Como tratar a diverticulite naturalmente

Artigo traduzido por Hilton Sousa. O original está aqui.

por Kelsey Marksteiner

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Se você já passou por uma crise de diverticulite, eu estou certo, você será o primeiro a dizer que não é uma experiência agradável. Eu aposto que você está dispostos a fazer um bocado de coisas para evitar que aconteça novamente! Ou talvez você seja alguém diagnosticado com diverticulose pelo seu gastroenterologista, mas você não tem muita certeza do que fazer para evitar aqueles ataques dolorosos dos quais já ouviu falar, e quer aprender mais. O que quer que tenha te trazido aqui, eu estou feliz por você ter vindo. Hoje eu vou dar dicas de como evitar ataques de diverticulite naturalmente.

O que é a doença diverticular ?


Doença diverticular é o termo usado para encompassar um espectro de questões que vão da diverticulose (a presença de bolsas em formato de saco, chamados divertículos, que se sobressaem da parede do cólon) à diverticulite (a inflamação dessas bolsas e os sintomas decorrentes). A doença diverticular é comum no mundo ocidental, com as taxas de incidência mais altas encontradas nos Estados Unidos e Europa. Mesmo nesses paíse, a doença era praticamente desconhecida até 1900, mas a partir dos anos 70 tornou-se a doença de cólon mais comum. [1]

Já se demonstrou que a doença diverticular aumenta com a idade - aos 80 anos, é estimado que aproximadamente 70% dos indivíduos desenvolvam a condição.[2] As estimativas mais altas sugerem que aproximadamente 20% dos pacientes com diverticulose (lembre-se: essas são as pessoas que tem as bolsas, e não a inflamação aguda das mesmas) vão desenvolver diverticulite em algum ponto.[3] Entretanto, estimativas mais novas e precisas sugerem que essa taxa seja algo entre 1 e 5%, dependendo de quão estritos são os critérios de qualificação.[4] É importante fazer notar isso aos que foram diagnosticados com diverticulose mas são atualmente assintomáticos - de acordo com essas novas estimativas, é improvável que você venha a desenvolver diverticulite. Entretanto, se você tem diverticulose e quer ter a certeza de evitar quaisquer problemas, ou se você já teve ataques de diverticulite no passado, continue a ler!

A pesar do fato de a doença diverticular ser tão comum, sabemos relativamente pouco sobre ela e as recomendações comuns são baseadas em dados limitados. Se você foi diagnosticado com diverticulose, pode ter recebido aconselhamento do seu gastroenterologista sobre evitar oleaginosas (castanhas, nozes, etc) e sementes (de girassol, de abóbora, gergelim, linhaça, chia, etc) e comer mais fibras. Entretanto, essas recomendações são baseadas em pesquisas inconclusivas e podem não te prover tanto benefício. Na prática, poucos estudos mostram qualquer benefício em evitar oleaginosas e sementes e um estudo mostra que a ingesta de nozes e pipoca estavam associadas com um risco reduzido de diverticulite e de hemorragia diverticular .[5] Dietas ricas em fibra também são frequentemente recomendadas, apesar da evidência inconclusiva.[6] É evidente que essas recomendações para doença diverticular precisam de uma atualização.

Fatores subjacentes que contribuem para doença diverticular


Novas pesquisas sugerem que os fatores subjacentes à doença diverticular são os seguintes [7,8]:

Inflamação

Enquanto a inflamação é bem-aceita no modelo da diverticulite aguda, mais e mais pesquisas apontam para o envolvimento da inflamação crônica de baixa intensidade no desenvolvimento da diverticulose sintomática. De fato, dos 930 pacientes que se submeteram a cirurgia para tratamento de doença diverticular sintomática não-complicada (SUDD), aproximadamente 75% tinha evidências de inflamação crônica nos divertículos e ao redor dos mesmos.[9] É por essa razão que drogas usadas para tratamento de doenças inflamatórias intestinais, tais como a mesalamina, estão sendo usadas para tratar doença diverticular com bons resultados também (mas espere um pouco, vamos falar sobre maneiras naturais de prevenir a diverticulite, é claro!). É por isso também que o uso crônico de drogas anti-inflamatórias não-esteróides (NSAIDs) tais como ibuprofeno foram comprovadamente ligadas ao risco de complicações diverticulares [10,11], já que elas conhecidamente  aumentam a inflamação intestinal. [12,13]

A calprotectina fecal pode ser medida para identificar inflamação intestinal, e esse é alto naqueles com doença diverticular sintomática, comparada com aqueles com desordens digestivas tais como Síndrome do Intestino Irritável (SII) e doença diverticular assintomática. [14] Se você está se perguntando se você pode ter inflamação intestinal, é bom testar. Está claro que a inflamação crõnica está envolvida no desenvolvimento da doença diverticular, e que aqueles que desejam evitar ataques deveriam tomar medidas para reduzir a inflamação intestinal.

Felizmente, uma das melhores maneiras de se diminuir a inflamação intestinal é comer uma dieta paleo! Ao evitar comidas potencialmente irritantes e inflamatórias, tais como grãos e ácidos graxos ômega-6, podemos reduzir a inflamação intestinal e encorajar uma saúde entérica apropriada. Uma dieta paleo também influencia positivamente as bactérias intestinais, que por sua vez resultam também em inflamação reduzida. Uma dieta paleo para doença diverticular deveria se focar em carnes mais gelatinosas, cozidos e guisados com ossos, vegetais bem cozidos, raízes ricas em amido e comidas fermentadas.

Reduzir o seu nível de estresse também é importante para baixar os níveis de inflamação intestinal, dado que ele comprovadamente a ativa. [15] O estresse pode desencadear o caos no intestino, então é essencial que qualquer programa focado em evitar ataques de diverticulite incluam o gerenciamento adequado do mesmo. Isso significa incorporar atividades que envolvam corpo e mente, tais como yoga, meditação, tai chi,etc, regularmente. Se você é alguém que está constantemente estressado e nunca tira um tempo para cuidadr do seu bem-estar, é pouco provável que tenha sucesso em evitar ataques de diverticulite ainda que implemente todas as outras sugestões desse artigo. Essa é importante!

Outra  maneira de reduzir a inflamação intestinal é suplementar com ervas demulcentes calmantes - já se mostrou que alcaçuz deglicirrizinado (DGL) reduz o estrago à mucosa e a inflamação em roedores [16,17] e é provável que outras ervas demulcentes tais como a Ulmus rubra e a família das Althaeas possam ter o mesmo efeito. Tome tabletes de DGL ou misture uma colher de ulmus ou althaea em uma pequena quantidade de água, e beba 1-3 vezes por dia para ajudar a amenizar e curar a inflamação intestinal. Outra substância curativa para os intestinos - caldo feito com ossos - deveria ser liberalmente consumido para esse propósito.

Flora intestinal alterada

Pequeno supercrscimento bacteriano intestinal (SIBO) é comum em pacientes com diverticulite. [18] Rifaximin, um antibiótico não absorvível (significando que ele só afeta o intestino, e não o resto do corpo), trata efetivamente a SIBO [19] e já se demonstrou que esse tratamento melhora os desdobramentos da doença diverticular. [20] Crescimento bacteriano, juntamente com estase fecal dentro dos divertículos, pode contribuir para disbiose crônica que pode levar a inflamações de grau baixo [21], então melhorar o equilíbrio da biota intestinal é crucial para reduzir as inflamações intestinais.

Suplementação probiótica demonstrou ser segura e potencialmente útil em doença diverticular [22], e é provável que seja ainda mais benéfica quando combinada com outras terapias. Se você já não está consumindo probióticos (sob forma de kefir, kombucha, kimchi, tofu, chucrute, tempeh, etc) então você deia considerar adicionar um suplemento como VSL #3 ou Prescript Assist (apesar de que, mesmo se você estiver consumindo probióticos, um suplemento não é má idéia!). Conforme o Chris mencionou, Prescript Assist tende a ser o probiótico predileto para aqueles sofrendo de constipação, então comece com ele se você tende a ter motilidade intestinal reduzida.

Pré-bióticos também são muito úteis para corrigir disbioses, e deveriam ser considerados por aqueles com doença diverticular. Os pré-bióticos "estimulam seletivamente o crescimento e/ou atividade das bactérias instetinais associadas com saúde e bem-estar" [23], que é exatamente o que queremos quando estamos tentando mudar o balanço dos micróbios para o lado dos mocinhos. Meu pré-biótico favorito é o fructo-oligossacarídeo (FOS) em pó, da Pure Encapsulations, mas outros incluem GOS e a mesmo lactulose. Suplementação com 10g de FOS por dia demonstradamente aumenta a contagem de bífidobactérias. [24] Assim como com todos os pré-bióticos, é importante começar com uma quantidade pequena e aumentar lentamente. Se você é sensível a FODMAPs você vai ter que ser particularmente cuidadoso, visto que pré-bióticos são FODMAPs. Entretanto, se você os tolera bem, eu acho que pré-bióticos podem ser poderosos quando se trata corrigir desequilíbrios da flora intestinal.

Mais importante ainda, é crucial tratar SIBO ou disbiose. Como já discutimos, essas condições são muito comuns naqueles com doença diverticular, etnão vale a pena verificar suas bactérias intestinais para ver como você está indo, usando laboratórios especializados (e aproveite para testar a sua calprotectina). É

Motilidade colônica anormal

Pesquisadores descobriram que aqueles que sofrem de doença diverticular sintomática não-complicada, tem o que se chama de "cólon espástico" nas áreas afetadas pela diverticulose [25]. Isso é similar ao que é encontrado em pacientes com constipação por IBS e em constipação funcional. Esses mesmos pesquisadores também descobriram que pacientes com doença diverticular uma densidade de células intersticiais de Cajal (ICC - celulas que "promovem a paz" intestinal) reduzida [26]. Em estudos com animais com falta de redes de ICC, motilidade instestinal lenta ou ausente é percebida . [27,28] O que isso representa para pacientes com diverticulose é que a falta dessas redes e de um cólon espástico podem causar sintomas crescentes de inchaço e dor. Apesar de ainda não estarmos inteiramente certos sobre o que fazer para afetar diretamente tais células, é importante usar terapias direcionadas no sentido de melhorar a motilidade, se ela é um problema para você.

Saiba que corrigir SIBO e disbiose já são meio-caminho para melhorar a constipação, então é um bom lugar para começar. Dado que nossas fezes são compostas em sua maioria de bactérias mortas, pode-se imaginar que sem quantidades apropriadas de boas bactérias, vamos ter dificuldade em construir o bolo fecal. Pré-bióticos podem ser particularmente úteis para constipação, uma vez que aumentam seletivamente as boas bactérias como os bífidos. Entretanto, se você ainda continua lutando após corrigir a disbiose, aqui vão algumas recomendações adicionais.

Primeiro, a serotonina é uma peça importante na motilidade entérica. A concentração de serotonina naqueles com diverticulose colônica é significativamente mais baixa que o normal e contribui para o tipo de hábito intestinal após uma refeição-teste. [29] Os níveis transcritos de transportador de serotonina (SERT) são também mais baixos naqueles com um histórico de diverticulite, comparados aos controles e aos com diverticulose assintomática [30]. Também sabe-se que a inflamação reduz a expressão e a função do SERT [31,32], então seguir as recomendações a seguir para diminuir a inflamação intestinal é logicamente o primeiro passo para melhorar a motilidade intestinal. Além disso, é também provável que a suplementação com 5-HTP (um precursor da serotonina) pode aliviar a constipação e aumentar a motilidade, uma vez que vai aumentar os níveis de serotonina. Nota: não tome 5-HTP sem falar com seu médico primeiro, se você estiver sendo tratado com algum tipo de medicamento SSRI.

Segundo, se você está atualmente numa dieta paleo com baixo carboidrato, você pode considerar aumentar a ingesta de carboidratos. Na minha experiência trabalhando com pessoas com constipação em dieta paleo, essa é de longe a recomendação dietária mais eficiente que já vi. Se você está perdido sobre quais amdiso adicionar, veja esse excelente manual da Balanced Bites. Nota: dado que SIBO é muito comum para aqueles com diverticulose, esse passo pode ter que esperar até que tenha sido tratada, e pode não ser apropriado para algumas pessoas.

Suplementação com magnésio também pode ser muito útil para pessoas com constipação. Uma vez que apenas cerca de metade dos adultos americanos consomem a recomendação diária de magnésio [33], é seguro dizer que muitos de nós provavelmente não estão tendo o suficiente. Isso é devido ao fato que poucas comidas contem naturalmente altas quantidades de magnésio, e mesmo as que tem, sofrem com o esgotamento do magnésio no nosso solo. Verifique nesse mapa de contéudo de magnésio no solo como a sua região está indo (e pense sobre de onde a maior parte da sua comida vem - se você não estiver comendo comida local, você pode nem mesmo saber qual solo está originando o seu alimento!).

Conclusão

Ao reduzir nossa inflamação intestinal, balancear nos bactérias intestinais, e melhorar nossa motilidade intestinal, é provável que possamos prevenir ataques de diverticulite. Eu deixo a você um conjunto de ações para se lembrar exatamente o que fazer para melhorar cada fator.

Ações para prevenir ataques de diverticulite:

  • Coma uma dieta paleo
  • Reduza o estresse
  • Use ervas demulcentes como DGL, ulmus rubra e althea para acalmar e curar o intestino
  • Tome probióticos
  • Tome pré-bióticos
  • Trate SIBO ou disbiose
  • Reduza a inflamação intestinal para aumentar o funcionamento do SERT, e considere suplementar com 5-HTP
  • Se você está atualmente em uma dieta paleo low-carb, considere adicionar alguns tubérculos ricos em amidos à sua dieta
  • Suplemente com magnésio


Nota do tradutor sobre FODMAPs: 

A sigla significa "Fermentable, Oligo, Di, Mono-saccharides And Polyols" (Oligo, Di, Monossacarídeos e Polióis Fermentáveis), e refere-se a substâncias que são mal-absorvidas pelo intestino delgado. Estão incluídos os oligosacarídeos da frutose (frutanos) e da galactose (galactanos), dissacarídeos (lactose), monossacarídeos (frutose) e açúcares de álcool (polióis) tais como o sorbitol, manitol, xilitol e maltitol.

Exemplos (não-exaustivos) de alimentos que contém FODMAPs: trigo, centeio, cebola, alho, alcachofra, aspargo, beterraba, chicória, alho-poró, radicchio, brócolis, couve-de-bruxelas, repolho, funcho, chocolate, feijão, ervilha, grão-de-bico, lentilha, amendoim, maçã, abacate, lichia, amora, cereja, nectarina, pêra, ameixa, pêssego, melancia, couve-flor, cogumelos, manga, adoçantes artificiais, leite, iogurte, manteiga, queijo...

Resumindo: não queira ser intolerante a FODMAPs :-(

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2 comentários

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30 de maio de 2015 11:44 ×

Olá! Tenho 32 anos e já tive suas crises de diverticulite. Percebo que surge o processo inflamatório um dia depois de comer alimentos ricos em gordura( queijo prato ouou mussarela, linguiça, bacon etc...), cafeína(café, mate, chá preto refrigerante) produtos industrializados, corantes e bebidas gasosas tbm causam dor diverticular. Por vezes senti e as vezes sinto dor diverticular. É então q para td e começo a me alimentar só com líquido. .. (sopas processadas, vitaminas, sucos..). AprendiAprendi a ler os sintomas de qnd eles estaeestão inflamando... e se eu fizer a dieta líquida e não melhorar, já sei que tenho que ir para emergência.

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Teimosia
admin
30 de maio de 2015 19:23 ×

Você tem crises com carnes não-processadas também ? As que você citou (bacon, linguiça) podem ser mesmo problemáticas pelo volume de conservantes que contêm. Já avaliou a sua relação com os FODMAPs ?

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Sobre o autor

Mineiro de Teófilo Otoni, morador de Belo Horizonte. Gosto muito de comer, e depois de alguns anos chafurdando na comilança de bobagens, decidi tomar tento e passar a comer comida de verdade. Descobri o modo de alimentação paleo/LCHF em meados de 2010, mas só comecei a por em prática em fevereiro/2013.

Hoje, sou mais feliz - e os exames de laboratório estão TODOS melhores :-D

Acompanhe minha trajetória em fotos aqui.

Aviso!

Este blog é composto por minhas opiniões pessoais, baseadas em auto-experimentação com dieta paleo, e também por artigos traduzidos - estes produzidos por estudiosos do assunto. As opiniões expressas aqui, minhas ou de outros autores, não podem substituir as de seu médico. O que funciona bem para mim, pode não funcionar para outras pessoas. Se você escolher seguir alguma das opiniões aqui publicadas, faça-o com o conhecimento do seu médico!

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