dieta é suína, e não apenas os cortes magros. A culinária okinawana, de acordo com o gerontologista Kazuhiko Taira, "é muito saudável e muito, muito gordurosa", em um artigo de 1996 que apareceu na revista Health Magazine.  E o porco inteiro é consumido, "da cauda às unhas". Menus locais oferecem pés de porco cozidos, sopas de miúdos e orelhas picadas. A carne é cozida em uma mistura de molho de soja, gengibre, alga e pequenas quantidades de açúcar, e então é fatiado e picado para ser usado em fritadas. Os okinawanos comem cerca de 100g de carne por dia, comparado aos 70g/dia consumidos no Japão e apenas 20g/dia na China - e ao menos uma quantidade igual de peixe, totalizando 200g/dia, comparados aos 280g/dia de peixe e carne consumidos na América. Banha, e não óleos vegetais, é usada para cozinhar. Os okinawanos comem bastantes raízes fibrosas como inhame e batatas-doces. Eles consomem arroz e macarrão, mas não como componente principal da dieta. Eles comem uma variedade de vegetais como cenouras, rabanetes, repolho e verduras, tanto frescos quanto em conserva. Tofu sem tempero é parte da dieta, consumido de maneira tradicional, mas no geral a culinária okinawana é condimentada. Pratos de carne de porco são temperados com uma mistura de gengibre e açúcar mascavo, óleo de pimenta e melão-de-são-caetano.
Deborah Franklyn, "Take a Lesson from the People of Okinawa," Health, September 1996, pp 57-63

Em 1992, cientistas do Departamento de Saúde Comunitária, do Instituto Metropolitano de Gerontologia de Tóquio, publicaram um artigo que examinava o relacionamento do estado nutricional para ampliar a expectativa de vida e o estado de saúde de idosos japoneses. Ele foi baseado em três estudos epidemiológicos. 

No primeiro, a ingestão de nutrientes em 94 japoneses centenarios investigados entre 1972 e 1973 mostrava uma proporção maior de proteína animal em relação ao total de proteínas, do que em japoneses contemporâneos. 

O segundo demonstrava que grandes ingestões de leite, gorduras e óleos tinha efeitos favoráveis na sobrevivência por 10 anos em 422 residentes urbanos com idades entre 69 e 71. Os sobreviventes revelaram um aumento longitudinal na ingestão de comidas de origem animal como ovos, leite, peixes e carne ao longo dos 10 anos. 

No terceiro estudo, as ingestões de nutrientes foram comparadas entre exemplos da Prefeitura de Okinawa, onde as expectativas de vida no nascimento e aos 65 foram as maiores do Japão, e exemplos da Prefeitura de Akita, onde as expectativas de vida eram muito menores. 

Percebeu-se que a proporção da energia oriunda de proteínas e gorduras era significativamente maior no primeiro grupo que no segundo.

A ingestão de nutrientes foi comparada com base em registros dietários de 24 horas, os volumes de Cálcio, Ferro, vitaminas A, B1, B2, C e a proporção da energia vinda de lipídios e proteínas foi significativamente mais alta nos okinawanos que nos demais. As ingestões de carboidratos e sal (NaCl) foram menores.
O padrão de ingestão de alimentos em Okinawa foi diferente de outras partes do Japão. As pessoas lá não foram influenciadas pelo Budismo. Por conseguinte, não há tabus no que diz respeito a hábitos alimentares. Comer carne não foi estigmatizado, e o consumo de porco e cabra é historicamente alto. É excepcional dentre o consumo de alimentos no Japão.
A ingestão de carne foi mais alta em Okinawa... Por outro lado, a ingestão de peixo foi mais baixa... A ingestão de NaCl foi mais baixa... Vegetais mais coloridos são mais consumidos em Okinawa... Essas caraterísticas do estado dietário são vistas como fatores cruciais que concedem longevidade e boa saúde aos idosos na Prefeitura de Okinawa...
Inesperadamente, não encontramos nenhum vegetariano entre os centenários. 
Referência
Shibata H., Nagai H., Haga H., Yasumura S., Suzuki T., Suyama Y. Nutrição para Idosos Japoneses. Nutr & Health. 1992; 8(2-3): 165-75

Descrição da comida de Okinawa. Abaixo, um trecho (grifos meus):

Comidas de origem animal, frutos do mar, gorduras e culinária okinawana. 
Comidas tradicionais de Okinawa são extremamente variadas, notavelmente densas nutricionalmente como são todas as comidas tradicionais e estritamente moderadas com a filosofia do hara hachi bu. Enquanto a dieta de Okinawa é, de fato, baseada em plantas, ela certamente não é "low fat" como tem sido postulado por alguns escritores sobre a comida local. Na prática, todas as fritadas de melão-de-são-caetano e vegetais frescos encontrados nas cumbucas de Okinawa são fritas em banha e temperadas com óleo de gergelim. Eu me lembro com carinho de uma fatia de carne de porco salgada adornava cada tigela de udon que eu comi enquanto vivi na ilha. A gordura de porco, como você pode imaginar, não é pobre em gordura - e ainda assim os okinawanos a adoram. Muita da gordura consumida é orgânica, pois os porcos são geralmente criados nos jardins dos lares okinawanos. Carne de porco e banha, tais como abacate e azeite de oliva, são uma fonte sabidamente boa de ácidos graxos monoinsaturados e, se os porcos vagam livres em dias ensolarados, é também uma boa fonte de vitamina D.  
A dieta de Okinawa também inclui consideravelmente mais produtos animais e carne - geralmente de porco - que a dos japoneses e mesmo dos chineses. Cabras e galinhas tem um papel menor, mas ainda importante na culinária okinawana. Os okinawanos em média consomem 100g ou uma porção modesta de carne por pessoa por dia. Comidas de origem animal são importantes em Okinawa e, como todas as comidas, tem um papel importante na saúde geral, bem-estar e longevidade da população. 
Peixes também tem um papel importante na culinária das ilhas. Os frutos do mar consumidos são vários e numerosos - com uma média de consumo diária de 200g.



Mercado em Okinawa

Abaixo, um texto extraído desse site turístico aqui, que descreve alguns pratos típicos:

Carne de porco é um ingrediente muito importante, e cada parte do porco é consumida - dos pés às orelhas, às tripas. Outros ingredientes incluem frutos do mar locais e vegetais e frutas tropicais nativas.
  • Rafuti: pedaços de carne de porco cozida em awamori (aguardente de arroz), molho de soja e misoshiro
  • Sooki: carne de porco cozida com osso
  • Sookibuni: costelas, geralmente temperadas com sal, limão e/ou gengibre
  • Minudaru: carne de porco cozida e temperada com gergelim
  • Nakami-jiru ou nakami ou suimono: sopa de tripa de porco
  • Ashi-tibichi: pé de porco cozido
  • Mimigaa: orelhas de porco em conserva no vinagre
  • Deekuni: cozido de carne de porco e rabanete
  • Kuubuirichi: cozido de konbu (alga) e carne de porco
  • Hiijaa sashimi: carne de cabra crua
  • Hiijaa-jiru: sopa de carne de cabra
  • Chanpuru: fritada com ovos, alho-poró e/ou tofu
  • Goya chanpuru: chanpuru com fritada de melão-de-são-caetano
  • Nakami irichi: fritada de tripa de porco e misoshiro
  • Iriko: peixe-seco, assado
  • Yaeyama kamaboko: torta de peixe
  • Sooki soba: sopa de macarrão com costela suína

Perceba que NÃO estou dizendo que não existem culturas cuja alimentação é mais baseada em vegetais que em animais. Okinawa pode muito bem ser um exemplo disso - pelo que li, não consigo saber qual a proporção entre carnes e vegetais na dieta. Kitava é certamente um exemplo disso.

Só dois pontos é que precisam ficar claros:

  1. Tanto Kitava quanto Okinawa tem dietas similares no sentido de que não usam produtos processados. Ao comerem aquilo que seus ancestrais sempre comeram, as populações se mantêm saudáveis.
  2. Paleo e low-carb NÃO SÃO A MESMA COISA. É perfeitamente possível comer uma dieta rica em carboidratos e ser saudável, desde que você já não tenha "estragado" o seu organismo por anos comendo lixo refinado. Se você (ainda) tem um organismo regulado, passar a comer alimentos não-processados só tem a acrescentar ao seu nível de saúde!

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2 comentários

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10 de junho de 2014 13:36 ×

Tenho a impressão que após 5 meses paleo , meu corpo tolera melhor os carboidratos em eventuais escapadas como nas férias... Como se tivesse resetado meu metabolismo... sei que não posso abusar dele foram muitos anos de pão e brigadeiro .

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Teimosia
admin
10 de junho de 2014 14:26 ×

Um conhecido meu relata a mesma coisa. Ele acabou de completar 1 ano com paleo, voltou a comer pequenas quantidades de macarrão e pão e relata que o peso não se altera.

Eu acredito que o que entra em ação aqui é a tolerância melhorada ao carboidrato, e também a questão da parcimônia. Ele não se ENTOPE de macarrão como fazia antes... Come um pouquinho, e pronto.

Eu, de minha parte, continuo me abstendo do açúcar, trigo e seus amigos. Não por medo do peso aumentar, mas simplesmente por saber o veneno disfarçado que são...

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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