Ciência simples: como o excesso de insulina nos deixa gordos

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.


... obesidade é impossível na ausência de concentrações adequadas de insulina nos tecidos (M. Goldberg, no Jornal da Associação Médica Americana)

No último artigo tocamos no assunto de como os hormônios controlam a conversa metabólica que determina se vamos armazenar ou gastar gordura corporal. Agora vamos nos aprofundar no papel do hormônio insulina nessa conversa, que é conhecida nos círculos científicos como "o fator hormonal mais importante que influencia a lipogênese (criação de gordura corporal)".

O trabalho da insulina é colocar energia dentro das células. Por exemplo, após o almoço, o nosso corpo digere a comida e então libera insulina para levar aquelas calorias recentemente digeridas para as nossas células. Uma vez que a insulina só é ativada quando precisamos injetar combustível nas nossas células, o nosso metabolismo "ouve" a insulina na corrente sanguínea "comunicando" que temos energia a caminho das células e portanto não precisamos usar a energia armazenada - também conhecida como "gordura corporal". Então o hormônio insulina - e não as calorias que comemos - bloqueia a queima de gordura. Esse ponto é extremamente importante.

[A insulina sinaliza] uma abundância de energia [externa], [e]... a quebra de gordura é suprimida e a sua síntese é promovida - G. Wilcox, pesquisador

O nosso metabolismo decide não queimar ou armazenar gordura baseado em calorias. Ele toma tal decisão baseado nos hormônios que essas calorias disparam. É por isso que a qualidade das calorias importa tanto. Como já vimos anteriormente, calorias de maior qualidade disparam hormônios de queima de gordura, enquanto calorias de baixa qualidade disparam hormônios de armazenamento de gordura.

A gordura é mobilizada [queimada] quando a secreção de insulina diminui - Associação Médica Americana

Nós podemos cortar calorias o tempo inteiro e não queimar gordura efetivamente, se estivermos comendo calorias de baixa qualidade que disparam excesso de hormônios armazenadores de gordura como a insulina. Por que ? Hormônios como a insulina removem a nossa habilidade de queimar gordura corporal independente de precisarmos ou não, de acordo com a quantidade de calorias. Esse é o motivo de os cientistas se referirem ao hormônio insulina como o "principal regulador do metabolismo de gorduras".

Aqui vai a parte triste. Calorias de amidos e doces disparam a liberação de quantidades enormes de insulina. Toda essa insulina faz com que as calorias desses amidos e doces entrem nas nossas células, mas ao final desse processo ainda temos insulina sobrando na nossa corrente sanguínea. Esse excesso de insulina remove a nossa capacidade de queimar gordura corporal.

De onde o americano médio consegue suas calorias


(Amidos e edulcorantes compõem 43% do que comemos)


... a obesidade [é caracterizada por] defeitos na ação da insulina, resistência à insulina e hiperinsulinemia - D. A. York, pesquisador do Centro Pennington de Pesquisa Biomédica.

As coisas vão de mal a pior se essa loucura continuar por muito tempo. Não apenas o excesso de insulina destrói a nossa habilidade de queimar gordura corporal, ele torna o metabolismo resistente à insulina. Como esse processo funciona ? Compare tornar-se resistente aos efeitos da insulina com tornar-se resistente aos efeitos do álcool. Quando as pessoas bebem álcool com moderação, tudo vai bem. É preciso relativamente pouco álcool para gerar o efeito desejado, então as pessoas não bebem muito. Entretanto, se as pessoas bebem muito álcool, elas se tornam resistentes aos efeitos do mesmo. Então elas tem que tomar mais álcool para conseguir o efeito desejado. Esse volume de álcool eventualmetne destrói o seu fígado e as faz ganhar gordura corporal. Isso deixa bebedores contumazes em uma posição desafortunada, na qual eles tornaram-se resistentes ao álcool e precisam beber quantidades insalubres dele para conseguir o efeito desejado.

Similarmente, quando as pessoas comem principalmente comidas boas e apenas um pouco de amidos e doces, tudo vai bem. É preciso pouca insulina para conseguir que a energia entre nas células, então o corpo não produz muito dela. Entretanto, se as pessoas comem principalmente amido e doces, os seus corpos tornam-se resistentes aos efeitos da insulina. Os seus corpos tem que produzir mais insulina então, para conseguir colocar a energia nas células. Esse volume de insulina eventualmente destrói o seu pâncreas e as faz ganhar gordura corporal.

Comidas feitas de farinha de trigo respondem por cerca de 20% das calorias na dieta americana... - Marion Nestle, Universidade de New York

Ainda mais desafortunado, no mínimo 1 em cada 4 americanos é resistente à insulina. Todo esse excesso de insulina forma a base da disfunção hormonal que nos faz ganhar gordura. Não apenas ela esmaga nossa habilidade de queimar gordura, mas também auemnta a taxa à qual armazenamos gordura corporal porque insulina em excesso preferencialmente estoca as calorias no nosso tecido adiposo. Isso acontece porque não importa o quão resistentes outros tecidos se tornem à insulina, o nosso tecido adiposo é sempre receptivo. E enquanto isso é tecnicamente bom porque evita que a resistência à insulina nos mate, também pode destruir quaisquer sonhos de perda de peso. Terminamos com mais gordura corporal e sem habilidade de queimá-la. Esse estado tristonho é conhecido como "morrer de fome", e será o assunto do próximo artigo.

Referências



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3 comentários

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5 de maio de 2014 15:42 ×

Olá Hilton, queria saber se você pode me tirar uma dúvida? De acordo com minha médica nutróloga, a gordura também eleva a insulina. Não imediatamente após comermos, mas horas depois. Como estou com resistência à insulina, ela pediu para eu comer, por certo período, basicamente carne e vegetais e cortar as gorduras, mesmo as boas, de azeite de oliva, óleo de coco, manteiga, etc. Você tem alguma informação científica a esse respeito?
Abraços e obrigada pela atenção.

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Teimosia
admin
5 de maio de 2014 17:34 ×

Olá, Cláudia

Eu estou para traduzir o artigo abaixo, faz tempo (mas ainda não consegui): http://www.marksdailyapple.com/does-eating-low-carb-cause-insulin-resistance

Basicamente, ele fala que aderir a uma dieta cetogênica ESTRITA, com menos de 10% de carboidratos, pode induzir uma resistência à insulina que é fisiológica e NORMAL, pois o corpo precisa "separar" um pouco da glicose para uso pelo cérebro ao invés de pelos músculos.

Tirando esse efeito, toda pesquisa (ligada a low-carb ou não) concorda que a resistência à insulina está de alguma maneira ligada ao ganho de peso, e que perdendo peso ela, a resistência, se reduz. E a melhor maneira de ser perder peso, tanto em eficiência quanto em saciedade, atestada por dezenas de estudos, é comendo uma dieta com pouco carboidrato...

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5 de maio de 2014 21:54 ×

Muito obrigada pela pronta resposta, Hilton! Vou ler o artigo que você indicou.

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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